
TEXTO COM SPOILERS
Elaine May, uma das vozes mais singulares e menosprezadas da Nova Hollywood, realizou com Mikey and Nicky (1976) um thriller psicológico disfarçado de drama de amizade – um filme que enfrentou cortes e atrasos na distribuição em decorrência dos conflitos da diretora com o estúdio.

Shown: Elaine May
Na Filadélfia sombria, Nicky (John Cassavetes), um pequeno criminoso marcado para morrer, busca ajuda com Mikey (Peter Falk), amigo de longa data e mafioso frustrado. O que começa como uma fuga desesperada se transforma em um confronto brutal de traição e ressentimento, revelando as cicatrizes de um passado compartilhado. Com sua montagem caótica e personagens ambíguos (e um tanto desagradáveis), este tesouro esquecido dos anos 1970 é um registro visceral de lealdades desfeitas.

A estética de Mikey and Nicky reflete sua atmosfera de paranoia e claustrofobia. A montagem não convencional, com jump cuts e ritmo errático, mergulha o espectador no desespero de Nicky – como na cena de abertura, onde ele se esconde em um quarto de hotel e os cortes abruptos amplificam seu pânico. A iluminação natural, com sombras e luzes frias de postes e bares, dá à Filadélfia uma crueza quase documental, reforçada por cenários decadentes – apartamentos claustrofóbicos, ruas desertas. Close-ups prolongados, como quando Mikey encara Nicky com um misto de pena e raiva, intensificam a tensão, enquanto cortes secos quebram qualquer senso de conforto narrativo. O som é igualmente inquietante: diálogos improvisados, muitas vezes sobrepostos, criam uma cacofonia que ecoa o caos interno dos personagens, enquanto ruídos urbanos – sirenes, motores – reforçam a sensação de perigo iminente. As atuações de Cassavetes e Falk são o coração do filme: Cassavetes faz de Nicky um homem carismático, mas cruel, enquanto Falk cria um Mikey com uma vulnerabilidade que mascara seu ressentimento.
Nicky e Mikey são retratos de uma amizade corroída pelo tempo e pela mágoa. Nicky, um vigarista que manipula sem remorso, busca redenção, mas trata todos – até Mikey – como descartáveis, sua paranoia crescendo a cada sombra. Mikey, um mafioso de segunda linha, carrega o rancor de ser negligenciado pelo pai, pelos chefes e pelo próprio Nicky, sua lealdade testada por anos de traições. A Filadélfia, com seus becos escuros e bares decadentes, é um espelho de sua marginalidade, um mundo onde a confiança é uma ilusão. Durante essa longa noite de fuga, a desconfiança de Nicky e o ressentimento de Mikey emergem em diálogos improvisados, cheios de humor negro – como quando discutem trivialidades, como um relógio roubado, em meio ao perigo. Flashes de seu passado – promessas quebradas, favores não retribuídos – vêm à tona, assombrando o presente e conduzindo a uma tragédia inevitável.

Uma cena significativa ocorre em um bar sujo, onde Nicky e Mikey, exaustos, discutem sob a luz fraca. O close-up prolongado de Falk, com a câmera parecendo sufocá-lo, revela o peso de anos de ressentimento. A improvisação dá à cena uma autenticidade crua, como se os atores vivessem aqueles homens quebrados. É um momento que encapsula a tragédia do filme: a amizade, outrora vital, agora é um campo minado.
Elaine May trouxe a Mikey and Nicky sua genialidade cômica e teatral (de sua época de parceria com Mike Nichols), marcada por diálogos improvisados e personagens moralmente ambíguos. Como Mean Streets de Martin Scorsese ou The Conversation de Francis Ford Coppola, o filme abraça o realismo psicológico dos anos 1970.
Um destaque para a cena final, no qual a tragedia que vinha sendo prenunciada ocorre de fato: encerrada qualquer possibilidade de redenção para Nicky, ela também encerra Mickey num abismo de culpa e tristeza.










Deixe um comentário