
Alice Doesn’t Live Here Anymore (1974)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Robert Getchell
Direção de Fotografia: Kent L. Wakeford
Elenco: Ellen Burstyn (Alice Hyatt), Alfred Lutter (Tommy Hyatt), Kris Kristofferson (David), Diane Ladd (Flo), Harvey Keitel (Ben), Jodie Foster (Audrey), Vic Tayback (Mel).
Produção: David Susskind e Audrey Maas
Distribuição: Warner Bros.
Após a morte inesperada do marido em um acidente de carro, Alice Hyatt fica sozinha com seu filho, Tommy. Decidida a recomeçar a vida e a perseguir o sonho de infância de se tornar cantora, ela deixa o Novo México e parte com o filho em direção à Califórnia. A viagem é marcada por dificuldades financeiras. Para sustentar a si mesma e a Tommy, Alice começa a cantar em um restaurante em Phoenix, onde se envolve com Ben – um homem que se revela violento e possessivo, forçando-a a fugir novamente. Ao chegarem a Tucson, ela consegue um emprego como garçonete no Mel & Ruby’s Café. Em meio ao tumulto do dia a dia, ela conhece David, um fazendeiro divorciado que demonstra interesse genuíno por ela e por seu filho. Alice se vê dividida entre a atração por uma vida estável e seu desejo original de independência e uma carreira musical. A decisão sobre seguir para a Califórnia ou permanecer em Tucson e construir uma nova vida forma o cerne da história.

Catherine O’Brien, em seu livro “Martin Scorsese’s Divine Comedy: Movies and Religion” (2018), traça um paralelo entre o cinema de Martin Scorsese e a Divina Comédia de Dante Alighieri. O’Brien vê a filmografia de Scorsese como uma criação visionária paralela à epopeia dantesca, traduzindo temas, imagens e tropos medievais para o meio cinematográfico moderno. A obra de Scorsese é interpretada não apenas como uma “peregrinação artística” (similar à jornada de Dante), mas como uma exploração profunda de personagens que internalizam suas dores em caminhos equivocados e passam por processos de purificação através do sofrimento. Nesse contexto, “Alice Não Mora Mais Aqui” é visto como uma “visão purgatorial imanente”, pelo exame obsessivo (sob a perspectiva da cinematografia) de personagens que enfrentam o sofrimento como meio de redenção. Neste filme, Martin Scorsese demonstra interesse na crônica da América cotidiana, especialmente no retrato da classe média baixa e trabalhadora, filmando o momento de transição cultural dos anos 1970 – marcado pela percepção crescente do “sonho americano” como uma mitologia obsoleta, que cede lugar a uma realidade crua de dificuldades econômicas, emocionais e sociais, despojada de ilusões românticas. A câmera de Scorsese atua como uma força interventora nessa realidade, não apenas registrando, mas ativamente desmontando os resquícios da ilusão hollywoodiana de “possibilidades irreais”, através de movimentos dinâmicos e intrusivos que invadem o espaço prosaico, expondo a banalidade e o caos subjacente.


1. A Vida Não É um Conto de Fadas: Da Nostalgia Hollywoodiana à Realidade Crua
A cena de abertura, imediatamente após os créditos iniciais, faz uma clara homenagem a “O Mágico de Oz” (1939). Essa sequência inicial é estilizada como um prólogo em um set de estúdio saturado de vermelho Technicolor, apresentado no formato 1.37:1 (padrão dos filmes antigos até os anos 1950). Vemos Alice, uma criança em uma fazenda que remete ao Kansas de Dorothy.

Estabelece-se uma sensação de nostalgia e confinamento onírico, como se fosse um “filme dentro do filme” da mente da personagem. Essa escolha visual não só homenageia o cinema clássico, mas também simboliza os sonhos limitados e idealizados da menina, que são abruptamente “abertos” para o mundo mais amplo e caótico da vida real. Após o prólogo, que termina com a imagem se afastando da tela como se estivesse fugindo, há uma transição abrupta (“smash cut”) para o presente: a tela se expande para 1.85:1 (o formato widescreen comum nos cinemas americanos dos anos 1970), com créditos sobrevoando a cidade de Socorro, Novo México, e os letreiros informando que se passaram 27 anos.

Esse corte joga o espectador do mundo fantástico e saturado de cores da infância para a realidade crua e barulhenta da vida adulta. No presente, a câmera começa com uma panorâmica ampla atravessando um aglomerado de casas suburbanas típicas de Socorro, com colinas ao fundo, estabelecendo o ambiente árido e monótono do Novo México. O estilo cinético e frenético de Scorsese faz a câmera parecer que está caçando alguém, em meio à vastidão e ao isolamento da pequena cidade: a partir de uma visão aérea (aerial view), a câmera executa um movimento de swoop (mergulho fluido) para baixo e para frente, aproximando-se progressivamente das ruas e casas; esse travelling é expansivo e móvel, com a câmera em constante aceleração em direção ao alvo, transmitindo volatilidade e uma aspiração pelo espaço aberto, contrastando com o confinamento da vida de Alice. A câmera então faz uma aproximação fluida em direção a uma janela de uma casa específica, revelando Alice adulta (Ellen Burstyn).

Essa transição da infância para a vida adulta representa a expansão forçada para uma existência mais dura e o confronto com a vastidão desértica da América contemporânea, longe do glamour hollywoodiano. Scorsese usa essa variação para destacar como os ideais da protagonista pertencem a uma era passada, enquanto o presente a obriga a navegar por um “quadro” mais largo e implacável. Essas passagens estabelecem magistralmente o tema do filme: a perda de inocência e o peso da vida real – não apenas a perda da inocência da infância, mas também a da mitologia do “sonho americano”.
2. Stephen Shore e os “Uncommon Places”: Flagrantes da Banalidade Americana
A imagem inicial em Socorro, Novo México, com sua composição ampla de uma estação de gasolina U-Totem, carros vintage estacionados, montanhas ao fundo e um céu nublado sobre uma paisagem árida e cotidiana, evoca o estilo fotográfico de Stephen Shore, especialmente suas obras da série “Uncommon Places” dos anos 1970. Shore é conhecido por fotografar cenas banais da América vernacular – postos de gasolina, motéis, ruas desertas e paisagens suburbanas do Sudoeste dos EUA – com cores vivas, enquadramentos frontais e uma sensação de isolamento e mundanidade. Perceba como esta cena:

lembra a fotografia de Shore, “Center Street Gas Station, Kanab, Utah” (9 de agosto de 1973) – que apresenta um posto de gasolina similar em um ambiente desértico com montanhas distantes, veículos da época e uma atmosfera de tranquilidade estática, ecoando a transição visual do filme do prólogo fantástico para a realidade crua do deserto americano.

Martin Scorsese filma o dia a dia de Alice, uma viúva de classe média baixa que navega por empregos precários, vivencia relacionamentos abusivos e precisa criar sozinha um filho pré-adolescente, em cidades áridas do Sudoeste americano – ambientes que simbolizam o esgotamento das promessas de prosperidade e mobilidade social, substituídas por uma luta diária pela sobrevivência e autodescoberta.
3. E o Vento Levou: O Deslocamento Temporal nas Canções de Alice
A cena em que Alice canta, no piano, um medley de “Where or When” / “When Your Lover Has Gone” / “Gone with the Wind” em um bar em Phoenix detalha exatamente essa sensação de deslocamento temporal e espacial e o choque de realidade.

Essa sequência começa com Alice no piano, inicialmente nervosa em sua audição para o dono do bar, mas logo ela entra em um fluxo catártico, passando de “Where or When” (um clássico de 1937 composto por Rodgers e Hart, popularizado na era do jazz e dos musicais de Hollywood) para “When Your Lover Has Gone” e, finalmente, para “Gone with the Wind” (um standard de 1937 por Allie Wrubel e Herb Magidson). As canções são fragmentos de um tempo mais elegante e romântico, em que ela tenta reviver seus sonhos infantis de fama como cantora, mas que são confrontados com a banalidade real e opressiva do local – um ambiente poeirento e modesto, frequentado por clientes comuns, com iluminação fraca e atmosfera pesada, longe do glamour que as canções sugerem.

Os ideais de Alice pertencem a outra época (a era dourada dos anos 1930-1940), enquanto o presente a força a adaptar-se a uma vida mais imediata, sem o brilho hollywoodiano. A transição para essa última canção coincide com uma intensificação da mise-en-scène: a câmera executa trilhos circulares (circular tracks) que se aceleram progressivamente, aproximando-se cada vez mais de Alice em um movimento espiralado e dinâmico, combinado com cortes jazzísticos (jazzy jump cuts) e mudanças elegantes na escala dos planos. Essa aceleração súbita não só reflete a vulnerabilidade emocional de Alice – que canta com dor visceral, reconectando-se provisoriamente aos sonhos interrompidos pela vida doméstica –, mas também transforma o ambiente enfumaçado e prosaico do bar em um espaço subjetivo, quase onírico, onde o espectador sente-se imerso no caos interno da personagem. O movimento culmina no final da apresentação, com Alice concluindo o medley de forma triunfante, garantindo seu emprego e um pequeno passo rumo à independência, embora ilusória. Essa técnica é mais um exemplo clássico do estilo cinético de Scorsese, que contrasta com takes longos mais naturalistas do resto do filme.


4. Agora, Alice Mora Aqui: Esperança Realista e Despertar Feminino
O final de “Alice Não Mora Mais Aqui” oferece uma nota de esperança cautelosa e realista para Alice, especialmente após sua jornada marcada por relacionamentos abusivos e opressivos: o marido falecido Donald – um caminhoneiro bruto e controlador – e o amante instável e violento, Ben. No clímax emocional, Alice é confrontada com duas opções: perseguir seu sonho nostálgico de retornar a Monterey ou ficar em Tucson com David (Kris Kristofferson), um fazendeiro que, apesar de suas próprias limitações, demonstra disposição para compreendê-la e comprometer-se (ele até propõe vender sua fazenda para acompanhá-la).

Alice, ao optar por ficar, reconhece que o amor maduro envolve concessões mútuas, e não sacrifícios unilaterais. Essa resolução, ambientada no bar-restaurante onde Alice trabalha, sugere um futuro possível de estabilidade – não é um final hollywoodiano perfeito, mas um que reflete o despertar feminino nos anos 1970. A protagonista é livre para escolher um parceiro que a respeita como igual, em vez de persistir em ilusões românticas. Scorsese equilibra o otimismo com realismo, implicando que a esperança reside na resiliência de Alice.










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