
Em 2019, escrevi um longo texto sobre Miami Vice (2006), dirigido por Michael Mann (um dos meus cineastas favoritos, de todos os tempos). Nunca havia ficado completamente satisfeito, embora ele condensasse anos e anos de estudos sobre a obra de Mann. Entretanto, de 2019 pra cá, revisitei Thief, Heat, BlackHat, Collateral e Miami Vice, além de ter adquirido 2 novos livros a respeito da filmografia de Mann (um da coleção “The Pocket Essential”, de 2002, escrito por Mark Steensland, que traz insights excelentes acerca das características do “protagonista manniano“; e “Michael Mann: a contemporary retrospective”, de 2024, de Jean-Baptiste Thoret). Decidi que estava na hora de revisar o texto.
TEXTO COM SPOILERS
Introdução: Do Sonho Americano ao Abismo da Identidade
Em 1984, a série Miami Vice, criada por Anthony Yerkovich e Michael Mann, estreava na NBC, redefinindo a estética televisiva com sua fotografia vibrante e colorida, trilha sonora com sucessos pop-rock da época e criações por sintetizadores de Jan Hammer, e uma Miami ensolarada. Por trás do figurino exuberante e das locações exóticas, a série revelava o lado sombrio do sonho americano, explorando a ambiguidade moral de detetives que transitavam entre a lei e o crime. Atualizando temas do cinema noir, o programa tornou-se um marco cultural, com cinco temporadas de sucesso até 1989. Em 2006, Michael Mann, mentor criativo da série, revisitou esse universo com o filme Miami Vice, estrelado por Colin Farrell e Jamie Foxx como os detetives Sonny Crockett e Ricardo Tubbs. Inspirado no episódio “Smuggler’s Blues” da primeira temporada, o filme aprofunda os temas de identidade, simulação e alienação, marcas da filmografia de Mann. Esta resenha analisa como Miami Vice utiliza estética e subtexto para explorar a fragilidade da identidade em um mundo de disfarces, conectando-se a conceitos como o noir e os “não-lugares” de Marc Augé.

Contexto: A Série e o Legado do Noir
A série Miami Vice (1984-1989) combinava a exuberância visual dos anos 80 com uma narrativa que atualizava o cinema noir. Segundo Raymond Borde e Étienne Chaumeton, em “Towards a Definition of Film Noir” (1955), o noir cria tensão ao “remover os pontos de referência psicológica do espectador”, apresentando personagens ambíguos, detetives que caminham entre a luz e a escuridão, e um mundo onde tudo é cinzento e incerto. Embora a série não seja estritamente “neo-noir” (faltam-lhe algumas características essenciais, como o pastiche estilístico), ela herda essa atmosfera de pesadelo, filmada com realismo, e a solidão de protagonistas alienados de qualquer ordem moral. Um diálogo revelador da série de TV, em que Gina pergunta a Sonny, “você se esquece de quem você é?”, e ele responde, “meu bem, às vezes eu me lembro de quem eu sou”, antecipa o tema central do filme: a identidade fragmentada em um mundo de aparências.

Análise Temática: A Identidade sob Pressão
No filme Miami Vice, com uso de câmeras digitais, Michael Mann transforma a estética vibrante da série em uma meditação profunda sobre a identidade e a simulação. As primeiras palavras do roteiro – cuja filmagem consta em uma edição de colecionador em bluray mas que ficou de fora do corte final – são:
“Estamos na delicada interface entre oceano e ar… líquido e gás… o horizonte de eventos em que as moléculas evaporam”.
As palavras sugerem um universo etéreo, onde os limites entre real e ficção se dissolvem. Mann estrutura sua narrativa em torno de cinco temas interligados, que exploram a tensão existencial dos detetives: a batalha contra a corrupção moral, o conflito entre realidade e simulação, a melancolia dos “não-lugares”, o papel redentor da mulher e a multiplicação de reflexos que obscurecem o real.
1. Batalha contra um Mundo sem Virtudes
Os detetives de Miami Vice enfrentam um mundo de vícios, onde cada missão disfarçada os aproxima do abismo moral. A música de abertura, “Numb” do grupo Linkin Park, evoca o entorpecimento de quem “sonda o abismo por muito tempo”, correndo o risco de despencar. Quando Sonny e Tubbs se infiltram em organizações criminosas, a possibilidade de permanecerem nesse mundo sombrio é constante. Como sugere T.S. Eliot, “o heroísmo apadrinha vícios postiços”: o detetive sustenta uma fachada criminosa para cumprir sua missão, mas a resolução de cada caso apenas reafirma temporariamente sua lealdade à lei. Ele sabe que novas tentações o aguardam, e a incerteza de sair ileso não o abandona. Um exemplo, logo na sequencia inicial na boate, mostra um dos policiais infiltrados levando sua “atuação” às últimas consequências, sugerindo o preço dessa dualidade.
Essa luta moral prepara o terreno para o próximo tema: a indistinção entre a identidade real e a simulada, uma tensão que define os personagens de Mann.
2. Conflito entre Realidade e Simulação
Em Miami Vice, os personagens são definidos pelo trabalho que desempenham, mas viver sob disfarce exige criar uma realidade fictícia que, com o tempo, se torna indistinguível da verdadeira. Eles se defrontam com o que Karl Jaspers denomina de “situações limites”: situações (morte, sofrimento, culpa ou absurdo) nas quais o indivíduo confronta os limites da existência, que os força a confrontar incertezas e fragilidades; há 2 caminhos possiveis, erigir espelhos e fumaça para ocultar-se da verdade (que é o que detetives infiltrados acabam fazendo), ou destruir os espelhos e afastar a fumaça para tornar-se mais “real”, mais transparente.
Durante o dia, o detetive assume a identidade de um criminoso, convivendo com a escória; à noite, retorna à sua vida “real”. Essa simulação, essencial para sua sobrevivência, funciona como um escudo, protegendo-o da descoberta, mas também o aliena, afastando-o da autenticidade. Mann ilustra essa tensão com sua estética visual: em primeiro plano, o personagem aparece nítido, enquanto o fundo permanece desfocado, sugerindo um mundo real que só ganha clareza quando o detetive o reconhece. A tecnologia, como os aparatos usados pelos detetives, torna-se uma extensão desse disfarce, permitindo o controle de cada detalhe e a antecipação de imprevistos. Paradoxalmente, essa busca por autenticidade no disfarce distancia o detetive da realidade, ele erige para si mais e mais espelhos e fumaça, e essa alienação conduz ao próximo tema: a melancolia dos espaços transitórios.
3. Melancolia dos “Não-Lugares”
O antropólogo Marc Augé, em Não-Lugares: Introdução a uma Antropologia da Supermodernidade (2016), define “não-lugares” como espaços sem identidade (aeroportos, rodovias, shopping center, hospitais) que promovem e realçam a sensação de solidão e de transitoriedade. Em Miami Vice, Mann utiliza esses espaços para refletir a alienação de seus personagens, que habitam paisagens das quais têm apenas vislumbres parciais. A câmera digital de Mann, com sua textura crua, realça essa experiência: o protagonista contempla paisagens que não pode apreender integralmente, sentindo um “prazer raro e, às vezes, melancólico”, nas palavras de Augé. Esses “não-lugares” aparecem em outros filmes de Mann, como Inimigos Públicos (2009) e Blackhat (2015), onde os personagens transitam por espaços que evocam um passado fugaz e um futuro incerto. Essa solidão dos espaços transitórios amplifica a dificuldade do detetive em distinguir o real do simulado, levando ao próximo tema: o papel da mulher como possibilidade de redenção.


4. O Papel Redentor da Mulher
A personagem feminina, como Isabella, surge como uma rota de escape para o detetive alienado, representando a possibilidade de transcendência e reintegração em um mundo com valores morais estáveis. No entanto, essa redenção raramente se concretiza: o protagonista, preso à sua existência fragmentada, não consegue se vincular a esse ideal.


Isabella, por exemplo, é mais um símbolo de esperança do que uma realidade alcançável. Em um diálogo crucial, ela reflete sobre a efemeridade da vida: “Live now. Life is short. Time is luck.” Sonny, ciente da fragilidade de sua existência disfarçada, responde com um apelo para que ela escape daquele mundo: “Um dia, você deveria simplesmente sair. Longe e rápido.” Quando ela pergunta, “Você me encontraria?”, ele afirma, “Sim, eu encontraria.” Esse momento encapsula a melancolia do detetive, dividido entre o desejo de autenticidade e a impossibilidade de abandonar seu papel. Para muitos dos personagens de Mann, a única forma de habitar este. mundo de modo durável é pela melancolia. Essa tensão culmina no último tema: a multiplicação de reflexos que obscurecem a realidade.
5. Vastidão dos Espelhos
Os problemas do detetive se intensificam quando ele enfrenta dificuldades para distinguir o real da simulação. O mundo real torna-se obscurecido por fumaça e reflexos lançados pelas identidades falsas, como espelhos que multiplicam a imagem até a exaustão. Quando o disfarce é revelado, a melancolia do personagem decorre da percepção de que a realidade, esse “pano de fundo vasto e indiferente”, é implacável. Não se pode controlá-la ou escapar às contingências, como Sonny reconhece: “A probabilidade é como a gravidade: você não pode negociar com ela.” A frase de Isabella, “time is luck”, resume essa visão fatalista. Mann reforça essa ideia com sua mise-en-scène: o contraste entre o foco nítido do protagonista e o fundo desfocado sugere que a realidade só emerge quando o personagem a confronta, mas ela permanece fugidia. Como T.S. Eliot escreve, o detetive “enrijeceu seu corpo numa casa de aluguel”, preso a uma existência emprestada, em busca de um lugar na realidade desconhecida – e que está impermeável à vinculos duradouros (exceto os laços com aqueles que compartilham da mesma vida profissional) e que escapam ao controle.


Conclusão: A Luz na Escuridão
Em Miami Vice, Michael Mann transforma a estética oitentista da série original em uma meditação profunda sobre a identidade, a simulação e a alienação. Por meio de sua câmera digital e uma narrativa que transita entre o real e o ilusório, Mann revela a fragilidade de seus detetives, condenados a habitar um mundo de reflexos e “não lugares”. O filme não apenas atualiza os temas do noir, mas consolida a visão autoral de Mann, que explora os limites da autenticidade em um mundo onde “time is luck”. Ao confrontar o abismo, Sonny e Tubbs buscam, solitariamente, uma luz que os reconduza à realidade – uma busca que, embora incerta, define a essência trágica e humana de Miami Vice.










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