
A filmografia de Clint Eastwood, como diretor e ator, permite uma profunda reflexão sobre a natureza da justiça, da moralidade e da agência humana e suas consequências. Em westerns como Cavaleiro Solitário, A Marca da Forca, O Estranho sem Nome, há o retrato da justiça como ato de violência redentora, conduzido pelo herói solitário que supera o mal em um mundo onde as instituições são corruptas ou ineficazes. Contudo, a partir de Os Imperdoáveis (1992), observamos uma mudança significativa em sua perspectiva filosófica sobre a relação entre ética, violência e sociedade, que evolui para questionar a legitimidade da violência, explorar sua natureza sistêmica e, finalmente, em Jurado Nº 2 (2024), propor a justiça como uma manifestação da virtude (em sentido aristotélico: excelência moral praticada) e da verdade (no sentido socrático de alinhamento entre ação e conhecimento ético). Três filmes de Clint Eastwood — Os Imperdoáveis (1992), Sobre Meninos e Lobos (2003) e Jurado Nº 2 (2024) — ajudam a delinear a maneira como o diretor reconfigura a relação entre justiça, violência e responsabilidade moral.
TEXTO COM SPOILERS
Os Imperdoáveis: O Desmascaramento da Violência Redentora

Os Imperdoáveis: O Desmascaramento da Violência Redentora
Os Imperdoáveis (Unforgiven) é um western revisionista que subverte a mitologia do herói vingador. No Wyoming de 1880, um cowboy mutila uma prostituta em Big Whiskey. O xerife Little Bill Bannister (Gene Hackman) apenas ordena que os agressores paguem compensação ao dono do bordel. Insatisfeitas, as prostitutas fazem uma vaquinha e oferecem recompensa pela morte dos cowboys. O jovem Schofield Kid (Jaimz Woolvett) procura William Munny para caçar a recompensa. Munny (Clint Eastwood) é um notório ex-pistoleiro, atualmente viúvo, que agora vive como criador de porcos no Kansas, com seus dois filhos; ele abandonou a violência há anos por influência de sua falecida esposa. Relutante, Munny aceita, pela necessidade financeira, e recruta seu antigo parceiro Ned Logan (Morgan Freeman). O grupo mata o primeiro cowboy. Durante a perseguição do segundo, Ned desiste e é capturado, torturado e morto por Little Bill. Ao descobrir a morte de Ned, Munny retorna à cidade sozinho, mata Little Bill e vários homens em um tiroteio brutal e desaparece.
William Munny retorna à violência para vingar uma prostituta mutilada em um contexto de instituições corruptas representadas pelo xerife. Diferentemente da maioria dos westerns tradicionais, o filme expõe a complexidade moral da violência. Eastwood desmonta dois pilares do gênero:
· Dicotomia herói/vilão: os paralelismos entre Munny e Little Bill — ambos com passados violentos — sugerem que herói e vilão compartilham traços comuns, desafiando a dicotomia moral tradicional dos westerns.
· A violência como solução: o mecanismo da violência redentora é desarmado quando a vítima é percebida como tal, quando sua humanidade é evidenciada; por essa razão, antes de infligir a agressão, a vítima precisa ser desumanizada por meio de um discurso que, ao destacar somente seus traços negativos ou imputar-lhe aspectos desprezíveis, justifica o ato. Com o passar do tempo, a culpa e o peso da violência do passado levam os protagonistas a reformularem seus atos precedentes, mas agora sob a perspectiva da vítima. A fala de Munny, “matar um homem é uma coisa infernal. Você tira tudo o que ele tem e tudo o que poderia ter um dia”, revela a gravidade da violência, desmitificando sua suposta redenção. O resultado é que atos violentos perdem sua aura mitológica e se mostram claramente o que são de fato: ações arbitrárias com consequências trágicas.
Embora as ações de Munny restaurem a ordem na comunidade, elas ocorrem a um alto custo pessoal, bloqueando sua tentativa de redenção. “Os Imperdoáveis” marca o início da reconfiguração da violência redentora, sugerindo que ela pode até restabelecer algum senso de ordem em um mundo sem lei, mas não purga o mal completamente e perpetua um ciclo de sofrimento.
Sobre Meninos e Lobos: A Violência Sistêmica e o Desespero Comunitário

Em Sobre Meninos e Lobos (Mystic River), Eastwood aprofunda sua crítica à violência, deslocando o foco do indivíduo para a comunidade. O filme acompanha três amigos de infância — Jimmy (Sean Penn), Dave (Tim Robbins) e Sean (Kevin Bacon) — cujas vidas são marcadas por um trauma passado e por atos violentos que reverberam no presente. Em 1975, três garotos de Boston – Jimmy, Sean e Dave – brincam na rua quando Dave é sequestrado por dois homens que fingem ser policiais. Dave sofreu abuso sexual durante quatro dias antes de escapar. 28 anos depois, os três seguiram caminhos diferentes: Jimmy é ex-presidiário, dono de uma loja; Sean é detetive da polícia; e Dave luta contra seus demônios internos. Katie, a filha de 19 anos de Jimmy, é brutalmente assassinada. Sean é designado para investigar o caso junto com seu parceiro. Dave chega em casa na mesma noite com sangue nas roupas, alegando ter espancado um suposto pedófilo. Enquanto Sean busca evidências, Jimmy conduz sua própria investigação pelas ruas. As suspeitas recaem sobre Dave devido ao seu comportamento estranho e às contradições em sua história. A esposa de Dave, Celeste, começa a duvidar dele. Jimmy, convencido da culpabilidade de Dave, o confronta. Dave confessa ter matado alguém (mas não Katie), e então Jimmy e seus amigos o executam e jogam seu corpo no rio. Sean descobre que os verdadeiros assassinos são o namorado secreto de Katie e seu amigo.
Aqui, a violência não é redentora, mas sistêmica, enraizada na cultura de uma comunidade marcada por vingança e desconfiança. O assassinato de Katie desencadeia um ciclo de violência que culmina na morte sacrificial de Dave, acusado erroneamente por Jimmy (o que resulta em angústia moral e um senso de luto não resolvido). Diferentemente de Os Imperdoáveis, onde a violência trágica ainda restaura uma ordem precária, em Sobre Meninos e Lobos ela apenas intensifica o caos e a miséria espiritual. Uma cultura de violência que se espalha pela comunidade encarcera os personagens em seus traumas e em um passado irredimível: Jimmy é consumido pela culpa, Dave pelas cicatrizes emocionais e Sean pelo distanciamento e dificuldade para formar vínculos. O assassinato de Katie desencadeia a vingança de Jimmy, que mata um inocente. Nenhuma forma de justiça é capaz de curar as feridas do passado, e a violência não resulta em catarse — mas em isolamento. A aceitação resignada de Sean ao final sugere a impotência do indivíduo diante de uma cultura de violência. O filme marca uma transição na cosmovisão de Eastwood, do questionamento da violência individual para a crítica à sua perpetuação sistêmica, revelando sua futilidade em restaurar a justiça ou a paz. Não há redenção.
Jurado Nº 2: A Justiça como Verdade em Ação

Jurado Nº 2, o mais recente dos filmes analisados, apresenta uma visão radicalmente distinta da justiça: não é sobre violência ou resignação, mas sobre ação virtuosa alinhada à verdade.
A narrativa acompanha dois personagens: Justin Kemp e Faith Killebrew.

1. Justin Kemp (Nicholas Hoult) é um jornalista em recuperação do alcoolismo, casado e prestes a se tornar pai. Ele é convocado para servir como jurado no julgamento de um homem (James Sythe) acusado de assassinar sua namorada, Kendall Carter, encontrada morta na beira de uma estrada após uma briga em um bar durante uma noite chuvosa. Durante o julgamento, Justin percebe com horror que ele pode ser o verdadeiro responsável pela morte. Naquela mesma noite, ele atropelou algo que pensou ser um animal na mesma estrada, mas fugiu do local. Ele passa a suspeitar que, na verdade, atropelou Kendall. Justin acredita que revelar essa verdade poderia inocentar James Sythe, o réu acusado injustamente, mas também teme as consequências pessoais, como a perda de sua estabilidade familiar (sua esposa está nos últimos dias de gestação) e a possibilidade de ser preso. Inicialmente, a maioria dos jurados vota pela condenação. Justin tenta convencer os outros da inocência de Sythe sem revelar seu envolvimento, argumentando sobre dúvida razoável e falhas nas evidências. Ao final, Kemp opta por permanecer em silêncio, permitindo a condenação de Sythe.
Em Moral Luck, Bernard Williams argumenta que a avaliação moral de uma ação não pode ser reduzida às intenções ou ao controle do agente, pois os resultados das ações, frequentemente influenciados por fatores externos e imprevisíveis (a “sorte”), também moldam nosso julgamento moral. Ele introduz o conceito de “sorte moral” para destacar como circunstâncias fora do controle do agente — como acidentes, coincidências ou consequências imprevistas — afetam a percepção de sua responsabilidade moral. Williams desafia a visão kantiana de que a moralidade deve ser imune à sorte, sugerindo que resultados contingentes são inevitavelmente parte da avaliação ética. Bernard Williams propõe uma abordagem mais realista à moralidade, ou seja, levar em consideração aspectos psicológicos como desejos, emoções, projetos pessoais, caráter –considerar como as pessoas realmente pensam, sentem e agem. Para Kant, a moralidade é baseada em regras universais e na razão, sem dar espaço para as particularidades de cada indivíduo. Williams considera isso fantasioso, pois não reflete a realidade humana. Imagine que você toma uma decisão moral só pensando em regras, sem considerar seus sentimentos ou vínculos com outras pessoas. Para Williams, isso não faz sentido porque somos seres complexos, com emoções e histórias pessoais que moldam nossas escolhas. Bernard Williams diferencia o arrependimento geral, que pode ocorrer por eventos do mundo mesmo sem participação direta, como lamentar que um evento climático devastador tenha destruído uma região distante, de um arrependimento mais pessoal, ligado a ações próprias. O arrependimento geral diz respeito ao estado das coisas em si, enquanto o arrependimento pessoal surge quando o agente reflete que poderia ter agido de outra forma. Williams explora o que significa pensar “eu poderia ter feito diferente” quando sentimos um remorso especial por algo que fizemos, mesmo sem intenção. Esse sentimento está ligado à sorte moral, que ocorre quando o resultado de uma ação depende de elementos além do nosso controle, como o acaso.

Vamos considerar duas maneiras de pensar sobre responsabilidade:
· Você só é responsável pelo que sabe ou quer na hora de agir. Se você dá um remédio a alguém pensando que é seguro, mas na verdade é veneno, você não seria culpado, porque não sabia.
· Você pode ser responsabilizado mesmo por coisas que não sabia, mas poderia ter descoberto se fosse mais cuidadoso. Por exemplo, se você dirige rápido, numa noite chuvosa, está emocionalmente abalado pela perda da gestação de sua esposa, e atropela alguém sem querer, pode ser considerado culpado por não ter tomado cuidado – como uma pessoa comum faria.
Williams, porém, diz que o arrependimento pessoal vai além disso. Você pode sentir um peso no coração mesmo sem ter culpa ou controle total. Por exemplo, um pai que deixa uma xícara de chá quente ao alcance de uma criança, que a derruba e se queima, ainda sente um remorso enorme. Ele pensa: “Se eu não tivesse deixado ali, isso não teria acontecido.” Esse remorso não depende de ele ter feito algo errado de propósito, mas sim de estar envolvido no ocorrido. Às vezes, o resultado de uma ação depende de coisas que não controlamos, como o acaso. Isso é o que Williams chama de sorte moral. Por exemplo, vamos imaginar um músico que abandona sua família para seguir uma carreira em outra cidade. Se ele fracassa, sente um peso enorme, pensando: “Eu não deveria ter deixado minha casa”. Ou vamos considerar um soldado que, sem saber, causa a morte de civis em uma operação militar. Mesmo sem intenção, ele sente um remorso profundo. Williams chama isso de responsabilidade trágica: sentir culpa ou responsabilidade por algo ruim que você causou, mesmo sem controlar todos os aspectos. Isso é diferente da ideia de Kant, que diz que só somos responsáveis pelo que escolhemos de propósito. Se emprestamos um carro a um amigo e ele causa um acidente, você pode sentir remorso, chamado de arrependimento pessoal, mesmo sem prever o problema. É como se pensasse: “Se eu não tivesse emprestado o carro, isso não teria acontecido.” Sentir esse peso, mesmo sem culpa, é algo natural. Ignorar o que acontece por causa das nossas ações (mesmo sem querer) é errado, porque nós estamos conectados ao mundo: sentir responsabilidade mostra que nos importamos com as consequências. Se causamos um acidente sem querer, sentir remorso é humano, ainda que não tenhamos tido culpa no evento. Aceitar a responsabilidade (e as consequências de nossas ações), mesmo sem termos controle total, é uma questão de integridade moral. Fugirmos, alegando que “não foi nossa culpa”, revela uma falha moral.
Bernard Williams explica que o arrependimento pessoal pode acontecer em dois tipos de ações:
· Ações involuntárias: Quando você não queria o resultado. Por exemplo, se você dá algo que acha ser açúcar, mas é veneno, e alguém fica doente, você sente remorso sem ter tido culpa pelo desfecho;
· Ações voluntárias: Quando você sabe dos riscos, mas só lamenta depois, por conta dos resultados. Por exemplo, se você decide mudar de cidade, sabendo que pode magoar sua família, e só depois vê o impacto, pode sentir remorso. Essas ideias são importantes porque mostram que ser moral não é só seguir regras ou ter boas intenções. Nossas ações têm consequências, mesmo as que não controlamos, e sentir responsabilidade por elas faz parte de ser humano. Um médico faz tudo o que está ao seu alcance para tratar um paciente, mas o paciente morre; sentir arrependimento pessoal, remorso, mostra integridade, porque o médico reconhece o peso de suas ações, mesmo sem ser culpado pela morte do paciente. No acidente que resulta na morte de Kendall Carter, Kemp é vítima da sorte moral. Ele não tinha a intenção de matar, e fatores externos (a noite chuvosa, a estrada escura, Kendall Carter andando sozinha, à noite, na chuva, numa estrada escura) contribuíram para o desfecho trágico. De acordo com a proposta de Williams, a avaliação moral de Kemp nesse momento não deve depender apenas do resultado (a morte de Kendall), mas também de suas intenções e do contexto. Se considerarmos que Kemp não agiu com negligência grave (o que o filme sugere, ao retratar o evento como um acidente), sua responsabilidade moral pelo acidente é atenuada pela sorte. Ele não é um “agente moralmente ruim” por causar a morte, pois o resultado foi amplamente contingente. No entanto, a sorte moral não absolve Kemp completamente, pois sua responsabilidade moral também depende de como ele responde ao evento após reconhecê-lo. Sua escolha de permanecer em silêncio é deliberada.
Para analisar melhor sua decisão, vamos utilizar o modelo de deliberação moral proposto por Diego Gracia (2003):
A. Identificação do problema: Kemp reconhece que desempenhou um papel indireto na morte de Kendall Carter e que revelar essa verdade poderia inocentar James Sythe. No entanto, ele também entende que fazer isso poderia ter sérias consequências para ele e para sua família.
B. Ele reconhece quais são os valores morais em conflito: verdade, responsabilidade, não-maleficência, autopreservação.
C. Ao ponderar sobre os valores em conflito nessa situação concreta, para chegar a uma decisão, Kemp pesa a importância de dizer a verdade contra o dano potencial a si mesmo e à sua família. Ele se vê vítima de um infortúnio, um evento infeliz e imprevisto, e decide que a autopreservação é mais importante do que a verdade ou a responsabilidade.
D. A conclusão que ele considera mais prudente é omitir a verdade; ele opta por proteger a si mesmo e sua família, às custas da condenação de um inocente. Nas cenas finais do filme, num diálogo com a promotora do caso, ele questiona (caso ele, Justin, seja condenado): “Onde está a justiça? A verdade não é justiça, porque algum político vai tomar o seu emprego, um criminoso vai voltar para as ruas (Sythe tem um passado vinculado a gangues) e um homem honesto (ele mesmo) e a família dele serão destruídos”.
Portanto, em sua decisão pela omissão, a sorte moral é menos relevante, pois Kemp tem controle sobre sua ação. Ele sabe que seu silêncio levará à condenação injusta de James Sythe, um resultado que ele poderia evitar. A avaliação moral dessa decisão deve considerar não apenas a intenção de Kemp, mas também o impacto de suas ações no mundo. Ao priorizar a autopreservação, Kemp falha em agir de acordo com princípios morais como a verdade e a justiça. A sorte moral, que poderia mitigar sua responsabilidade pelo acidente inicial, não se aplica aqui, pois o silêncio é um ato intencional. Agir moralmente, nesse sentido, envolve assumir riscos e aceitar que o julgamento moral pode depender do acaso; não há como fazê-lo sem incorrer em culpa ou arrependimento, independentemente da escolha. Agir moralmente implica aceitar essa tensão e viver com as consequências.

Sua escolha reflete um egoísmo ético: se todos priorizassem a autopreservação, a justiça comunitária seria inviável.
Em “The Virtues of Justice”, David Schmidtz e John Thrasher endossam
“Três concepções complementares de justiça como virtude. À concepção clássica de justiça como virtude da alma e da pólis, acrescentamos um terceiro que os une. A virtude pode ser uma espécie de extensão em vez de uma espécie de harmonia interna, porque estamos falando de seres essencialmente sociais. A harmonia que é o objeto dessa virtude é a harmonia com uma comunidade. Assim, uma pessoa que é justa nesse sentido está disposta a respeitar (atuar dentro das regras de) instituições que inspiram respeito em virtude de realmente funcionarem — isto é, de realmente conseguirem encorajar e capacitar as pessoas a viverem em harmonia, a florescerem pacificamente de maneiras mutuamente vantajosas. Uma pessoa justa, nesse sentido, está disposta a respeitar instituições justas mesmo quando tal respeito não é pessoalmente vantajoso, na verdade (como David Hume viu), quando tal respeito nem sequer é bom para a comunidade no caso particular.”

Mas esse egoísmo ético, na verdade, reflete um drama de consciência que é a angústia de viver uma realidade inautêntica.
Numa das cenas na sala de júri, Justin fala sobre seu passado e seus problemas com alcoolismo, que resultaram em um acidente. Como punição, ele foi obrigado a prestar serviço comunitário em uma escola e lá conheceu uma professora que viria a ser sua esposa; ele afirma que foi graças a ela que ele se tornou uma pessoa melhor, alguém capaz de assumir os seus erros e se tornar responsável. E então ele mostra uma moeda, símbolo da batalha constante contra o alcoolismo — só que, neste caso, Justin está lutando para sustentar as mentiras existenciais que ele repete a si mesmo: a de que ele é alguém que é moralmente correto. Quando os jurados estão visitando o local do crime, quase no final do filme, um dos personagens desconfia que Justin está escondendo alguma coisa, e o confronta dizendo que ele somente está dizendo “o que todos querem ouvir”; esse personagem está dando voz à consciência profunda e atormentada de Justin, e nesse momento ele deixa cair a moeda que representa o seu esforço para soterrar com falsidades seu “fundo insubornável”.






Ortega y Gasset, em El fondo insobornable (1946), chama de farsa:
“Aquelas realidades que falseiam a realidade. Isso supõe que na realidade distinguimos dois planos: um externo, aparente, manifesto; outro, interno, substancial, que se manifesta naquele. A realidade externa tem a missão ineludível de ser expressão adequada da realidade interna, caso contrário, é farsa. A realidade interna tem, por sua vez, a missão de manifestar-se, exteriorizar-se naquela, se não também é farsa. Exemplo: um homem que defende exuberantemente opiniões com as quais não se importa é um farsante; um homem que realmente tem tais opiniões e, no entanto, não as defende nem as assume é outro farsante.”
Justin Kemp vive um drama sustentado e falseado por mentiras existenciais que o atormentam — e provavelmente irão atormentá-lo indefinidamente: ele se vê como um homem reformado, mas omite a verdade no julgamento, o que resulta na condenação injusta de James Sythe. Há desconexão entre sua autoimagem e suas ações. Embora ele reconheça a importância da verdade e da responsabilidade, ele permite que a autopreservação domine seu processo de deliberação. Esse desequilíbrio leva a uma decisão moralmente questionável que inviabiliza a justiça, ao perpetuar tanto a injustiça quanto o dano.
De que modo os conceitos de Bernard Williams se articulam no problema do personagem Justin Kemp? A sorte moral é o “gatilho”: ela mostra que a vida não é justa, com resultados que dependem do acaso, o que contrasta com uma perspectiva puramente racionalista que busca eliminar a contingência. O arrependimento pessoal é a resposta emocional: quando a sorte interfere, o agente sente remorso e reconhece ligações causais ainda que involuntárias. A responsabilidade trágica é o resultado moral: aceitar o arrependimento como parte da identidade demonstra caráter. A sorte moral cria um resultado inesperado, provoca arrependimento e resulta em responsabilidade trágica se o agente for íntegro. No filme, a morte de Kendall dependeu de uma série de circunstâncias: Kemp não planejou; foi acidental (má sorte). A sorte o coloca no júri; ele se arrepende (“Se eu não tivesse dirigido ali”), mas a reprime, transformando-a em egoísmo, demonstrando, no fim das contas, ausência de integridade. Justin Kemp é um personagem moralmente trágico: se confessasse, isso resultaria na aceitação de sua responsabilidade trágica; a sua recusa em confessar e assumir sua participação ilustra sua falha moral e tem como potencial ocasionar desarmonia social – a perda da credibilidade da justiça e a perda da confiança que sustenta uma comunidade.
E, neste ponto, chegamos ao segundo personagem do filme.
2. Faith Killebrew, uma promotora cuja jornada moral é um contraponto a Justin Kemp (podemos ver pelo simbolismo da cena abaixo que ambos estão divididos por conceitos distintos de justiça).

No início do filme, Faith é apresentada como uma promotora competente, mas cuja motivação principal é o sucesso profissional. Ela encara o caso de James Sythe como uma oportunidade de consolidar sua reputação e avançar na carreira, talvez até almejando cargos políticos ou maior reconhecimento. Nesse estágio, a justiça é instrumentalizada: Faith busca a condenação de Sythe não necessariamente porque acredita em sua culpa, mas porque uma vitória no tribunal serve a seus interesses. Essa postura reflete uma falha moral inicial, pois a justiça, idealmente, deveria ser um fim em si mesma, não um meio para ganhos pessoais.
O ponto de virada no arco de Faith ocorre quando ela começa a confrontar evidências que desafiam a narrativa de culpa de Sythe e, mais importante, quando percebe que sua busca por uma condenação pode estar comprometendo a verdade. Embora o filme não revele explicitamente que Faith descobre a responsabilidade de Justin Kemp na morte de Kendall Carter, sua interação com o júri e sua reflexão sobre o caso a levam a questionar a integridade do processo judicial. Esse momento de crise moral é crucial para sua redenção, pois a força a reconhecer as limitações de sua abordagem inicial e os riscos de uma injustiça.
O estágio final do arco de Faith é marcado por sua decisão de priorizar a verdade e a integridade acima de seus interesses pessoais. Embora o filme também não mostre Faith explicitamente revertendo a condenação de Sythe (devido ao foco narrativo no dilema de Justin Kemp), sua trajetória sugere que ela abandona a busca por ganhos profissionais em favor de um compromisso moral. Essa escolha implica um sacrifício, pois pode comprometer sua carreira ou reputação, especialmente em um sistema onde o sucesso é medido por vitórias em tribunal, não por adesão à verdade. Sua transformação reflete o conceito de redenção moral como um processo de realinhamento entre ações e valores éticos. A frase repetida por ela, “justiça é verdade em ação”, ecoa tanto Sócrates (justiça como harmonia entre saber e agir, inseparável de todas as outras virtudes) quanto Aristóteles (justiça como virtude prática). Seu arco mostra que, diferentemente da violência redentora, mesmo em sistemas falhos, a ação individual moralmente correta pode fazer diferença. É uma personagem ilustrativa de que a justiça exige coragem para alinhar ações aos princípios morais, mesmo ao custo pessoal (ou profissional).
Conclusão
A evolução da cosmovisão de Clint Eastwood sobre justiça reflete uma transição da violência redentora (Os Imperdoáveis) para a percepção dos efeitos corrosivos da violência sistêmica (Sobre Meninos e Lobos), até a justiça como manifestação da virtude e da verdade (Jurado Nº 2). Essa progressão não apenas desmonta os mitos do herói vingador, mas também propõe uma visão ética que valoriza a responsabilidade individual em sistemas falhos. Eis a riqueza da filmografia de Clint Eastwood, que dialoga com questões filosóficas sobre moralidade, agência e o problema do mal. E eis a capacidade do cinema como forma de arte capaz de explorar problemas complexos.
Referências adicionais:
Pohlman, E.A. O Problema da Sorte Moral. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2012.
Gracia, D. Ethical Case Deliberation and Decision Making.Medicine, Health Care and Philosophy 6: 227–233, 2003.













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