Os dicionários definem “paródia” como “imitação irônica, jocosa; obra que imita outra, com o objetivo de satirizar ou ridicularizar seu conteúdo”. Uma obra que parodia outra tem por objetivo apontar suas falhas, se opor a ela. Segundo Linda Hutcheon em “A theory of parody: the teachings of twentieth-century art forms”, este é

“o ponto de partida formal para o componente de ridículo habitual da definição: um texto é confrontado com outro com a intenção de zombar dele ou de o tornar caricato.”

Entretanto, o prefixo “para” (πapá) em grego também pode significar “ao lado de”, sugerindo intimidade, em vez de contraste. E é nesse sentido que Hutcheon define parodia:“repetição com diferença”, com possibilidade

“transformadora no seu relacionamento com outros textos; a parodia é uma das formas mais importantes da moderna auto-reflexividade, é uma forma de discurso interartístico.”

Sob essa definição, podemos entender o cinema de Quentin Tarantino como uma paródia, em que uma manifestação artística é construída pela interação com outras pré-existentes – ele não apenas homenageia, mas subverte gêneros cinematográficos, misturando-os para formar algo novo e desestabilizador. Bastardos Inglórios é uma paródia dos filmes de aventura da 2ª Guerra Mundial; uma celebração de intertextualidade, na qual gêneros cinematográficos colidem para criar uma narrativa que é, ao mesmo tempo, catártica, irônica e profundamente cinéfila. O filme se transforma em uma reescrita da história, e o cinema (literalmente, no caso do incêndio no cinema) se torna o espaço de redenção e vingança. 

A trama se desdobra em dois arcos principais. De um lado, temos os “Basterds” (a grafia incorreta se deve ao fato de que Tarantino rascunha suas idéias iniciais à caneta, e sua escrita difícil de entender), um grupo de soldados judeus liderados pelo tenente Aldo Raine (Brad Pitt), cuja missão é matar e escalpelar nazistas. De outro, acompanhamos Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent), uma jovem judia que escapa do massacre de sua família e planeja uma vingança contra os nazistas em seu cinema em Paris. Esses fios narrativos convergem em um clímax incendiário – literal e figurativamente – onde o cinema se torna o palco de uma redenção histórica.

Para contar essa história, Tarantino evoca Os Doze Condenados (1967) na formação de sua equipe de renegados, mas exagera seus traços até torná-los caricaturas sádicas, como o “Urso Judeu” (Eli Roth) e seu “lendário” taco de beisebol. A trilha sonora, com faixas retiradas de westerns spaghetti, transporta a estética de Sergio Leone para a França ocupada, transformando a guerra em um duelo moral. O filme dentro do filme, Nation’s Pride (que foi dirigido por Eli Roth), parodia a propaganda nazista, enquanto a figura de Shosanna remete às heroínas de film noir, subvertidas em uma vingadora implacável.

A vingança é o tema preferido de Tarantino, e é o motor emocional do filme. Em seu livro Especulações Cinematográficas, ele afirma: “os filmes de vingança, com os finais repletos de dinamismo e sangue espirrando nas paredes – eram o meu ideal de diversão no cinema.”Bastardos Inglórios entrega isso com uma catarse hiperbólica: nazistas são trucidados, escalpelados e queimados vivos em cenas que misturam violência estilizada com humor negro.

Bastardos também explora a metalinguagem. O cinema, representado pelo Le Gamaar de Shosanna, é tanto arma quanto redentor. Quando o celuloide pega fogo, destruindo os nazistas, Tarantino celebra o poder do meio cinematográfico de reinventar realidade. A cena final, com Aldo Raine marcando a testa de Hans Landa (Christoph Waltz, vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante por este filme) e declarando “Esta pode ser a minha obra prima”, é o próprio Tarantino falando, reivindicando a obra como um marco de sua carreira.

Outro destaque é o uso da linguagem. As cenas de tensão, como o confronto no bar ou a abertura do filme com Landa interrogando um fazendeiro francês, fazem uso do francês, alemão e do inglês de forma realista e irônica – e como um exercício de poder. Landa, um vilão carismático que parodia o arquétipo do nazista erudito, usa sua fluência para manipular, enquanto os Basterds brincam com sotaques ruins para enganar. Essa obsessão pela linguagem reforça a paródia, subvertendo as convenções de filmes de guerra onde todos falam a mesma língua.

A genialidade de Bastardos Inglórios se deve à sua força de parodia; se tivesse sido realizado por um cineasta menos consciente do poder do cinema (e menos autoconsciente de suas referências cinéfilas) se tornaria meramente um pastiche. Nas mãos de Tarantino, o filme homenageia e subverte seus antecessores, e se transforma em um conto de vingança e uma carta de amor ao cinema como força redentora.

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