O Mito do Amor e a Busca pela Completude

Em O Banquete, de Platão, Aristófanes narra o mito dos andróginos, segundo o qual os seres humanos, originalmente esféricos e completos, foram divididos por Zeus como punição por sua arrogância. O amor, nesse contexto, é o anseio de cada metade por reencontrar sua parte perdida, alcançando a plenitude. Essa ideia ressoa em Os enamoramentos (2012), de Javier Marías (1951-2022), onde a narradora, María Dolz, almeja uma conexão que a torne “imprescindível” para outro. O romance explora a imaginação como força motriz do amor e da narrativa, capaz tanto de iluminar a realidade quanto de obscurecê-la, moldando nossa percepção do mundo e dos outros.

A Imaginação e o processo de cristalização

Marías apresenta o amor como uma construção imaginativa, ecoando o conceito de “cristalização” de Stendhal, descrito por John Armstrong em Conditions of Love. Nesse processo, a imagem do ser amado é transfigurada por camadas de idealização: a partir de um traço atraente, a imaginação projeta cenários de intimidade e reciprocidade, de modo que o outro é percebido como o modelo perfeito ao molde de nossas necessidades. María, uma editora de livros que observa um casal em uma cafeteria, exemplifica esse mecanismo. Ela projeta no casal uma harmonia idealizada, que contrasta com a monotonia de sua rotina: “O que mais me agradava neles era ver como se davam bem […] como se tivessem acabado de se conhecer” (p. 14). Quando o marido, Miguel Deverne, é assassinado, María se aproxima da viúva e de Javier, amigo do falecido, por quem se apaixona. Seu amor por Javier, porém, é permeado por idealizações que obscurecem a realidade, especialmente após a descoberta de um segredo relacionado à morte de Miguel.

A imaginação, nesse contexto, não apenas preenche lacunas, mas também distorce. Como María reflete: “Quando alguém está enamorado […] somos capazes de nos interessar por qualquer assunto que interesse […] quem amamos” (p. 148). Essa entrega imaginativa, embora fascinante, compromete a imparcialidade, levando a narradora a filtrar a realidade pelos olhos de Javier, mesmo diante de revelações perturbadoras.

O Amor como Substituição e Conformismo

Marías questiona a ideia de um amor predestinado, sugerindo que ele é, em grande parte, produto da casualidade e do conformismo. Em entrevista ao O Estado de São Paulo (22/11/2012), o autor afirma: “Elegemos os que temos à mão […] Dependemos de quem esteja disponível, para começar, e de quem se fixe em nós com bons olhos.” María reconhece essa dinâmica ao admitir que “todo mundo sempre é, inicialmente, uma substituta” (p. 203). Os amantes, nesse sentido, são “sobras” ou “saldos”, resgatados da contingência para formar “os maiores amores”. Essa visão desromantizada não diminui a intensidade do sentimento, mas destaca sua construção imaginativa: o amor nasce menos de uma essência mística e mais da habilidade de projetar significado no outro.

A Narrativa Especulativa e os Limites do Conhecimento

A prosa exuberante de Javier Marías reflete a natureza especulativa de suas narrativas. Em Os enamoramentos, a ação é secundária; o que predomina é a divagação de María sobre os eventos, os gestos e as intenções alheias. A narradora reconhece a fragilidade de sua percepção: “Tudo se transforma em relato e acaba pairando na mesma esfera, e mal se diferencia então o acontecido do inventado” (p. 287). Essa indistinção entre fato e ficção é agravada pelo enamoramento, que vicia sua interpretação dos eventos, especialmente após descobrir um segredo sobre a morte de Miguel.

A especulação, marca registrada da ficção de Marías, é uma tentativa de iluminar as “zonas sombreadas” da realidade, como ele descreve em As entrevistas da Paris Review (2011): “às vezes, acredito que foi Faulkner quem disse isso, acender um fósforo no meio da noite num descampado não permite ver nada mais claramente, apenas ver com clareza a toda a escuridão em volta. A literatura faz isso, mais do que qualquer coisa: não ilumina, permite enxergar o tamanho da escuridão que existe.” María especula incessantemente, revisitando frases e gestos em uma narrativa em espiral que ecoa e recontextualiza o passado. Contudo, essa abordagem revela um paradoxo: a imaginação, ao tentar abarcar todas as possibilidades, deixa outras tantas nas sombras, pois, como a narradora lamenta, “a gente nunca sabe se o que se nos dizem é verdade” (p. 312).

Conclusão: A Dupla Face da Imaginação

Os enamoramentos é uma meditação sobre a imaginação como força criadora e enganadora. Por meio da cristalização, ela constrói o amor; por meio da especulação, ela molda a narrativa. Contudo, ambas distorcem a realidade, oferecendo-nos uma visão parcial do mundo. Javier Marías não oferece respostas, mas convida o leitor a contemplar o que resta nas sombras: o que não foi dito, o que não foi vivido, o que nunca saberemos. Nesse sentido, o romance não apenas ilumina a complexidade do amor, mas também a fragilidade de nossa compreensão da realidade, um convite para enxergarmos, com clareza, a escuridão que nos cerca.

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