
O Espantalho (Scarecrow, 1973), dirigido por Jerry Schatzberg, é um road movie melancólico que captura a essência de uma América cínica e fragmentada pelos traumas dos anos 70. Estrelado por Gene Hackman (no auge após vencer o Oscar por Operação França em 1971) e Al Pacino (indicado ao Oscar de ator coadjuvante por O Poderoso Chefão), o filme acompanha dois homens perdidos em estradas poeirentas da Califórnia. Max (Hackman), ex-presidiário de pavio curto, sonha em abrir um lava-rápido em Pittsburgh. Francis Lionel, ou “Lion” (Pacino), ex-marinheiro de ingenuidade quase infantil, quer visitar a ex-companheira Annie que abandonou grávida, há 6 anos, e carrega uma luminária de presente para um filho que talvez nunca conheça. Unidos pelo acaso, eles atravessam uma nação marcada pela desilusão pós-Guerra do Vietnã e pela recessão, em busca de redenção numa sociedade que lhes nega segundas chances.


Max e Lion são espelhos quebrados um do outro: o primeiro, briguento e impulsivo (apesar de afirmar o tempo todo que está “sempre planejando”), é um Homem de Lata sem coração endurecido por pancadas da vida; o segundo, com trejeitos de Buster Keaton, é um Leão sem coragem, fugindo de um passado que o devora. O vínculo improvável entre eles nasce de gestos simples, como quando Lionel oferece seus últimos fósforos a Max, e se fortalece na estrada, filmada por Vilmos Zsigmond com tons de terra e céus opressivos. Cada cidade que cruzam é um retrato da desolação pós-Vietnã: sujeira, lugares semi-destruídos, sucata, trabalhos temporários, gente que olha para eles como se fossem fantasmas de um sonho em que ninguém mais acredita.


A força de O Espantalho reside em sua subversão de O Mágico de Oz (1939). Enquanto Dorothy encontra no reino de Oz um caminho para casa, Max e Lionel enfrentam uma jornada rumo a um futuro que pode ser miragem. Lionel conta a Max sobre a história do espantalho; ele diz: “o fazendeiro coloca um espantalho com um chapéu legal, uma cara engraçada, os corvos passam voando e vêem aquilo, acham engraçado e começam a rir.”

Quando Dorothy encontra o espantalho pela primeira vez, ele pergunta a ela se não a havia assustado; nisso, um corvo pousa em seu ombro, e ele diz: “está vendo? Nem consigo espantar um corvo. Eles vêm de milhas de distância só para comer aqui, e rir da minha cara”.


Max que sente frio e desconfia de todos, lembra o Homem de Lata sem coração. Até os símbolos se invertem: a água que dissolve a Bruxa Má do Oeste, em Lion, vê-lo desabar catatônico numa fonte pública. O gesto de Max, retirando dinheiro escondido na bota para comprar passagens, evoca Dorothy batendo os calcanhares para voltar para casa. Mas, ao contrário do final esperançoso de O Mágico de Oz, onde Dorothy proclama “não há lugar como a nossa casa”, O Espantalho oferece apenas incerteza.


Jerry Schatzberg utiliza esses paralelos para construir uma crítica pungente à ilusão do sonho americano. A América de O Espantalho é um lugar onde os marginalizados são esquecidos, e a busca por redenção é tão frágil quanto a luminária que Lionel abandona em cima de um carro, após sua conversa derradeira com Annie – metáfora do que resta quando as promessas se apagam. Com atuações viscerais de Hackman (que considerava este filme o seu melhor trabalho como ator) e Pacino, o filme se consagra como um retrato devastador da condição humana, um testemunho da impossibilidade de retorno para aqueles que a sociedade deixou para trás
O Espantalho não é sobre chegar a lugar algum, nem sobre chegar à Cidade das Esmeraldas. É sobre dois homens que, por um breve momento, fingem que a estrada pode levar a algo melhor.










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