
Título Original: Nocturnal Animals
Direção: Tom Ford
Roteiro: Tom Ford (baseado no romance Tony and Susan, de Austin Wright, 1993)
Elenco Principal: Amy Adams (Susan Morrow), Jake Gyllenhaal (Edward Sheffield/Tony Hastings), Michael Shannon (Detetive Bobby Andes), Aaron Taylor-Johnson (Ray Marcus), Isla Fisher (Laura Hastings), Armie Hammer (Hutton Morrow), Laura Linney (Anne Sutton)
Gênero: Drama, Thriller Psicológico
Duração: 116 minutos
Fotografia: Seamus McGarvey (filmado em 35mm, widescreen)

A profetisa lhe disse em resposta: “De origem divina,
Filho de Anquises, Troiano! Descer ao Inferno é mui fácil:
Sempre está aberta de dia e de noite a porteira do Dite.
Mas desandar o caminho e subir outra vez para o claro,
eis todo o ponto, o trabalho mais duro. Bem poucos, amados
do grande Jove, ou os que ao céu se elevaram por mérito próprio,
filhos de deuses, de fato o alcançaram.”
Virgílio, Eneida, livro VI (século I a.C.).
“A descida ao inferno, seja metaforicamente (‘Confissões’, Santo Agostinho) ou dramaticamente (‘Divina Comédia’, Dante), é o primeiro passo na jornada para a verdade. Tem os efeitos de arrasar os valores invertidos desta vida e transformar a morte em vida autêntica.”
John Freccero, Dante – The poetics of conversions.
Susan (Amy Adams) é dona de uma galeria em Los Angeles. Casada com Hutton (Armie Hammer), ela recebe do ex-marido, Edward (Jake Gyllenhaal), o texto original de seu novo romance, intitulado “Animais Noturnos”, que é dedicado a ela. O filme alterna três linhas narrativas: o presente, em que Susan lê o livro; o passado, que mostra o início e o fim da relação entre Susan e Edward; e a história do manuscrito, que é lida por Susan. No livro, Tony Hastings (Jake Gyllenhaal) viaja com a esposa (Isla Fisher, incrivelmente parecida com Amy Adams) e a filha pelo deserto do Texas, quando a família é abordada e raptada por Ray Marcus e seus comparsas. Enquanto lê, Susan relembra suas escolhas e o relacionamento com Edward. Ao terminar a leitura, Susan convida Edward para jantar, a fim de conversarem sobre a sua experiência da leitura.
Animais Noturnos (2016), dirigido por Tom Ford, é baseado no romance Tony e Susan (1993) de Austin Wright. O filme constrói uma narrativa que transcende a mera adaptação para se tornar uma experiência catabática formalmente estruturada. A catábase, tradicionalmente entendida como uma descida ao submundo em busca de conhecimento, redenção ou confronto com a morte, é reimaginada em Animais Noturnos como uma jornada interior desencadeada pela leitura do manuscrito de Edward. Susan, a protagonista, é conduzida por esse texto a um inferno composto por culpa, arrependimento e autorreconhecimento. A estrutura dividida em três partes do filme — composta pela realidade presente de Susan, o romance fictício que ela lê e as memórias de seu passado — opera como um mecanismo formal que, alinhado às teorias literárias de Wright, transforma a forma narrativa na própria expressão do inferno. Além disso, a estética visual de Ford ilustra essa descida, utilizando cores, espelhos, enquadramentos e contrastes para materializar o submundo como uma prisão da consciência.

1. A Catábase como Estrutura Narrativa: Justaposição de Ficções
Austin Wright, em seu ensaio The Formal Principle in the Novel (1982), argumenta que
“A importância do princípio formal no processo artístico é o guia necessário ao artista enquanto ele compõe…a forma não é simplesmente meio de expressão, a forma é a expressão, é aquilo que o trabalho expressa”.
No romance Tony e Susan, essa perspectiva sobre a forma se materializa na estrutura que organiza a narrativa, uma abordagem replicada no filme de Tom Ford. As três linhas narrativas — o presente de Susan, o romance fictício de Edward e os flashbacks de seu passado — não são paralelas, mas estão hierarquicamente conectadas de modo a que cada uma exponha significados que estão soterrados nas outras.

No sexto livro da Eneida, de Virgílio, o herói do poema, Enéas, desce ao submundo e encontra vários mortos famosos antes de se reunir com seu pai (Anquises), a quem consulta sobre o que o destino reserva a ele e, depois da consulta, retorna ao mundo dos vivos. A tradição da catábase (do grego κατάβασις, “descida”) da literatura ocidental — da Odisseia à Divina Comédia — envolve uma jornada ao submundo (“decensus ad inferos”) cujo saldo é uma revelação existencial, muitas vezes dependente do confronto com as ilusões do presente e do passado. Virgílio baseou-se no relato de Homero em sua Odisseia sobre a viagem feita por Odisseu para consultar os espíritos dos mortos e em diversos mitos tradicionais (que sobreviveram em várias formulações literárias): por exemplo, a expedição de Orfeu ao submundo, para trazer de volta Eurídice. Essa tradição tem raízes profundas não apenas na mitologia clássica, mas também em textos religiosos, frequentemente servindo como um recurso narrativo para explorar temas como morte, transformação, conhecimento e redenção. O épico babilônico de Gilgamesh (2000 a.C.) conta a jornada catabática de Gilgamesh, personagem ao mesmo tempo divino e sujeito às aspirações e aos sofrimentos humanos. Provavelmente é o mito catabático secular mais antigo do mundo.

As principais características da literatura catabática são (Hell in contemporary literature: Western descent narratives since 1945. Rachel Falconer, 2004):
a) Descida ao Submundo – O protagonista desce fisicamente ou simbolicamente ao reino subterrâneo, frequentemente representando a morte, o inconsciente ou um espaço liminar entre mundos.
b) Encontros com os Mortos – O protagonista encontra figuras falecidas (ancestrais, seres mitológicos ou entes queridos perdidos) que fornecem sabedoria, avisos ou profecias.
c) Provas e Obstáculos – A descida pode envolver desafios relacionados com a configuração do Hades ou do Inferno, como atravessar rios, enfrentar guardiões (Cérbero, o cão de três cabeças que guarda a entrada do Hades) ou confrontar demônios pessoais.
d) Transformação Simbólica – A jornada geralmente ocasiona mudança psicológica, espiritual ou existencial no protagonista.
e) Retorno (Anábase) ou Fracasso – Algumas narrativas apresentam um retorno (anábase), enquanto outras terminam em confinamento eterno.
Em Animais Noturnos, essa descida é formalizada na estrutura narrativa.

1.1. As Três Linhas Narrativas
a) O Presente (Mundo Superficial): Susan (Amy Adams) é uma galerista bem-sucedida que vive uma existência estéril, enredada em um casamento infiel, e que aos poucos percebe a sua realidade como artificial e vazia.
b) O Romance (Submundo Ficcional): O manuscrito de Edward (Jake Gyllenhaal), Animais Noturnos, narra a história de Tony Hastings (Jake Gyllenhaal), um homem cuja família é raptada (enquanto ele permanece praticamente paralisado, sem ação) e brutalmente assassinada.
c) O Passado (Memória Reprimida): Flashbacks de Susan e Edward são mostrados em tons dourados, como a ilustrar uma época de autenticidade perdida.
1.2. O Romance como Portal Infernal
Austin Wright comenta a respeito da metaficção na literatura:
“Ultimamente, comecei a ponderar acerca da relação entre duas ficções: justaposição de ficção, subtramas, tramas duplas, protagonistas duplicados, o modo como ficções superpostas podem se tornar metáfora uma para a outra, cada qual evidenciando significados que estão soterrados uma na outra (…)”
O livro de Edward, Animais Noturnos, é o eixo da catábase. A história de Tony Hastings atua como um espelho distorcido que reflete as escolhas de Susan: o romance fictício não é apenas uma subtrama, mas funciona como uma espécie de alegoria da vida de Susan. A violência sofrida pela família de Tony, especialmente o estupro e assassinato de sua filha, é uma referência ao aborto que Susan realizou ao engravidar de Edward, um ato que, no romance, é explicitamente ligado à culpa. Essa sobreposição cria um efeito de desfamiliarização, conceito que Wright associa à necessidade de “despir o véu de familiaridade” para despertar o leitor. O ato de Susan cortar o dedo ao abrir o pacote do manuscrito simboliza essa ruptura: o sangue marca o início de uma jornada que não será meramente física.

1.3. O Passado como Material Reprimido
As memórias que emergem durante a leitura do manuscrito são o segundo componente da catábase, funcionando como o material que o texto desenterra. Austin Wright descreve a literatura como “arqueologia imaginativa” e em Animais Noturnos o passado de Susan é escavado como camadas de um sítio arqueológico. Cada flashback é desencadeado por um evento no romance fictício, criando uma relação causal entre texto e memória. A paleta dourada e quente dos flashbacks contrasta com os tons frios do deserto emocional do presente.
Essa escavação não é neutra: ao reescrever as suas memórias, à medida que Susan imerge na leitura do manuscrito, sua autoimagem é confrontada. Ela via Edward como “fraco” e, portanto, sua decisão de abandoná-lo teria sido uma decisão prática. Mas o romance expõe sua traição como uma forma de covardia. Como na tradição catabática, onde o herói encontra figuras do passado, Susan confronta versões de si mesma.
1.4. O Presente como Inferno Realizado
O tempo presente de Susan, marcado pelo isolamento devido ao casamento infeliz e à percepção de superficialidade de sua carreira, é o palco onde a catábase se concretiza. Sua realidade é o resultado das escolhas que ela fez, descortinadas pelo manuscrito e, consequentemente, pela memória. A vida de Susan é apresentada como um Hades moderno: ela está aprisionada em um submundo antes mesmo de começar a ler o livro. A cena final, em que Susan espera Edward no restaurante, é o ápice dessa revelação. Enquadrada sozinha, com um espelho ao fundo que reflete a sua solidão, Susan remove os brincos em um gesto mínimo de luto por si mesma. Edward não aparece. Susan parece esperá-lo pela eternidade de algumas horas. A ascensão do submundo irá acontecer? Se, para Jean-Paul Sartre, “o inferno são os outros”, o inferno de Susan é ela mesma, e o manuscrito somente iluminou a sua realidade.
2. Cinematografia como Tradução Visual da Catábase
A estética de Animais Noturnos não é um complemento à narrativa, mas uma extensão do princípio formal de Austin Wright. Cada escolha visual — cores, espelhos, enquadramentos, luzes — reforça a ideia de que a forma é o inferno. As três linhas narrativas são distinguidas por paletas cromáticas que expressam seus papéis na catábase:
Presente: Tons frios, vermelho vivo e luz artificial dominam o presente de Susan, criando uma estética de inautenticidade, como se, enredada pelas mentiras que conta a si mesma, Susan habitasse uma vitrine.

Romance Fictício: O deserto do Texas é filmado em tons alaranjados e escuros, o que evoca o horror bruto do submundo. A violência gráfica é apresentada de modo visceral, em tensão crescente, em contraste com a assepsia do presente.

Passado: Flashbacks utilizam tons quentes (âmbar, dourado), ilustrando a autenticidade que Susan abandonou por escolha própria.
Essa transição cromática espelha a descida de Susan: do mundo superficial dos vivos (presente) ao inferno visceral da verdade (romance) e à nostalgia de uma realidade autêntica (passado). Como na Divina Comédia de Dante, onde cada círculo do Inferno tem sua própria atmosfera, as paletas de Tom Ford criam um submundo multifacetado.
Os espelhos funcionam como metáforas visuais da autorreflexão forçada pela catábase. Sua mansão é uma “caixa de espelhos” que distorce sua imagem. O romance fictício, por sua vez, funciona como um espelho moral: Tony Hastings é um duplo de Edward, e a destruição de sua família reflete a violência emocional que Susan infligiu ao abandonar seu ex-marido e abortar o seu filho.

3. A Arqueologia Imaginativa do Self
Segundo Austin Wright, a literatura permite uma “arqueologia imaginativa”, e o manuscrito de Edward é a ferramenta que desenterra as camadas de culpa e autoengano de Susan. O texto não apenas revela, mas reescreve o passado de Susan. A fraqueza que ela atribuía a Edward é reinterpretada como sua própria covardia diante da possibilidade de uma vida original e autêntica, ainda que com privações ou limitações materiais.
A noção de desfamiliarização, central à teoria de Wright, é o mecanismo psicológico que impulsiona a descida de Susan. O manuscrito de Edward rasga o “véu de familiaridade” que a mantinha anestesiada em sua vida artificial, forçando-a a reinterpretar sua realidade. É um processo doloroso e angustiante, e é uma das grandes capacidades da arte como experiência reveladora por meio da imaginação, para dar forma às experiências interiores de modo a podermos contemplá-las e entendê-las. O manuscrito atua como uma lâmina que corta a percepção automatizada de Susan, obrigando-a a sentir novamente. Para Austin Wright, a arte deve “despertar o leitor de sua realidade adormecida”, transformando o ato de ler em um ritual de confronto.
A desfamiliarização, desencadeada pelo manuscrito, revela que o verdadeiro horror não está no deserto fictício do Texas, mas no deserto de sua vida atual. É exatamente isso o que lemos no romance Tony e Susan, no momento preciso da revelação catabática:
“Por meio de Tony, por meio de Edward, ela teve uma visão de relance. Não importa, não agora. Pelo bem da civilização, ela vai escrever uma carta para Edward. (…) Diz tudo o que planejava dizer. Louva as boas qualidades do livro e critica as falhas. Diz como o livro a fez pensar na precariedade de sua vida bem protegida. Confessa sua afinidade com Tony. (…) Edward pergunta: o que está faltando em meu livro? Ela responde: você não sabe, Edward? Não consegue enxergar? O pensamento de Susan desvia para coisas irrelevantes. O que está faltando na vida dela?”
Esse é o ápice da arqueologia imaginativa: Susan finalmente enxerga que o que falta no livro é exatamente o que falta nela mesma. Susan é desafiada a reescrever sua “saga” com Edward (seu ex-marido) e com Hutton, seu marido atual. Edward não aparece no final, assim como Orfeu perde Eurídice ao olhar para trás.

A última cena, com Susan sozinha no restaurante, confirma que o véu da familiaridade foi rasgado.

4. Conclusão
Animais Noturnos é uma narrativa catabática. A estrutura em três partes do romance Tony e Susan, replicada no filme e inspirada nas teorias do próprio autor, Austin Wright, transforma o romance fictício em um portal infernal, que permite vislumbrar o passado (um depósito de fantasmas) e o presente (um abismo). A estética do filme — com suas cores contrastantes, espelhos e enquadramentos claustrofóbicos — traduz essa descida em imagens que aprisionam Susan em sua própria consciência culpada e autoenganada. A desfamiliarização, desencadeada pelo manuscrito, revela que o verdadeiro horror não está no deserto fictício do Texas, mas no deserto de sua vida atual.
Como Wright argumenta, “a forma é a expressão”, e em Animais Noturnos a forma é o inferno. A arquitetura literária de Austin Wright e a cinematográfica de Tom Ford mostram que a catábase de Susan não é meramente uma jornada psicológica; é sobretudo uma experiência espiritual. Às vezes, a única lição do submundo é mostrar que algumas almas já estavam mortas antes mesmo de descerem.

P.S.: o roteiro do filme é irregular e oscila entre pontos altos e baixos – especialmente em relação aos diálogos: há passagens memoráveis (a participação da atriz Laura Linney, como a mãe de Susan) e exposições sofríveis (a cena dentro do carro, após Susan realizar o aborto).










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