“He’s a poet, he’s a picker
He’s a prophet, he’s a pusher
He’s a pilgrim and a preacher, and a problem when he’s stoned
He’s a walkin’ contradiction, partly truth and partly fiction
Takin’ every wrong direction on his lonely way back home”

(The Pilgrim, chapter 33 – Kris Kristofferson)

“I come from just the other side of nowhere
To this big time lonesome town”

(Just the other side of nowhere, Kris Kristofferson)

“Waking in the morning to the feeling of her fingers on my skin
Wiping out the traces of the people and the places that I’ve been
Teaching me that yesterday was something that I never thought of trying
Talking of tomorrow and the money, love and time we had to spend
Loving her was easier than anything I’ll ever do again”

(Lovin her was easier, Kris Kristofferson)

Cisco Pike (1972), escrito e dirigido por Bill L. Norton, é um dos filmes mais emblemáticos do movimento Nova Hollywood. Nele, o desencanto e a crise existencial do período pós-1960 são capturados com crueza — a história de uma geração de sonhadores cujos ideais de liberdade colidiram com contradições internas e com as forças sociais ao redor.

Kris Kristofferson, em seu primeiro papel principal, é Cisco Pike, um ex-cantor preso por tráfico, agora em um limbo existencial, pressionado pelo corrupto Sgt. Leo Holland (Gene Hackman) a voltar ao crime. Suas canções, como “The Pilgrim: Chapter 33” e “Lovin’ Her Was Easier (Than Anything I’ll Ever Do Again)”, servem como comentários poéticos sobre a jornada de Cisco, mesclando country e folk em letras que são elegias de fracasso e redenção incerta.

Logo nas cenas iniciais, vemos o protagonista caminhar pelos canais de Venice, um homem que, segundo suas próprias letras, veio “do outro lado do nada para esta grande cidade solitária”. Cisco Pike é, como sugere a narrativa, “uma contradição ambulante”: alguém que tenta fugir do peso do próprio destino, mas insiste em escolher “as direções erradas em seu caminho solitário de volta para casa”.

A fotografia de Vilis Lapenieks reforça esse tom de desbotamento, retratando uma Los Angeles cujas cores evocam um mundo onde o brilho do passado se apagou. Becos vazios, bares desertos, estúdios decadentes e os escombros do Pacific Ocean Park compõem o cenário de um sonho que virou pó.

Sue (Karen Black), a namorada de Cisco, é o contraponto emocional do filme; ela é alguém que pode “apagar os rastros das pessoas e dos lugares onde estive”. Com sua presença calorosa, mas marcada por uma resignação silenciosa, ela representa a possibilidade de um lar que Cisco deseja, mas não sabe como alcançar. Suas cenas, como os momentos de intimidade em um apartamento desleixado, revelam uma conexão genuína, mas também a impotência dela diante das escolhas autodestrutivas de Cisco. Sue é a âncora que poderia salvá-lo, mas sua influência é limitada pelo peso do passado dele.

Sgt. Leo Holland, interpretado por um cínico e perturbado Gene Hackman, é a força antagônica que encarna a corrupção do sistema. Holland não é apenas um vilão; é um espelho distorcido de Cisco, alguém que também faz escolhas moralmente duvidosas. Sua pressão para que Cisco volte a traficar simboliza as forças sociais que esmagam os sonhos da contracultura, tornando a redenção um horizonte distante.

Cisco Pike é um retrato melancólico de um homem preso entre um passado que o define e um futuro que o rejeita; entre a busca por redenção e as cicatrizes de escolhas irreversíveis. Um grande filme esquecido, que fala sobre o luto por uma vida que poderia ter sido — sobre o peso das decisões em um mundo que não oferece segundas chances legítimas. E, por fim, sobre a difícil aceitação de que algumas portas, uma vez fechadas, nunca mais se abrem.

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