“Acho que, para chegar ao ponto em que você é capaz de fazer o tipo de sacrifício autodestrutivo que Harry (personagem de Robert Mitchum) faz no final do filme — uma metáfora suicida que também é a metáfora de Taxi Driver —, você precisa ter algumas arestas, alguns problemas que você sente a necessidade de absolver. Na verdade, o que me interessa nos filmes e na vida real é a redenção, porque acredito na purificação e em uma espécie de transcendência, seja por meio da contemplação ou da ação. Em Taxi Driver e Yakuza, é uma redenção por meio da ação, uma ação autodestrutiva. Nos filmes sobre os quais escrevi no livro de Bresson-Dreyer-Ozu, era por meio de purificação ritual — rituais religiosos mais convencionais.” (Paul Schrader, em entrevista para a revista Film Comment, 1976).

TEXTO COM SPOILERS

Dirigido por Sydney Pollack e escrito por Paul Schrader e Robert Towne, The Yakuza (1974) é um thriller que aborda honra, dever, nostalgia e a dignidade trágica das escolhas e suas consequências. Estrelado por Robert Mitchum como Harry Kilmer e Ken Takakura como Ken Tanaka, o filme entrelaça o noir ocidental com o cinema yakuza japonês, criando uma história sobre dois homens trágicos, interligados por um passado compartilhado e que vivem como se estivessem deslocados no presente. 

A trama segue Harry Kilmer, ex-soldado americano que retorna ao Japão nos anos 1970 a pedido de seu amigo George Tanner (Brian Keith) para resgatar a filha deste, sequestrada por membros da Yakuza a mando de Toshiro Tono (Eiji Okada). Esse retorno o reconecta com Ken Tanaka, um ex-yakuza com quem Harry compartilha um passado marcado por uma dívida de honra (em japonês, giri), e o reencontro com um amor do passado, Eiko (Kishi Keiko) – mulher cuja sobrevivência no pós-guerra, junto com a sua filha pequena, se deveu aos cuidados de Harry. À medida que Harry e Ken unem forças contra um inimigo comum, a verdade sobre o passado emerge, forçando-os a confrontar seus destinos. Ambientado no Japão pós-guerra, em meio à rápida modernização e ocidentalização, o filme captura a tensão entre tradições ritualísticas e um presente dominado por interesses capitalistas, refletindo o contexto histórico de um Japão em transformação.

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Fatalismo e o Peso Ritualístico do Passado

The Yakuza estabelece desde o início um senso de fatalismo que paira sobre Harry e Ken, como se seus destinos estivessem selados por escolhas passadas – num período em que existiam honra e dever/obrigação, além de rituais que definiam e estabilizavam a rotina e davam um senso de propósito e significado. Byung-Chul Han, em O Desaparecimento dos Rituais, define rituais como “técnicas simbólicas de encasamento” que estruturam o tempo e criam pertencimento, transformando o “estar-no-mundo” em “estar-em-casa”. Em The Yakuza, rituais como o yubitsume (corte do dedo) e as interações formais entre os personagens, são tentativas de recuperar essa estabilidade em um presente fragmentado. A fotografia de Kōzō Okazaki, com sua iluminação contrastada, reforça a atmosfera de inevitabilidade trágica, enquanto a trilha sonora de Dave Grusin, mesclando elementos ocidentais e japoneses, sublinha o deslocamento temporal. A cena inicial, com Harry em um apartamento estéril em Los Angeles, apresenta-o como um homem fora de seu tempo, enquanto sua chegada ao Japão, com cenários que justapõem templos tradicionais e arranha-céus modernos, amplifica a tensão entre passado e presente. 

A estrutura narrativa do filme ecoa tragédias clássicas, onde os protagonistas são figuras virtuosas e falhas, condenadas por suas ações. A revelação de que Harry cuidou de Eiko e sua filha Hanako durante a ausência de Ken funciona como uma anagnorisis (reconhecimento), que recontextualiza o passado e permite uma catarse emocional. A cena do yubitsume, onde Harry corta o dedo como pedido de perdão a Ken, é o ápice desse fatalismo ritualístico. DE De acordo com Byung-Chul Han, esse gesto restaura uma “comunidade sem comunicação”, oferecendo “duração” em um mundo onde, como ele diagnostica, o tempo é inabitável devido à “tirania da novidade”. A contenção emocional de Mitchum e Takakura nessa cena, com olhares carregados de respeito mútuo, solidifica a profundidade de sua ligação, transformando o fatalismo em uma aceitação melancólica.

Nostalgia, Melancolia e a Transformação Emocional

A narrativa de The Yakuza é impulsionada pela nostalgia. Em seu romance “A Ignorância”, o escritor tcheco Milan Kundera escreve que a nostalgia é “o sofrimento causado por um desejo irrealizável de retornar”. Harry e Ken persistem num passado onde códigos de honra, como o giri, definiam suas identidades e estabilizavam suas vidas. Essa nostalgia é evidente na cena em que Ken explica o conceito de giri ao personagem Dusty.

Ainda que exista ressentimento entre esses 2 protagonistas, Harry e Ken, eles estão indissociavelmente ligados pela mesma mulher (Eiko), e Ken reconhece que tem uma dívida impagável com Harry, por ele ter cuidado de Eiko e Hanamoto. No entanto, a revelação sobre qual a relação que de fato existe entre Ken, Eiko e Hanamoto – e que Harry protegeu a família de Ken sob completa ignorância dessa relação, achando que Eiko e Ken fossem irmãos – transforma essa nostalgia em melancolia, uma aceitação dolorosa da realidade. Byung-Chul Han, que em seu livro escreve que quer evitar a nostalgia saudosista, veria essa transição (de nostalgia em melancolia) como uma resposta à “genealogia do desaparecimento” dos rituais, onde os personagens encontram significado em gestos simbólicos mesmo sabendo que o mundo ritualístico está em declínio. A cena do yubitsume é o momento culminante dessa transformação. A atuação de Takakura, com sua característica contenção, transmite o peso da dívida que ele reconhece em Harry, enquanto Mitchum imbui o gesto de Harry com uma exaustão resignada, mas digna. Esse ritual não apenas restaura o equilíbrio entre os dois homens, mas também solidifica a amizade baseada no dever. Temos aqui o que Chul Han chamou de “ética das belas formas”, quando o ritual transcende a violência para criar um espaço de reconhecimento mútuo. As cenas de intimidade doméstica, como os momentos na casa de Wheat (Herb Edelman), onde Harry encontra uma pausa temporária, reforçam essa busca por “encasamento”, mas também sublinham a transitoriedade desses instantes em um mundo que desvaloriza os rituais.

Conflito Cultural e a Perspectiva do Estrangeiro

Harry, como um americano que internalizou os códigos yakuza durante sua estadia no Japão pós-Segunda Guerra, é um estrangeiro que nunca pertence plenamente a esse mundo (um “gaijin”). Sua perspectiva de outsider reflete o olhar ocidental do filme. Essa tensão cultural é evidente nas interações entre Harry e Ken, onde o respeito mútuo coexiste com uma barreira implícita: Ken vê Harry como um aliado, mas também como um forasteiro; ele “não faz parte da família”. A cena em que Harry navega pelo submundo yakuza, com sua postura de anti-herói noir contrastando com a formalidade dos rituais japoneses, destaca essa dualidade. O Japão dos anos 1970, capturado em cenários que justapõem o dojo de Ken com os escritórios modernos de Tono, serve como metáfora para um país dividido entre tradição e modernidade, ecoando o contexto histórico de ocidentalização acelerada.

Essa perspectiva externa também complica a nostalgia de Harry. Como soldado na ocupação pós-guerra, ele era um agente de um sistema imperialista, o que sugere que sua visão do passado “honroso” é parcial. Tomando conceitos de Byung-Chul Han, a idealização de Harry reflete uma “percepção simbólica” enfraquecida, incapaz de captar as contradições do mundo yakuza. The Yakuza antecipa a obsessão do roteirista Paul Schrader com personagens deslocados – que ele também iria explorar futuramente em Taxi Driver (1976).

A Estética da Violência e os Rituais

As sequências de luta, como o ataque ao escritório de Tono, são coreografadas como danças, com movimentos precisos de espadas que evocam os filmes de samurai de Akira Kurosawa e Masaki Kobayashi. A câmera de Okazaki, com enquadramentos que destacam a simetria dos combates, combinadas com a atuação contida de Takakura e a presença cansada de Mitchum, criam uma poesia trágica: a violência em The Yakuza é estilizada e ritualística, e funciona como uma extensão dos códigos de honra. 

No entanto, o filme sugere que esses rituais violentos estão obsoletos. A traição de Tanner não se revela tão surpreendente quanto a de Toshiro Tono, que desrespeita os códigos yakuza por ganância, o que deixa à mostra a corrupção interna desse sistema e, de certa forma, desafia a nostalgia de Harry e Ken. Recorrendo à Byung-Chul Han, a violência ritualística em The Yakuza é uma resistência à “comunicação sem comunidade” do presente, mas também uma elegia a um mundo em declínio, onde gestos simbólicos perdem força diante da lógica do consumo.

Eiko (Kishi Keiko) é também uma figura trágica, que reflete os mesmos códigos de dever que guiam Harry e Ken. Sua decisão de não se casar com Harry por conta de seu vínculo com Ken – ainda que Ken tenha desaparecido por 5 anos e Harry tenha cuidado dela e da filha nesse tempo – é um ato de giri tão profundo quanto os sacrifícios masculinos, mas confinado ao domínio doméstico. A cena do reencontro com Harry, com olhares carregados de emoção contida e pausas significativas, é um momento de beleza triste, onde essa contenção de ambos revela o peso de um amor impossível: a união está fadada a não se concretizar, por vínculos que não podem ser desfeitos – vínculos que ela omite de Harry. Byung-Chul Han, em sua defesa dos rituais como antídotos ao narcisismo, veria Eiko como uma figura que encarna o sacrifício silencioso, semelhante ao yubitsume de Harry. Os códigos de honra afetam homens e mulheres de maneiras distintas, mas igualmente trágicas.

Capitalismo vs. Honra

The Yakuza opõe os códigos de honra ritualísticos ao pragmatismo capitalista, personificado por Tanner, que manipula Harry, e Tono, que trai os oyabun (os outros líderes yakuza) por ganância. No entanto, essa dicotomia é mais complexa do que parece. O mundo yakuza, supostamente regido por honra, está corrompido pela violência que sustenta o sistema. A erosão dos rituais pela lógica da eficiência e do consumo reflete-se na desorientação de Harry e Ken, cuja nostalgia pode ser uma ilusão, já que o passado nunca foi tão puro quanto imaginam – Harry, como soldado na ocupação, já era parte de um sistema de poder, e a deterioração dos valores não é apenas um efeito do capitalismo ocidental mas  consequência da erosão interna do mundo Yakuza.

A Dignidade Trágica das Escolhas

The Yakuza sugere que as escolhas passadas, embora condenem os personagens ao isolamento e resultem em eventos devastadores, também definem sua dignidade. Harry não pode retomar o passado com Eiko, mas sua decisão de realizar o yubitsume o alinha aos códigos que admira, mesmo sendo um estrangeiro. A cena, com sua formalidade ritualística e a exaustão visível de Mitchum, é um gesto de resistência ao presente desprovido de significado. Ken, por sua vez, tentou se afastar do mundo Yakuza por 10 anos, mas foi obrigado a retornar a ele por “dever” à Harry – com consequências trágicas.

A cena final, com Harry sozinho no aeroporto, sublinha que a redenção moral não apaga a solidão. Para Byung-Chul Han, atos como o yubitsume oferecem “duração” e pertencimento, mas em um mundo onde os rituais estão desaparecendo esses gestos são apenas uma pausa temporária na “crise permanente” do presente. Harry e Ken são personagens que encontram significado em sacrifícios autodestrutivos, mas pagam o preço com consequências trágicas e isolamento. Esse equilíbrio entre dignidade e desespero reflete o contexto do Japão pós-guerra, onde a nação tentava reconciliar tradição e modernidade.

Conclusão

The Yakuza é uma obra que combina a tensão de um thriller com a gravidade de uma tragédia clássica. Seus temas – fatalismo, nostalgia, melancolia, rituais, conflitos culturais e a ambiguidade entre honra e capitalismo – são articulados com maestria pelo diretor Pollack e pelos roteiristas Paul Schrader e Robert Towne, e elevados pelas atuações de Mitchum, Takakura e Keiko. A leitura de Byung-Chul Han sobre o desaparecimento dos rituais ilumina a luta de Harry e Ken para encontrar “encasamento” em um presente que desvaloriza gestos simbólicos e conceitos de honra/dever. Trata-se de uma elegia à beleza trágica de viver com as consequências das próprias escolhas.

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