
Seconds (1966), dirigido por John Frankenheimer, é um thriller psicológico que disseca a angústia de um homem preso ao vazio de sua própria existência. Arthur Hamilton (John Randolph), um banqueiro de meia-idade, busca uma nova vida ao assumir a identidade de Tony Wilson (Rock Hudson), mas descobre que não há fuga para as inquietudes da alma. Com uma narrativa densa e uma estética marcante, o filme questiona as promessas de renovação pessoal em uma sociedade materialista, revelando a fragilidade da identidade.


A trama gira em torno de uma organização enigmática que oferece a “homens ocos” (dos versos de T.S.Eliot) a chance de “renascer” com um novo rosto e uma nova vida, ao custo de sua autonomia. Arthur, seduzido pela ilusão de um recomeço, entrega-se a esse pacto, mas a organização, com sua visão cínica da natureza humana, manipula suas esperanças, transformando-o em Tony. Essa troca de identidade, longe de trazer realização, aprofunda sua alienação, expondo o conformismo que ele tentava deixar para trás. A narrativa, adaptada do romance de David Ely, constrói um conto de manipulação e desespero, onde sacrifica-se a autenticidade em prol da ilusão.

Essa sensação de perda é amplificada pelo estilo visual de Frankenheimer e do lendário diretor de fotografia James Wong Howe. Filmado em preto-e-branco, com uma estética noir, o filme utiliza ângulos baixos e lentes grande-angulares para criar distorções expressionistas, refletindo a deformação da identidade de Arthur/Tony. Close-ups extremos e uma montagem frenética intensificam a paranóia e o fatalismo, especialmente em cenas de tensão, onde os rostos distorcidos sugerem um desespero sem escapatória. Cada quadro é um lembrete visual de que o protagonista, apesar de seu novo rosto, não pode fugir de si mesmo.
A tragédia de Arthur/Tony culmina em um desfecho sombrio e melancólico, que sublinha a impossibilidade de apagar as angústias internas. Seconds é um estudo poderoso a respeito da condição humana, questionando a busca por significado em um mundo que vende promessas vazias. Com sua crítica ao conformismo e sua estética inquietante, o filme permanece um marco do cinema psicológico, tão perturbador hoje quanto na época de seu lançamento.










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