
“A solidão pode matar mais do que uma Magnum .357.”
Electra Glide in Blue é um filme atípico do período da Nova Hollywood, além de ter sido um fracasso de bilheteria. Baseado no assassinato real de um policial motociclista por hippies migrantes em Phoenix, Arizona, em 11 de novembro de 1968, o enredo gira em torno de um policial motociclista íntegro, John Wintergreen (interpretado por Robert Blake), que sonha em largar sua Harley-Davidson Electra Glide, a motocicleta com a qual patrulha as solitárias rodovias do Arizona, e se tornar detetive da divisão de Homicídios. Ao descobrir um confuso morador do deserto (Elisha Cook Jr.) chorando pelo suicídio de seu melhor amigo, Frank (cena que é mostrada de forma impressionante nos créditos de abertura), Wintergreen e seu parceiro Zipper (Billy “Green” Bush) dirigem-se à cabana do falecido. Wintergreen irá agarrar-se a este suicídio como meio de promoção, pois ele acredita que se trata, na realidade, de um homicídio, devido a vários pequenos detalhes que escaparam totalmente ao médico legista. A resposta para o mistério do crime é irrelevante, mas a investigação contribuirá para destruir as ilusões de Wintergreen. O assassinato desencadeará uma série de eventos e culminará em autodescoberta. Em um final devastador, teremos diante de nós um homem destruído, sem amigos, sem carreira, sem mulher: ele será imperdoavelmente engolido pela paisagem de Monument Valley. O filme foi dirigido por James William Guercio, ex-empresário e produtor da banda de rock Chicago, em sua estreia na direção. Ele também compôs a trilha sonora, e nunca mais fez outro filme.

De acordo com Mark Shiel (Cinema Journal, 2007), “nos Estados Unidos da década de 60, o discurso social e político estava dramaticamente polarizado entre concepções diametralmente opostas dos Estados Unidos como um espaço natural e social distinto. Os principais gêneros do cinema clássico de Hollywood — comédia, musicais e westerns — haviam articulado nas décadas anteriores a concepção capitalista-utilitária do espaço urbano e rural que dominou os Estados Unidos do século XX”. Segundo Shiel, vigorava a ideia de que, enquanto a cidade era um espaço promissor e abundante, capaz de realizar as ambições e os ideias materiais e românticos dos indivíduos, o Oeste permanecia como natureza primordial, sob os auspícios de Deus. Ao longo da década, concepções alternativas ganharam proeminência na sociedade americana: a cidade se torna o palco de confronto político e de desumanização, e as vastidões rurais se tornam possibilidades de auto-realização. Isso viria a mudar no início dos anos 70, com o declínio da contracultura, o fim da guerra do Vietnã e a recessão econômica.



O diretor de fotografia, Conrad Hall, recém-saído de um Oscar por Butch Cassidy and the Sundance Kid, se ofereceu para trabalhar com James William Guercio. Ambos tinham concepções distintas sobre a cinematografia de Electra Glide in Blue, de modo que o resultado é o que contribuiu para que o filme se deslocasse para fora da curva no movimento Nova Hollywood – justamente por redefinir a geometria do espaço. Há um contraste significativo entre as cenas externas (grandiosas) e as cenas internas (filmadas em planos fechados ou extreme close-ups, privadas, ensombreadas, concentradas em detalhes). A sensação é de restrição e solidão. O fracasso das aspirações utópicas, em decorrência das difíceis condições sociais, políticas e econômicas que prevaleciam nos Estados Unidos na época contribuíram para o esvaziamento mítico do Oeste – retratado por Electra Glide in Blue. Quando Wintergreen, um veterano do Vietnã, manda parar um caminhão por excesso de velocidade, o motorista (outro veterano do Vietnã) tenta conquistar a cumplicidade de Wintergreen. O policial explica que fará pelo caminhoneiro o que levou seis meses para alguém fazer por ele: nada.

A estrada, outrora vista como rota de escape para a conquista da individualidade, se torna banal e tediosa. Enquanto os personagens de Dennis Hopper e Henry Fonda, em Easy Rider, cruzavam o país em busca de um sonho que nunca encontravam, a motocicleta de Wintergreen reitera seu aprisionamento — seu inferno é estático, geograficamente circunscrito ao mesmo trecho de asfalto onde, dia após dia, ele confronta o próprio fracasso. Sua relação com a natureza é condicionada por seu trabalho. Easy Rider descreve um frisson constante, com cada dia começando e terminando em um ponto diferente; Electra Glide in Blue descreve apenas o tédio, começando e terminando o dia no mesmo lugar. Não por acaso, há uma cena em que Wintergreen está praticando tiro ao alvo em um pôster do filme Easy Rider.

Ao decupar a erosão dos ideais utópicos em meio à crise econômica e social da década de 1970 pela reconfiguração da geometria do Oeste, Electra Glide in Blue destaca-se como exemplar interessante no cinema da Nova Hollywood. A paisagem americana converte-se de fronteira ilimitada, promissora à autorrealização, em extensão restritiva e confinante, um reflexo do aprisionamento de Wintergreen em uma rotina desiludida. Em contraste com Easy Rider, ao descumprir a promessa de libertação do road movie, Electra Glide in Blue expõe o esvaziamento dos sonhos da contracultura, onde a estrada aberta se transforma em um ciclo de isolamento e de ambições frustradas. Mitos pessoais e nacionais se fragmentam sob o peso da realidade, e deixa apenas o terreno grandioso e indiferente como testemunha.
Observação: o filme foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil, na coleção Cinema Policial volume 4.











Deixe um comentário