TEXTO COM SPOILERS

Em “Focus on Western”, Jack Nachbar comenta que os cineastas Sam Peckinpah e Robert Altman fizeram da mudança de época um tema central em seus westerns pessoais, ao narrar suas histórias avançando uma geração no tempo em comparação ao dos westerns tradicionais. A paisagem mítica e prenunciadora de um futuro melhor cede espaço ao desencanto e a cidades tomadas pelo vício.


McCabe & Mrs. Miller (1971) (em português: “Quando homens são homens“), de Robert Altman, é um anti-western quase documental que desmonta o mito do Oeste americano com a delicadeza de uma balada melancólica. Embalado pelas canções de Leonard Cohen, em sua essência é um lamento pelas almas frágeis e falhas que vagam pelas bordas de uma fronteira moribunda, sonhando com conexão em um mundo de isolamento. Altman retrata uma comunidade recém-formada, precária, onde os sonhos se dissolvem gradualmente com a neve.

A cidade mineira de Presbyterian Church, lamacenta e encharcada pela chuva, é o coração dessa visão desencantada. A fotografia de Vilmos Zsigmond enquadra um purgatório de estruturas semi-construídas, com tons cinza suaves que evoluem para o branco fantasmagórico à medida que o inverno se instala, cobrindo a sujeira e acentuando a desolação. O estilo naturalista de Altman, com seus diálogos sobrepostos e as interpretações espontâneas, reforça a sensação de uma comunidade viva e fragmentada, onde lealdades são mutáveis e a conexão, passageira. Essa ambientação não é apenas um pano de fundo, mas um espelho da fragilidade humana que define os protagonistas.

John McCabe (Warren Beatty) e Constance Miller (Julie Christie) são figuras trágicas, unidas por ambições, porém separadas por seus próprios vazios. McCabe, um forasteiro de cobiças declaradas e poesia murmurada e bebedeira constante, sonha em construir algo duradouro, mas permanece um estranho; seu amor por Mrs. Miller não é correspondido. Seu monólogo na véspera do confronto final — “se ao menos uma vez você pudesse ser doce sem dinheiro para isso”; “eu tenho poesia em mim!” — revela um anseio por pertencimento que o leva a ficar, mesmo diante do perigo, ao contrário de sua vida pregressa de fugas. Mrs. Miller, por sua vez, é uma mulher endurecida pela sobrevivência, cuja fuga para o ópio no desfecho simboliza sua rendição ao desespero. A indiferença da cidade, que se une para salvar uma igreja em chamas, mas abandona McCabe ao seu destino – justamente aquele que foi o responsável pelo crescimento dessa cidade – é destacada na morte patética do jovem cowboy (Keith Carradine) na ponte, um momento banal presenciado em silêncio pelos habitantes.

O tiroteio final, obscurecido pela tempestade de neve, é um dos desfechos mais tristes do cinema. Contrastando com o tom realista do filme, a cena assume caráter surreal, com McCabe cambaleando sozinho, seu destino tão indiferente para a cidade quanto a neve que o enterra. Enquanto isso, Mrs. Miller se refugia no ópio, um último ato de isolamento. Altman não apenas reescreve o western, mas cria uma obra-prima de devastação silenciosa, um lamento pelas almas que, como a neve, caem sem deixar rastros.

Deixe um comentário

Tendência