
“Well, let the assholes change the laws and get rid of crime. They can’t get rid of evil. Laws change, people don’t. Never get rid of evil, never.” (Andy Kilvinski)
TEXTO COM SPOILERS
Dirigido por Richard Fleischer em 1972, Os Novos Centuriões (The New Centurions) é um drama policial baseado no romance semi-autobiográfico de Joseph Wambaugh, ex-policial de Los Angeles.
O filme acompanha a trajetória de Roy Fehler (Stacy Keach), um novato idealista, e seu mentor, o veterano Andy Kilvinski (George C. Scott), em meio aos dilemas morais e ao desgaste da profissão. Inserido na Nova Hollywood — movimento cinematográfico dos anos 1960 e 1970 que privilegiava narrativas realistas e crítica social —, a obra se distingue por sua abordagem crua do cotidiano policial, distanciando-se dos estereótipos heróicos comuns em produções da época. Fleischer e o diretor de fotografia Ralph Woolsey adotam uma estética quase documental, utilizando câmera instável e iluminação naturalista nas sequências de patrulha para transmitir a tensão e a imprevisibilidade das ruas. A atuação contida de Scott confere profundidade trágica a Kilvinski, enquanto a trilha sonora de Quincy Jones – mesclando jazz, soul e orquestrações melancólicas — reforça o tom de desesperança progressiva que permeia a narrativa.

O filme transcende o gênero “police procedural” ao explorar a deterioração psicológica dos policiais e questionar a natureza do sistema de justiça. Uma sequência central, ambientada em um bar, encapsula esses temas. Sob a luz difusa e avermelhada, a atmosfera noturna reforça o isolamento de Kilvinski e Fehler, como se fossem estranhos na sociedade que protegem. Kilvinski, agora aposentado, expressa um cinismo profundo: o sistema, diz ele, altera leis para “melhorar estatísticas”, mas nunca erradica o crime. Para ele, o mal é uma força universal, inerente à condição humana, manifestado tanto em assassinatos brutais quanto em conflitos domésticos banais, e que o sistema apenas gerencia — nunca resolve — o crime.
A metáfora do centurião romano, evocada por Roy Fehler, ilumina essa visão: o policial, como um guardião da ordem, trava uma batalha mitológica sem perspectiva de vitória. A direção de Fleischer, com diálogos naturalistas e enquadramentos que capturam a crueza do momento, ancora a reflexão filosófica em uma realidade palpável.

A tragédia de Kilvinski reside na impossibilidade de existir fora da farda. Moldado por uma cultura que glorifica o sacrifício e a entrega total à profissão, pela exposição contínua ao caos que o desconecta da vida civil e o impede de reconectar-se com afetos fora do ambiente de trabalho, e pela institucionalização que subordina sua individualidade à missão coletiva, ele não trabalha como um policial — ele é policial. Como observa a filósofa Hannah Arendt, quando o trabalho define a existência humana, sua ausência revela um vazio existencial. A aposentadoria de Kilvinski não é libertação, mas a exposição brutal de que, sem a guerra contra o crime, ele não sabe existir. Seu suicídio não é covardia, mas a confusão derradeira da incapacidade de encontrar significado fora do confronto com o mal, um destino que o transforma em um centurião sem batalha.

Fehler segue o caminho inverso, porém igualmente trágico. Inicialmente um idealista que compara a polícia aos centuriões romanos, ao longo da história ele testemunha o impacto destrutivo do trabalho em sua vida pessoal — ele é gravemente ferido; seu casamento se deteriora, e ele se torna “um estranho em sua própria casa” (parafraseando Thomas More). Quando literalmente perde seu parceiro Kilvinski, Fehler reconhece a necessidade de priorizar a vida pessoal. Seu breve vislumbre de redenção — representado pela enfermeira Lorrie (Rosalind Cash) — é abruptamente interrompido quando é morto em uma intervenção rotineira.
Sua morte banal, ao intervir em um conflito doméstico, ecoa o cinismo de Kilvinski: o mal não é um inimigo a ser derrotado, mas um ciclo infinito que consome até quem tenta escapar dele.
Os Novos Centuriões não é apenas um filme sobre policiais, mas uma meditação sobre a impossibilidade de enfrentar o mal sem ser corrompido por ele. Kilvinski e Fehler personificam duas respostas ao mesmo dilema: um morre por não conseguir se separar da identidade policial, o outro por tentar. Como centuriões modernos, os policiais do filme enfrentam um paradoxo trágico: proteger a sociedade exige sacrificá-la a si mesmos.










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