
Nos anos 1970, a Itália dos “anos de chumbo” – marcada por violência política, corrupção e crime organizado – deu origem ao poliziotteschi, um subgênero do cinema policial que misturava ação crua com um olhar desencantado sobre a sociedade. Caliber 9 (Milão calibre 9, 1972), de Fernando Di Leo, é um marco desse movimento, combinando o realismo sombrio do noir com uma fatalidade avassaladora.
Ugo Piazza (Gastone Moschin), um ex-presidiário recém-libertado, é acusado de roubar 300 mil dólares de um chefão do crime. Perseguido por gângsteres e policiais, ele tenta provar sua inocência em uma Milão cinzenta. O filme é um retrato brutal do submundo milanês.

Fernando Di Leo, um dos pilares do poliziotteschi, trouxe a Caliber 9 sua paixão pelo noir americano (Point Blank, The Killers) e uma visão cínica da Itália dos anos 1970. Conhecido por sua trilogia do milieu (Caliber 9, The Italian Connection, The Boss), Di Leo combinava ação visceral com comentários sociais, retratando um mundo onde policiais e criminosos são faces da mesma moeda corrupta. Sua influência em diretores como Quentin Tarantino (Reservoir Dogs) e John Woo (Hard Boiled) é evidente na violência estilizada, nos diálogos afiados e na construção de anti-heróis trágicos, como Ugo Piazza.

A estética de Caliber 9 é um reflexo de sua Milão opressiva. A fotografia de Franco Villa, com tons acinzentados e iluminação contrastante, transforma locações urbanas – a Piazza del Duomo, becos industriais – em um cenário de paranoia e decadência. A sequência inicial, uma transação de dinheiro que termina em traição, é magistral: a câmera de Di Leo acompanha o pacote com precisão, enquanto a trilha de Luis Bacalov (o mesmo responsável pela trilha de Django e de outros clássicos), com seus riffs de guitarra e percussão pulsante, amplifica a tensão. A montagem, alternando entre perseguições frenéticas e pausas contemplativas, reforça a sensação de fatalidade, como na cena em que Ugo enfrenta um interrogatório brutal, os cortes rápidos ecoando sua impotência. A violência, estilizada, mas nunca glamorosa, sublinha a brutalidade do submundo, influenciando o cinema de ação moderno.

Ugo Piazza, vivido com intensidade contida por Gastone Moschin, é um anti-herói noir por excelência: calejado, lacônico e preso a um destino que não controla. Acusado de roubar 300 mil dólares, ele enfrenta a desconfiança de todos – o cruel Rocco (Mario Adorf), capanga de um chefão; o ambíguo Chino (Luigi Pistilli), seu ex-cúmplice; e até os policiais, divididos entre corrupção e idealismo. A trama, construída com tensão crescente, mantém o espectador na dúvida: Ugo é vítima ou traidor? O duplo plot twist no clímax, revelando traições inesperadas, é brilhante.
Mas o ritmo sofre em momentos como a cena em que os policiais debatem a corrupção sistêmica. Além disso, personagens como a dançarina Nelly (Barbara Bouchet) são reduzidos a estereótipos (a femme fatale), com papéis secundários que reforçam clichês do gênero. Ainda assim, a jornada de Ugo, marcada por lealdades frágeis e violência inevitável, sustenta o fatalismo noir do filme.

Caliber 9 é um marco do poliziotteschi, um noir pulsante que captura a violência e a corrupção da Itália dos “anos de chumbo” com um fatalismo avassalador. Fernando Di Leo, com sua direção afiada e Milão como personagem, entrega um thriller tenso, influente e imperfeito, elevado pela performance de Gastone Moschin. Um clássico para fãs do gênero policial e dos anos 70.










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