
As memórias são as cicatrizes de nossas transformações. Com o passar do tempo, somos moldados pela diversidade de experiências a que estamos sujeitos, tornando-nos distintos do que éramos e do que imaginamos vir a ser. Contudo, cada ato de lembrar implica uma perda: ao recordarmos um evento, detalhes são inevitavelmente omitidos, condenados ao esquecimento. Como observa Milan Kundera em A Ignorância, “a nostalgia do exilado esvazia suas lembranças, pois, absorvida em si mesma, não estimula a memória”. Contra esse apagamento, a linguagem surge como resistência, e a poesia, em particular, é um modo singular de usá-la. Para Bruno Tolentino, a poesia formula o perceptível no ápice da tensão linguística; em A Arte da Fome, Paul Auster assegura que o poema não apenas expressa o mundo, mas é uma forma de habitá-lo. Assim, o poeta, ao lançar um olhar renovado sobre o real, simultaneamente se apropria dele e afirma sua individualidade, percebendo o mundo justamente por estar apartado dele.
No entanto, a percepção humana é limitada. Nossa atenção, condicionada pelo processamento neural, filtra os inúmeros estímulos do ambiente, selecionando o que será privilegiado. O poeta, nesse sentido, é um exilado no limiar da experiência, incapaz de abarcar a totalidade do vivido. Suas armas são as palavras, com as quais luta para capturar o efêmero e dar forma ao intangível. Essas reflexões encontram eco no livro Quando não estou por perto (Ed. 7Letras, 2012), de Anita Malufe Costa, uma obra que explora a fragilidade da memória e a potência da linguagem poética.
Na epígrafe, Anita cita Virginia Woolf: “Nada deveria ser nomeado, a não ser que, agindo assim, estejamos transformando alguma coisa.” Essa escolha sinaliza a missão da poesia: atribuir significado ao que existe, desafiando a banalidade cotidiana. Contudo, a poetisa reconhece a insuficiência das palavras. Seus poemas, caracterizados por frases entrecortadas, narrativas não lineares e uma estrutura circular, tentam iluminar o que foi percebido, mas frequentemente se deparam com zonas de sombra e elipse. A repetição de frases entre poemas sugere um esforço de compreensão, como se a poeta revisitasse instantes fragmentados para reconstituí-los. Essas reprises criam imagens onipresentes, instantâneos montados de forma distinta a cada poema, numa busca incessante por sentido.
O leitor, por sua vez, sente-se um intruso, testemunhando pensamentos partidos e imagens estilhaçadas. Como observa o crítico Donizete Galvão, a impossibilidade de apreensão total leva à implosão do eu lírico numa “torrente de vozes insólitas”. Essas vozes, ao tentar recompor o real — ou talvez uma impressão fugaz —, mimetizam o funcionamento da memória, que reordena lembranças e lhes atribui novos significados. Um exemplo disso é o poema que descreve raios de luz filtrados por uma persiana, entrelaçando imagens de óculos perdidos, uma xícara de café e a lembrança de um diálogo:
“quanta coisa guardada penso os raios / tombam pela fresta manhã escura e estes / raios estes finos traçados de luz desenhos / repentinos quanta coisa guardada estes braços se / alongando não posso enxergar muito longe estico / a mão na cabeceira os óculos perdidos entre os livros / (…) cavoucando a cabeça mas sem achar não posso / enxergar muito além quando a manhã escurece / haveria a lembrança de um dia opaco os óculos / perdidos entre os livros a lente embaçando sobre (…) / a luz cavoucando a lembrança de um dia / opaco em que você me diria para ficarmos juntos / mais um pouco tomarmos a estrada / mais tarde um pouco mais tarde as palavras quase / conseguindo alongar os minutos dizer tudo / mais devagar você me dizendo que estar ali / subitamente tinha um gosto de ficar para sempre / um segundo estancado no tempo os minutos / se alongando como uma nota que se prolonga até / morrer deixando uma bolha de silêncio em torno”
A linguagem poética de Anita captura a tensão entre o tangível (os raios de luz, a xícara) e o intangível (a memória de um instante). A estrutura fragmentada reflete a precariedade da lembrança, enquanto a repetição de “quanta coisa guardada” evoca o peso do que se tenta reter. Outro poema, com sua descrição de uma cidade sem saída e gestos repetitivos, reforça essa sensação de circularidade:
“queria que as coisas fossem diferentes o sorriso / se contraindo atrás da porta do elevador diferentes / […] as fotografias que ela fez na cidadezinha / italiana onde as janelas eram varais coloridos eu / mesma nunca estive lá mas quero poder voltar”
menção a uma cidade italiana nunca visitada, mas desejada, sublinha a nostalgia por um lugar que existe apenas na imaginação, uma metáfora poderosa para a memória que recria o passado.
Em Quando não estou por perto, Anita Malufe Costa constrói uma poética do fragmento, onde a linguagem é tanto limite quanto possibilidade. Seus poemas habitam a incerteza, convidando o leitor a participar da reconstrução do sentido; oferecem uma visão singular sobre a luta do poeta contra o esquecimento. É uma leitura que ressoa, como os raios de luz de seus versos, iluminando o que, mesmo fugaz, insiste em permanecer.











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