
Em 1967, o governo canadense criou a Canadian Film Development Corporation (CFDC), entidade estatal cuja função seria fomentar uma indústria cinematográfica de longas-metragens que fosse reconhecida internacionalmente. A introdução de incentivos fiscais na década de 1970, que permitiam a dedutibilidade integral das despesas com produções cinematográficas, impulsionou o cinema canadense, incluindo o surgimento dos filmes que ficaram conhecidos como “Canuxploitation” – filmes apelativos, de gêneros e de baixo orçamento, mas com total liberdade criativa para os envolvidos. Uma das exigências era a utilização, pelas produções, de maioria de profissionais canadenses em sua equipe. Esse mecanismo não só incentivou o uso de talentos canadenses como ajudou a lançar carreiras de cineastas proeminentes, como David Cronenberg e Ivan Reitman, consolidando uma era significativa entre 1974 e 1982. Um dos filmes desse período é The Silent Partner (1978), segundo longa-metragem dirigido por Daryl Duke, e escrito por Curtis Hanson (que viria a ganhar um Oscar de melhor roteiro adaptado em 1997 por LA Confidential). O roteiro foi baseado no romance dinamarquês Think of a Number, de Anders Bodelsen. O filme foi produzido por Mario Kassar e Andrew Vajna, já estabelecidos como investidores e agentes de vendas no cinema. Eles adquiriram os direitos do livro original e transformaram o filme em uma das primeiras produções da Carolco Pictures — empresa que viria a se tornar uma potência global graças ao sucesso de blockbusters como a franquia Rambo, O Exterminador do Futuro 2, e Instinto Selvagem.
The Silent Partner é um intrincado jogo de gato-e-rato entre Miles Cullen (interpretado por Elliott Gould) e Harry Reikle (Christopher Plummer). Miles é um entediado caixa que trabalha no banco de um shopping center em Toronto. Ao encontrar um bilhete descartado em um dos balcões do banco, ele percebe a semelhança entre a caligrafia e a placa de avisos de um Papai Noel de shopping – e conclui que ele pretende realizar um assalto. Em vez de alertar a polícia, Miles começa a guardar dinheiro em uma lancheira e, quando Papai Noel aparece, o ladrão acaba fugindo com muito menos dinheiro do que o valor relatado às autoridades. Furioso ao descobrir que foi enganado, Reikle – um assassino sádico – inicia sua perseguição a Miles. Enquanto isso, Miles se envolve romanticamente com sua colega Julie Carver (Susannah York), que tem um caso com o gerente do banco. A trama se complica com traições, reviravoltas e com o aparecimento da enfermeira misteriosa Elaine (Céline Lomez), que se aproxima de Miles com intenções ambíguas.



A estrutura de gato e rato da história, com nítidas inspirações hitchcockianas, é uma aula precisa de escalada, com traições e reviravoltas que, na maioria das vezes, não parecem forçadas (há uma e outra que dependem de coincidências). Pessoas comuns trafegam por áreas cinzentas da moralidade em meio a ameaças crescentes. Diferentemente do movimento da Nova Hollywood, o realismo do filme é utilizado como ferramenta para imersão – e não como ideologia. Visualmente, o uso de espaços urbanos confinados — cofres de bancos, apartamentos, cabines telefônicas — cria tensão por meio do voyeurismo e da insinuação: todos parecem presos às suas escolhas. A fotografia privilegia a sensação de que os personagens estão muito próximos, mesmo quando de fato não estão. O shopping Eaton Centre de Toronto tem sua urbanidade crua dos anos 1970, saturada de rotinas de fim de ano e de multidões anônimas, transformada em claustrofobia. Espaços cotidianos são transformados em arenas para a guerra psicológica que se estabelece entre Miles e Harry.



Miles Cullen é o funcionário menosprezado que se transforma em um oportunista astuto para tentar fugir de sua alienação, de suas frustrações. Sua rotina — meticulosamente retratada por meio de tarefas bancárias mundanas, hobbies com peixes exóticos e tensões interpessoais sutis — o fundamenta em uma normalidade crível, que revela não apenas sua inteligência subestimada mas também sua ambiguidade moral. Seus planos são engenhosos, mas falíveis. Harry Reikle é o predador sádico, surpreendido pela improvisação de Miles; há algo de estranhamente trágico em sua expressão desapontada quando ele descobre a traição de sua aliada, e que se converte imprevisivelmente em violência extrema.
The Silent Partner é um filme policial notável, que explora ambição, moralidade e as profundezas da psicologia humana em cenários prosaicos. Sua narrativa intrincada, enriquecida por personagens multifacetados e pelo ambiente urbano que pulsa com tensão latente, transcende as limitações do período “Canuxploitation“. O diretor Daryl Duke oferece uma lição de suspense hitchcockiano adaptado ao realismo canadense. Vale a pena revisitar este marco discreto do thriller internacional.
Observação: o filme foi lançado no Brasil em DVD pela Versátil, com o título “O Sócio do Silêncio”, na coleção Cinema Policial volume 5.











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