
Cada Um Vive Como Quer (Título original: Five Easy Pieces)
Ano: 1970
Duração: 98 minutos
Direção: Bob Rafelson
Roteiro: Bob Rafelson e Carole Eastman (creditada como Adrien Joyce)
Direção de Fotografia: László Kovács
Produção: Bob Rafelson e Richard Wechsler
Produtora: BBS Productions
Elenco: Jack Nicholson – Bobby Eroica Dupea
Karen Black – Rayette Dipesto
Susan Anspach – Catherine Van Oost
Lois Smith – Partita Dupea
Ralph Waite – Carl Fidelio Dupea
Academy Awards (Oscar 1971): Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator (Jack Nicholson), Melhor Atriz Coadjuvante (Karen Black), Melhor Roteiro Original
Enredo: Bobby Dupea trabalha em campos petrolíferos na Califórnia e vive com Rayette, uma garçonete que sonha em ser cantora country. Quando encontra sua irmã Partita, ela revela que o pai está morrendo e pede que ele vá vê-lo em Washington. A viagem revela o passado oculto de Bobby: ele cresceu em uma família de músicos eruditos e era um pianista clássico antes de abandonar tudo
O filme foi lançado no Brasil pela Versátil, no volume 3 da Coleção Cinema da Nova Hollywood.

Não faz muito sentido deixar aviso de SPOILER para um filme com mais de 50 anos, mas vá lá: este texto tem spoilers sobre o final.
Five Easy Pieces é um filme que pode ser dividido em duas partes.
Na primeira, somos apresentados à Bobby Dupea, que trabalha em um campo petrolífero na Califórnia. Vive com Rayette, uma garçonete que deseja ser cantora country. Bobby passa o tempo livre bebendo, jogando boliche e tendo casos extraconjugais. Ele fica sabendo pelo amigo, Elton, que Rayette está grávida. Desde o início, percebemos que Bobby Dupea é um homem que não conseguiu dominar nem a si mesmo, nem sua própria vida. Suas tentativas de dar sentido à sua realidade existencial são pontuadas por expressões infrutíferas de insatisfação e explosões de raiva e niilismo, desespero e grosseria – declarações frustradas sobre o estado do mundo. Quando seu amigo Elton é preso, Bobby vai a Los Angeles visitar sua irmã Partita, que está gravando um disco de música clássica. Partita o informa que o pai está doente e próximo da morte.


Aqui tem início a segunda parte do filme: Bobby decide visitar o pai e os irmãos, mas relutantemente leva Rayette com ele. É nesta segunda parte que descobrimos a verdadeira origem de Bobby. Bobby encontra o pai em estado vegetativo. Conhece Catherine Van Oost, uma jovem pianista noiva de seu irmão Carl, também músico. Revelam-se então as circunstâncias que definem seu conflito existencial: Bobby abandonou a sua casa e a profissão de pianista clássico. Ele está num limbo existencial, alguém que se sente deslocado no mundo e por isso está em trânsito permanente, desconectado do passado por se sentir incapaz de cumprir o que se esperava dele – numa época em que as expectativas de classe e da família tinham mais peso do que têm, atualmente. Esse mal-estar no mundo é reflexo da desilusão e do descontentamento dos anos 1970, período turbulento que se seguiu ao assassinato violento de JFK, à Guerra do Vietnã, à crise econômica, aos conflitos sociais e às mudanças de valores da sociedade norte-americana.
Uma das demonstrações mais sutis dessa fragmentação identitária ocorre entre a primeira e a segunda parte, e isso se dá graças à magistral atuação de Jack Nicholson: Bobby adapta seu registro linguístico conforme o ambiente social em que se encontra. Quando está com Rayette, com os amigos e os outros trabalhadores, Bobby adota um registro mais coloquial, com vocabulário e entonação típicos da classe trabalhadora; sua linguagem é mais direta e grosseira. Por outro lado, com a família, seu discurso se torna mais elaborado, com outro vocabulário e uma dicção mais polida, que reflete sua educação privilegiada e o ambiente cultural erudito em que cresceu. Essa variação linguística ilumina a fragmentação interna do personagem: é um elemento técnico que enriquece a caracterização do personagem, demonstrando como Bobby está sempre “atuando” uma versão de si mesmo. Ele nunca é completamente autêntico em nenhum contexto, ele não pertence genuinamente a nenhum dos dois mundos.
Em sua batalha para apreender e controlar o seu destino, Bobby não apenas mantém afastados todos ao seu redor, mas nega a autoexpressão e a dignidade deles, especialmente a de Rayette. Essa negação do outro se reflete no título do filme. O título original, Five Easy Pieces, tem significado ambíguo. É uma referência às cinco peças musicais que são tocadas ao longo da história (1. Chopin, Fantasy in F minor, Op. 49; 2. Bach, Chromatic Fantasia and Fugue; 3. Mozart, Piano Concerto in E-Flat Major, K. 271; 4. Chopin, Prelude in E Minor, Op. 28, No. 4; 5. Mozart, Fantasy in D Minor, K. 397). Por outro lado, na pedagogia musical, o termo “easy pieces” se refere a exercícios simples para iniciantes, peças que estudantes de piano devem dominar antes de avançar para composições mais complexas. Ironicamente, as peças tocadas no filme são de alta complexidade técnica, mas Bobby talvez esteja mais capacitado para executa-las do que para encontrar um sentido para si mesmo.
A ironia se estende aos próprios nomes dos personagens, todos carregados de significado musical. Bobby Eroica Dupea é uma referência à Eroica, Sinfonia nº 3 em Mi bemol maior, Op. 55, concluída por Beethoven em 1804, e dedicada inicialmente à Napoleão. Segundo Gregg Campbell (Literature/Film Quarterly, 1974), “Eroica era, no entanto, uma obra genial já falha em sua concepção. Originalmente dedicada às possibilidades heróicas do homem moderno na pessoa do guerreiro/libertador Napoleão. Beethoven foi forçado a refazer a dedicatória de sua Terceira Sinfonia “à memória de um grande homem” após a notícia de que Napoleão havia se proclamado imperador. Assim, as esperanças de Beethoven, o artista/intelectual, foram frustradas quando seu herói tragicamente imperfeito se tornou mais uma vítima da arrogância, do orgulho excessivo que negaria a autoexpressão e a dignidade aos semelhantes que ele supostamente havia libertado.”
De forma contrastante, seu irmão, Carl Fidelio Dupea, tem seu nome em referência a Fidelio, única ópera composta por Beethoven. Conta a história de Florestan, um nobre que é libertado da prisão por sua esposa, Leonora. Disfarçando-se de menino e adotando o nome de Fidelio, Leonora entra na prisão e garante sua libertação. Leonora é a heroína da ópera de Beethoven, cujo tema é o do amor que supera obstáculos por intermédio da fidelidade. Carl Fidelio permanece fiel às expectativas familiares, enquanto Bobby vive em constante fuga e usa os obstáculos como desculpas para fugir. Seguindo essa lógica simbólica, Catherine, a noiva de Carl, com quem Bobby tem um relacionamento, é a Leonora do filme: ela é a única personagem que conhece a si mesma e que aceita o aspecto trágico da vida com dignidade e compaixão. Enquanto Bobby se imagina como o “herói prometeico napoleônico que vem libertar Catherine do mausoléu da ilha, ela é a única pessoa no filme que tem a profundidade e a força de caráter, a sensibilidade e a inteligência para salvar Bobby de si mesmo” (Gregg Campbell, 1974).
Essa compreensão de Catherine torna-se explícita quando Bobby pede a ela para fugir com ele, eela replica: “É inútil. Não posso ir com você, e o motivo não é Carl ou a minha música, mas você. Uma pessoa que não ama nem respeita a si mesmo, não ama os amigos, nem a família, nem o trabalho, nada…como pode pedir amor em troca?”

Por meio dessa fala, Catherine articula o diagnóstico central do filme: Bobby está condenado a uma vida vazia de significado, sob insatisfação perpétua, alguém que busca redenção por meio de promiscuidade, evasão e anulação dos outros. Alienado, à deriva, e solitário.
Em contraposição a Catherine, que compreende Bobby mas se recusa a salvá-lo, Rayette ama Bobby sem compreendê-lo – a personagem é interpretada por uma Karen Black luminosa. Conhecemos Rayette por meio de caracterização indireta: em vez de diálogos explicativos, o filme usa as canções de Tammy Wynette como trilha sonora de sua vida interior. A música country representa valores que Bobby despreza: fidelidade, compromisso, emotividade direta e simplicidade. Para Rayette, essas canções são manuais de vida; para Bobby, são manifestações de uma sensibilidade que ele rejeita. Legitimamente apaixonada por Bobby, que a menospreza, ela é capaz de perdoar e encobrir suas falhas, como na canção Stand By Your Man, que abre o filme:
“Sometimes it’s hard to be a woman
Giving all your love to just one man
You’ll have bad times, and he’ll have good times
Doin’ things that you don’t understand
But if you love him, you’ll forgive him
Even though he’s hard to understand”
Do ponto de vista da construção dramatúrgica, o roteiro foi escrito por Carole Eastman, creditada como Adrien Joyce. Ela iniciou sua carreira como atriz antes de escrever The Shooting para Monte Hellman em 1967 – estrelado por Jack Nicholson. Em 1969, ela trabalhou com o cineasta francês Jacques Demy em sua estreia em língua inglesa, com o filme Model Shop. A história de Five Easy Pieces foi desenvolvida por ela e pelo diretor, Bob Rafelson. Entretanto, há uma cena, bastante emblemática, que foi escrita por Jack Nicholson. É a cena em que ele tem um monólogo diante de seu pai:

“Não sei se tem interesse em saber de mim. Minha vida não tem nada a ver com o estilo de vida que o senhor aprovaria. Eu me mudo bastante. Não porque esteja em busca de algo, mas porque quero evitar que as coisas deem errado se eu ficar. Começos promissores…sabe o que isso significa? (…) Não sei o que dizer. (…) O melhor que posso fazer é pedir desculpas. Nós dois sabemos que eu nunca fui muito bom nisso. Lamento que não tenha dado certo.”

Contudo, Bobby não consegue a redenção que buscava com essa revelação. Seu pai está vegetativo, ele não pode responder – não sabemos nem se ele pode compreender. Coerentemente com sua trajetória de fuga perpétua, ao final, ele decide pegar carona com um caminhoneiro que segue para o norte – e abandona seu carro, seus pertences, e Rayette, em um posto de gasolina de beira de estrada. Na cabine do caminhão, nas últimas cenas, ele insiste que “está bem” — mais uma vez enganando a si mesmo.











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