Exilio e memoria

Nossas memórias são as cicatrizes de nossas mudanças: com o passar do tempo, seremos sempre diferentes devido à diversidade de experiências a que estamos e estaremos sujeitos; nossa semelhança com o que éramos há pouco é maior do que em relação ao que seremos, pretendemos ou imaginamos vir a ser, no futuro.

Nossas mudanças, as lembranças, serão o prenúncio de nosso esquecimento: cada vez que nos lembramos de um evento, algo será omitido – porque nunca nos lembramos de tudo. Aquilo que é negligenciado decai lentamente, rumo ao limbo dos detalhes esquecidos. Lemos em “A Ignorância“, de Milan Kundera, que a nostalgia do exilado esvazia suas lembranças pois, bastando-se a si mesma (absorvida em seu próprio sofrimento), não intensifica a atividade da memória.

A resistência ao esquecimento é a linguagem. A poesia é um modo de usar a linguagem: segundo Bruno Tolentino, é uma forma de tornar algo perceptível, formulado no máximo de tensão possível com a linguagem. O poema é menos um modo de “expressar” o mundo do que um meio de “estar” no mundo (Paul Auster, em “A arte da fome e outros ensaios“). Se tudo for sentido como novo e nada for pressuposto; se o poeta, pela linguagem, lança um novo olhar ao que existe, então a poesia permite apoderar-se do real ao mesmo tempo em que assegura sua individualidade: o poeta percebe o mundo porque se vê apartado dele. No entanto, nossa atenção é limitada por nossa capacidade de processamento: selecionamos, dentre os inúmeros estímulos do ambiente, aquilo que será processado preferencialmente por nosso maquinário neural.   O poeta, portanto, encontra-se exilado, no limite de toda a experiência – impossibilitada a plenitude de toda vivência, de toda percepção. Ele luta como pode e suas ferramentas são as palavras – suas armas.

Essas reflexões foram suscitadas pela leitura do novo e belo livro de Annita Malufe Costa, “Quando não estou por perto“, Ed. 7Letras. Na epígrafe de Virginia Woolf (“Nada deveria ser nomeado, a não ser que, agindo assim, estejamos transformando alguma coisa”), Annita nos lembra que a função da linguagem poética é atribuir um significado a tudo o que existe, em oposição à banalidade cotidiana, à vulgaridade. A poetisa, porém, sabe que as palavras são insuficientes: como se fizesse uma releitura, com suas frases entrecortadas, os poemas não-lineares – com sua narrativa vertiginosa e circular-, tenta jogar luzes sobre o que é ou fora percebido. O que encontra, apesar disso, são regiões cinzentas, sombreadas, elípticas. Frases inteiras são retomadas de poemas anteriores como que numa tentativa de compreensão, de entendimento; as frases repetidas são imagens onipresentes: o sentido poderia ser alcançado pela leitura de instantâneos fragmentados, montados a cada momento, a cada poema de formas diferentes – criando novas imagens que, por sua vez, tentam iluminar idéias anteriores. O leitor sente-se um intruso, flagrando pensamentos partidos, incompletos: fotografias estilhaçadas contra as quais Annita se debate. A impossibilidade de apreensão leva à implosão de um único “eu-lírico” numa “torrente de vozes insólitas”, como assinala o crítico Donizete Galvão. E essas vozes, ao tentar reconstituir o significado (do presente? do real? de uma impressão?), remetem ao funcionamento da própria memória – capaz de recriar uma história ao embaralhar todas as lembranças e atribuir-lhes um novo sentido.

1)

“quanta coisa guardada penso os raios

tombam pela fresta manhã escura e estes

raios estes finos traçados de luz desenhos

repentinos quanta coisa guardada estes braços se

alongando não posso enxergar muito longe estico

a mão na cabeceira os óculos perdidos entre os livros

entre as palavras havia tanta coisa guardada nada

que não tombe de repente com estes raios

a luz traçada nas madeiras da persiana finos

traços paralelos as linhas de caderno desenhos sem

cor quanta coisa guardada penso sem enxergar

cavoucando a cabeça mas sem achar não posso

enxergar muito além quando a manhã escurece

haveria a lembrança de um dia opaco os óculos

perdidos entre os livros a lente embaçando sobre

a xícara de café gosto de olhar o teu rosto nestes

dias mais escuros vigiar o traçado que risca o teto

a luz cavoucando a lembrança de um dia

opaco em que você me diria para ficarmos juntos

mais um pouco tomarmos a estrada mais

tarde um pouco mais tarde as palavras quase

conseguindo alongar os minutos dizer tudo

mais devagar você me dizendo que estar ali

subitamente tinha um gosto de ficar para sempre

um segundo estancado no tempo os minutos

se alongando como uma nota que se prolonga até

morrer deixando uma bolha se silêncio em torno”

2)

“queria que as coisas fossem diferentes o sorriso

se contraindo atrás da porta do elevador diferentes

eu perguntei mas como seria isto outras

coisas nesta cidade sem saída isto outras

coisas nesta cidade sem saída isto seria

possível acho que não o subúrbio de uma cidade

desconhecida as cenas se alternando centro velho pássaros

velhos ao redor isto não seria viável a moça abaixa-se

para amarrar o tênis a chuva não para água nos joelhos

a mão pousada no copo sem se mexer os mesmos gestos

mesmos dedos apoiados na beirada duas e meia da

tarde eu tinha te dito tudo recolhido as roupas

do varal o sorriso preso atrás do elevador cenas alternadas

videoclipe colando flashes em preto e branco um varal de

roupas enfileiradas o vento embalando as roupas em

ritmo irregular as fotografias que ela fez na cidadezinha

italiana onde as janelas eram varais coloridos eu

mesma nunca estive lá mas quero poder voltar”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s