
Título Original: Two-Lane Blacktop
Ano de Produção: 1971
Direção: Monte Hellman
Roteiro: Rudy Wurlitzer (roteiro principal); Will Corry (história original); Floyd Mutrux (contribuições não creditadas)
Produção: Michael S. Laughlin (produtor); Gary Kurtz (produtor associado)
Duração: 102 minutos
Elenco: James Taylor como O Motorista (The Driver), Dennis Wilson como O Mecânico (The Mechanic), Warren Oates como GTO, Laurie Bird como A Garota (The Girl)
Enredo: “Two-Lane Blacktop” segue dois entusiastas anônimos de carros, conhecidos apenas como o Motorista (James Taylor) e o Mecânico (Dennis Wilson), que viajam pelas estradas do Sudoeste americano em um Chevrolet 1955 modificado, participando de corridas de rua para ganhar dinheiro e sustentar sua jornada nômade. Eles encontram uma jovem mochileira enigmática, referida como a Garota (Laurie Bird), que se junta a eles sem maiores explicações. Ao longo do caminho, cruzam com um homem solitário, chamado GTO (Warren Oates), que dirige um Pontiac GTO e conta histórias inventadas para caronistas que pega na estrada. Os dois grupos concordam em uma corrida até Washington, D.C., apostando seus próprios carros.
O filme foi lançado no Brasil pela Versátil, no box O Cinema da Nova Hollywood volume 1.

Em “Driving Visions: Exploring The Road Movies”, David Laderman se refere ao gênero road movie como aquele que “explora as ‘fronteiras’ (as convenções do status quo) da sociedade americana”. Durante a década de 70, as paisagens áridas dos filmes de estrada “evocam mais a terra devastada de TS Eliot do que o coração dos Estados Unidos de Jack Kerouac”, um eco de desolação que transforma a estrada em um espelho da alienação interna de seus protagonistas. É exatamente o que vemos em “Corrida sem Fim”: a estrada americana deixa de ser palco para hippies em busca de liberdade irrestrita ou para heróis românticos e epifanias redentoras, e se torna um vazio asfaltado que oferece passagem para almas à deriva. Monte Hellman está documentando a elegia da liberdade contracultural. Os personagens são fantasmas mecânicos, propelidos por motores cujos rugidos escutamos tão bem porque ou não há o que dizer, ou porque as palavras falham. A rebelião hippie revela-se como uma casca oca, uma performance de individualismo que, sem riscos verdadeiros ou perdas palpáveis, dissolve-se em ritual vazio.

Considere o Motorista e o Mecânico, esses arquétipos da era “flower power”: com seus cabelos desgrenhados e olhares distantes, eles encarnam a estética da rebeldia, ziguezagueando pela paisagem do sudoeste norte-americano em um Chevy 1955 modificado. A suposta liberdade irrestrita — essa errância sem amarras — expõe um falso individualismo. Sem metas além da próxima corrida, sem apostas que que coloquem em risco a própria existência, eles se tornam invólucros, lataria, meros ocupantes de um veículo que os define mais do que qualquer desejo interior. Tanto que o interior do veículo se torna parte integrante da paisagem em widescreen, como vemos nesta cena:

Os personagens não são ícones da contracultura, mas caricaturas dela: suas rotinas são rituais mecânicos repetidos à exaustão, como o ronco incessante de um motor sem direção.



Em contraste, o GTO de Warren Oates surge com uma sensibilidade mais explícita, quase patética em sua humanidade. Ele não busca apenas velocidade; ele anseia por companhia, reinventando-se a cada parada, mendigando uma segunda chance em conversas unilaterais que chegam a dar pena. Sua tagarelice incessante é uma tentativa desesperada de preencher o silêncio, mas revela a mesma desconexão que une todos eles. O que os aproxima, incluindo a enigmática Garota — essa personificação de uma liberdade desumanizada, flutuando entre carros como um espírito sem raízes —, é a ausência de uma linguagem de conexão autêntica. Em um mundo onde as almas estão mecanizadas, só os motores falam: o ronco gutural de um V8 torna-se o único dialeto compartilhado, uma sinfonia de combustão interna que mascara a solidão. A Garota, com sua indiferença flutuante, não é uma musa liberada, mas uma extensão dessa desumanização — uma hitchhiker que troca veículos como quem troca máscaras, sem nunca revelar um eu genuíno.

Esse minimalismo estilístico de Monte Hellman, em vez de intensificar a ação, sublinha uma ausência profunda, uma falta que permeia cada quadro. A narrativa é uma corrida sem fim, desprovida de clímax ou resolução, porque o destino, para eles – exceto, talvez, para GTO – é uma ilusão. Como David Laderman argumenta, nos filmes de estrada “as viagens de carro deixam de ser apenas um meio de transporte para chegar a um destino; em vez disso, a viagem em si torna-se o foco principal da narrativa.” No entanto, qual o sentido dessas viagens pela América profunda — esses loops intermináveis por desertos e cidades fantasmas — quando todos os personagens estão irremediavelmente perdidos? Eles não encontram a si mesmos, muito menos uns aos outros; a estrada, símbolo clássico da descoberta em filmes como “Easy Rider”, aqui se revela como um labirinto sem saída.

Eis a ironia que o filme nos mostra: em uma nação obcecada por mobilidade, o movimento constante é apenas estagnação disfarçada, viagem sem objetivo ou com um objetivo ilusório. Por isso a “competição” entre o Mecânico e o Motorista contra GTO perde relevância à medida que o filme avança: “Corrida sem Fim” explora a alienação, a solidão e o vazio existencial da vida na estrada; quando não há metas ou elas não tem importância, são esquecidas pelo caminho.
No final vemos uma cena metafórica onde o filme parece “queimar” na tela. É um lembrete de que a verdadeira rebelião – ou a verdadeira liberdade – exige mais do que gasolina e combustão: exige risco, implica perda e, acima de tudo, envolve conexão humana.










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