
Título Original: The Graduate (A Primeira Noite de um Homem)
Ano: 1967
Direção: Mike Nichols
Roteiro: Calder Willingham, Buck Henry (Baseado no romance de: Charles Webb)
Produção: Lawrence Turman
Direção de Fotografia: Robert Surtees
Canções: Simon and Garfunkel
Elenco Principal:
Dustin Hoffman – Benjamin Braddock
Anne Bancroft – Sra. Robinson
Katharine Ross – Elaine Robinson
William Daniels – Sr. Braddock
Murray Hamilton – Sr. Robinson
Elizabeth Wilson – Sra. Braddock
Premiações e Indicações ao Oscar 1968 (40ª Cerimônia):
Vitórias: Melhor Diretor – Mike Nichols
Indicações (6): Melhor Filme, Melhor Ator – Dustin Hoffman, Melhor Atriz – Anne Bancroft, Melhor Atriz Coadjuvante – Katharine Ross, Melhor Roteiro Adaptado – Calder Willingham e Buck Henry, Melhor Direção de Fotografia – Robert Surtees
Resumo : Benjamin Braddock (Dustin Hoffman) é um jovem de 21 anos que acaba de se formar na faculdade e retorna para casa dos pais na Califórnia. Apesar do sucesso acadêmico e das expectativas familiares sobre um suposto futuro brilhante, Benjamin se sente perdido, alienado e sem direção na vida. Durante uma festa em sua casa, a Sra. Robinson (Anne Bancroft), esposa do sócio de negócios de seu pai, o seduz e inicia com ele um caso extraconjugal. Benjamin, inicialmente relutante, acaba cedendo à sedução e mantém um relacionamento puramente sexual com a mulher mais velha durante o verão. A situação se complica quando os pais de Benjamin o pressionam a sair com Elaine Robinson (Katharine Ross), filha da Sra. Robinson. A Sra. Robinson fica furiosa com a possibilidade e proíbe Benjamin de se envolver com sua filha, ameaçando expor o relacionamento, caso ele desobedeça. Inicialmente resistente à ideia, Benjamin eventualmente sai com Elaine e se apaixona por ela. Quando Elaine descobre sobre o caso entre Benjamin e sua mãe, fica chocada e retorna para Berkeley. Determinado a conquistá-la, Benjamin a segue até a universidade, onde descobre que ela está noiva de Carl Smith, um estudante de medicina escolhido por seus pais. Benjamin persiste em suas tentativas de reconquistá-la, alugando um quarto próximo ao campus e a seguindo constantemente. No clímax, Benjamin descobre que Elaine está se casando naquele dia e corre desesperadamente para a igreja. Ele chega durante a cerimônia, grita o nome de Elaine do coro da igreja, e ela responde ao seu chamado. Após uma briga com os convidados do casamento, os dois fogem juntos em um ônibus urbano.
“E na luz branca eu vi
Dez mil pessoas, talvez mais
Pessoas falando sem dizer nada
Pessoas ouvindo sem prestar atenção
Pessoas escrevendo canções que as vozes nunca compartilham
Ninguém ousava
Perturbar o som do silêncio”
(The sound of silence, Simon & Garfunkel)
“Pela primeira vez em muitos anos, o público norte-americano foi confrontado com um choque geracional escancarado nas telas (…) Uma pesquisa feita pela indústria no início de 68 revelou que 48% dos frequentadores de cinema nos Estados Unidos tinham menos de 24 anos de idade (…) Foi somente com A Primeira Noite de um Homem que um grande sucesso do cinema dos anos 60 expôs a distância – o gap geracional – que havia entre esses jovens e seus pais. (…) Um público jovem e cada vez mais numeroso, ansioso por encontrar na produção cinematográfica obras que refletissem as transformações sociais da mesma forma como a música vinha fazendo, enfim tinha algo para comprovar que o cinema norte-americano era capaz de falar sua língua.”
(Mark Harris, Cenas de Uma Revolução – O Nascimento da Nova Hollywood).

Logo no início de The Graduate, acompanhamos o protagonista, Benjamin, numa esteira rolante de aeroporto em uma tomada lenta e prolongada, ao som de The Sound of Silence (Simon & Garfunkel), e a sensação de isolamento é imediatamente perceptível. Seu rosto impassível, refletido contra o fundo neutro do aeroporto, ecoa o vazio de um jovem retornando a um lar que já não reconhece, como se fosse arrastado por uma corrente invisível. O diretor Mike Nichols constrói uma narrativa que reflete a alienação, a paralisia e a desilusão da cultura jovem de sua época — uma geração que precisa romper com o passado, com valores considerados obsoletos, ainda que o futuro permaneça completamente incerto.

The Sound of Silence, com suas letras sobre escuridão, visões perturbadoras e pessoas que “falam sem dizer, ouvem sem escutar“, funciona como um dos elementos narrativos que simbolizam o silêncio ensurdecedor da sociedade americana pós-guerra, onde a geração jovem se sente paralisada por expectativas vazias. A canção intensifica o retrato da juventude dos anos 1960 como isolada e sem rumo, refletindo a experiência coletiva de uma geração em conflito com as expectativas sociais. A música sublinha o senso de isolamento e inércia de Benjamin, que flutua literal e metaforicamente em uma piscina de indiferença, enquanto as letras evocam uma visão sombria de comunicação falha e visões não realizadas.
“Achávamos que aquela música expressava a depressão profunda que se instalou dentro dele a partir do momento em que voltou para casa, o suicídio emocional que ele cometeu quando começou a transar com a Sra Robinson.”
(Mike Nichols, sobre a escolha por The Sound of Silence).
Benjamin expressa inúmeras vezes, para seus pais e os amigos de seus pais, sua “preocupação” quanto ao futuro mas, paradoxalmente, parece não fazer esforço algum para abandonar sua atitude passiva, supostamente analítica e reflexiva. Tais preocupações são sistematicamente negligenciadas pela geração mais velha, arraigada a valores de classe e posição social. Para essa juventude paralisada, eleva-se o presente imediato como única experiência real e possível: uma espécie de liberdade absoluta inédita que, no entanto, mostra-se incapaz de preencher o vazio existencial ou resolver a sensação de alienação.
Esse silêncio ressoa também na entrada em cena da Sra. Robinson — uma mulher que não é nem uma liberal revolucionária nem uma suburbana completamente conformada —, mas alguém que, grávida, abdicou da faculdade de Artes em prol da segurança de bens materiais, e que seduz Benjamin e o enreda em uma tentativa de preencher o vazio de seu casamento infeliz, através do sexo. A montagem do filme acentua deliberadamente a rotina vazia que se estabelece entre eles: Benjamin se submete à Sra. Robinson para disfarçar a falta de propósito e a desolação de sua própria vida. Nas noites repetitivas no hotel, a câmera captura seus rostos desprovidos de emoção, com o som ambiente abafado destacando o silêncio quando o físico substitui o diálogo:
“Eu queria expressar o desespero de um caso que está logo abaixo da cintura e com o qual ele não tem nenhuma conexão real, então a montagem mostra como as coisas acontecem quando a conversa falha. É bastante extremo, mas precisa ser assim. Não há interação interpessoal.”
(Mike Nichols).

A montagem e a edição acentuam a experiência de Benjamin de habitar um casulo mental — num instante está flutuando em sua piscina, no imediatamente seguinte está dormindo com a Sra. Robinson. Sem realmente se conectar com ninguém. Embora externamente pareça um garoto inteligente e privilegiado que deveria estar prosperando no mundo, internamente ele permanece inseguro, conflituoso e inerte.

Técnica Cinematográfica: Som e Imagem
Rachel Coates destaca o aspecto da edição de som no filme como elemento narrativo crucial: (https://rachaelcoates.wordpress.com/2013/02/20/listening-beyond-the-sound-of-silence-in-the-graduate-d-mike-nichols-1967/)
“A ponte sonora é entendida na crítica cinematográfica como um recurso de transição. Pode ser definida de duas maneiras:
1. quando o som da cena seguinte começa enquanto as imagens da cena anterior ainda estão na tela;
2. quando o som permanece brevemente enquanto as imagens da cena seguinte se sucedem.
Um excelente exemplo ocorre em The Graduate, quando Benjamin está saindo da casa dos Robinson pela primeira vez. Uma tomada longa e estática captura Benjamin caminhando até seu carro, afastando-se do Sr. e da Sra. Robinson, que estão em foco suave e emoldurados pelo arco da porta da frente. Aqui, o Sr. Braddock é ouvido dizendo: ‘Senhoras e senhores, sua atenção, por favor, para a atração principal desta tarde’. A ponte sonora reforça a submissão de Benjamin; é como se ele fosse um fantoche sendo manipulado por todos os lados […] O próprio fato de a ponte sonora ser uma transição audível reflete a inexorabilidade da situação de Benjamin — incapaz de escapar das pressões externas das expectativas familiares e sociais.”
Composição Visual e Simbolismo
Quando a Sra. Robinson convida Benjamin a observar um quadro de Elaine, eles estão na sala da residência dela. Temos uma iluminação específica, tudo parece estar exposto e visível.

No quarto, ela tenta seduzi-lo, e então o marido chega. Benjamin desce as escadas assustado, e encontramos a sala sob a perspectiva de outra iluminação, com mais sombras. Temos, cinematograficamente, o surgimento de um segredo, e configuração da Sra Robinson como alguém que se tornou, a partir daquele momento, assustadora.

O diretor de fotografia Robert Surtees e o diretor Mike Nichols incorporaram sistematicamente planos prolongados e espaços negativos para transmitir o isolamento e a alienação de Benjamin. Os espaços negativos — áreas vazias ao redor de Benjamin — não são acidentais, mas uma escolha técnica para enfatizar sua solidão em um mundo lotado de expectativas, contrastando com enquadramentos apertados que o “aprisionam” visualmente. A água emerge como motivo recorrente, simbolizando tanto a estagnação emocional quanto a sensação de aprisionamento. As icônicas sequências na piscina enfatizam sua incapacidade de se libertar das expectativas sociais impostas. Em uma cena marcante, ele mergulha na piscina enquanto os pais o observam de cima, sua figura distorcida pela água ondulante simbolizando o abismo entre gerações, como se estivesse submerso em um oceano de expectativas não verbalizadas. As composições são meticulosamente projetadas para transmitir temas de isolamento e rebelião. Benjamin é frequentemente enquadrado em espaços confinados — portas, janelas ou o fundo da piscina — representando visualmente seu aprisionamento. Uma das cenas mais icônicas o mostra através da perna dobrada da Sra. Robinson, onde Benjamin parece literalmente preso dentro de seu enquadramento.



“Nichols procurou com frequência mostrar Benjamin isolado dos outros personagens pela água ou por um vidro. Desde uma das cenas de abertura, em que, melancólico, ele se senta diante de um aquário, até a sequência final, na qual ele fica preso em um enorme painel de vidro ao tentar interromper o casamento de Elaine.”
(Mark Harris, Cenas de uma Revolução).

O “Final Feliz” Ambíguo
Essa busca por preenchimento culmina no confronto com Elaine, filha da Sra. Robinson, por quem Benjamin se apaixona – em sua primeira decisão própria, ativa, apesar de impulsiva. Ela compartilha dessa resistência às imposições da geração anterior, rejeitando a perspectiva de um casamento mundano imposto pelos pais, querendo ser capaz de tomar decisões autônomas sobre seu futuro. No clímax, quando Benjamin corre em direção à igreja para “resgatá-la”, Nichols e o diretor de fotografia empregam lentes longas para comprimir o espaço, fazendo-o parecer preso em seu ambiente — uma ilusão visual que transmite um frenesi aparentemente inútil. Essa compressão óptica, comum em thrillers, aqui serve para argumentar visualmente a futilidade da rebelião, como se o espaço se fechasse sobre ele apesar de seus esforços frenéticos.

Quando Benjamin e Elaine finalmente fogem juntos num aparente “final feliz”, fazem-no às custas de abandonar suas famílias. Contudo, o rompimento geracional e a quebra com o passado não garantem a satisfação futura: na cena final, ambos são vistos com reprovação pela geração mais velha, e olham fixamente para o vazio, num desconforto palpável — especialmente Benjamin, que apresenta a mesma expressão de desilusão que tinha no início do filme, sugerindo que a fuga pode ter sido apenas uma ilusão de liberdade.

No ônibus em fuga, o close-up alterna entre seus sorrisos iniciais que se desvanecem em expressões vazias. Embora alguns vejam a fuga como um triunfo, a expressão desiludida de Benjamin sugere que o rompimento pode perpetuar o silêncio em vez de quebrá-lo: um indicativo de que estão, a um passo, de se tornar os seus pais.














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