
Em The Dead (1987), último filme de John Huston, adaptado do conto “Os Mortos” de James Joyce, uma anedota singela prenuncia a epifania de Gabriel Conroy. Gabriel (Donal McCann) conta à esposa, Gretta (Anjelica Huston), sobre o cavalo Johnny, que, acostumado a girar em torno de um moinho, continuou a circular uma estátua na cidade, preso a uma rotina mecânica. Essa imagem reflete a vida de Gabriel, marcada por hábitos que o cegam para verdades mais profundas, até um momento de revelação abalar sua existência. Dirigido por Huston aos 81 anos, em estado de saúde frágil, o filme, lançado no ano de sua morte, é uma meditação sobre a efemeridade da vida, tão poderosa quanto o conto que o inspirou.
A narrativa se passa em Dublin, em 6 de janeiro de 1904, na noite de Reis, uma data que ressoa com a tradição católica da Epifania – a manifestação divina, como em Mateus 2, 9-10, quando a estrela guiou os reis magos até o local onde estava Jesus. Em Joyce, epifania é o instante em que o véu da rotina se rasga, revelando verdades ocultas. Gabriel e Gretta participam de uma ceia festiva na casa das tias de Gabriel, Kate e Julia, e da sobrinha, Mary Jane. A celebração, repleta de danças, comida e conversas triviais, exalta os vivos, mas é permeada pela memória dos mortos. Em seu discurso, Gabriel declara: “Nossa caminhada pela vida é marcada por essas lembranças tristes: e se nos permitíssemos ficar remoendo tais lembranças não teríamos a coragem de seguir em frente com destemor na nossa luta em meio aos vivos.” Essa visão, inicialmente otimista, será subvertida.
A epifania de Gabriel é desencadeada pela canção tradicional irlandesa “The Lass of Aughrim”, cantada ao longe. Gretta, no topo da escada, ouve-a em transe: “Havia em sua atitude graça e mistério como se ela fosse símbolo de algo.” A canção, sobre uma mulher abandonada por Lorde Gregory, evoca em Gretta a memória de Michael Furey, um jovem que morreu aos 17 anos, apaixonado por ela. Ela revela a Gabriel: “Acho que morreu por mim.” A chuva batendo na janela, como as pedras que Michael jogou para chamar Gretta, conecta passado e presente, vivos e mortos.

Essa revelação explicita as ilusões de Gabriel. Ele percebe que nunca teve o amor pleno de Gretta, que desconhecia um capítulo crucial de seu passado e que sua vida, como a do cavalo Johnny, foi uma rotina vazia. A epifania o confronta com a efemeridade: “Um por um estavam todos se transformando em espectros. Seria preferível passar para o outro mundo de maneira corajosa, na glória de uma paixão, que murchar e secar lentamente na velhice.” Ele vê a si mesmo e aos outros – como a tia Julia, cuja voz enfraquecida cantou “Arrayed for the Bridal” – deslizando para a morte.
Huston traduz essa introspecção com maestria. A fotografia, de tons quentes na ceia e frios na cena final, reflete a transição da convivialidade à melancolia. A trilha sonora, com “The Lass of Aughrim”, amplifica a carga emocional. Um elemento exclusivo do filme, a recitação do poema irlandês “Donal Og” por Mr. Grace, reforça o tema da ausência amorosa:
“Era tarde a noite passada, o cão falava de você.
Das profundezas do pântano o pássaro falava de você.
Você é o pássaro solitário na floresta.
Que você fique sem companhia até achar-me.
Você me prometeu e mentiu para mim.
Disse que estaria junto a mim
Quando os carneiros fossem arrebanhados.
Eu assoviei e gritei cem vezes
E não achei nada lá, a não ser uma ovelha balindo.
Você prometeu-me algo difícil:
Um navio de ouro sob um mastro prateado,
Doze cidades e um mercado em todas elas
E uma bela branca praça à beira mar,
Você prometeu-me o que não era possível:
Que me daria luvas de pele de peixe
E sapatos de pele de ave.
E roupa da melhor seda da Irlanda.
Quando caminho sozinha ao poço da solidão
Aninho-me junto ao meu sofrimento;
Vejo o mundo e nele não está meu amado
Com seu cabelo de tom acastanhado.
Minha mãe disse para eu não falar com você.
Nem hoje, nem amanhã nem Domingo.
Foi um mau momento para dizer-me isso.
Foi como trancar a porta depois da casa saqueada.
Você tirou o Leste de mim, tirou o Oeste de mim,
Tirou o que existe à minha frente, tirou o que há atrás,
Tirou a lua, tirou o sol de mim,
E o meu maior receio é que tenha tirado Deus de mim.”
Situado na Irlanda sob domínio britânico, o filme ecoa a tensão cultural do conto, onde a memória coletiva molda identidades.
A cena final, com Gabriel contemplando a neve caindo é uma das mais belas do cinema, capturando a coexistência de vivos e mortos.
“O ar dentro do quarto gelou seus ombros. Ele esticou-se cuidadosamente embaixo dos lençóis e ficou deitado ao lado da esposa. Um por um estavam todos se transformando em espectros. Seria preferível passar para o outro mundo de maneira corajosa, na glória de uma paixão, que murchar e secar lentamente na velhice. Ele pensou no fato de que aquela que estava deitada ao seu lado ocultara no coração durante tantos anos aquela imagem dos olhos do amado, dizendo a ela que não queria viver. Lágrimas abundantes encheram-lhe os olhos. Ele próprio jamais tivera esse tipo de sentimento em relação a uma mulher mas sabia que aquilo era amor. Mais lágrimas vieram-lhe aos olhos e na penumbra ele imaginou ver a figura de um rapaz parado embaixo de uma árvore pingando. Havia outras figuras em volta. A alma dele se acercara da região habitada pela vasta legião dos mortos. Ele pressentia a existência errática e perambulante dos mortos, embora fosse incapaz de apreendê-la. Sua própria identidade desaparecia num mundo cinzento e incorpóreo: o mundo sólido, antes construído e habitado por esses mortos, dissolvia-se e se esvaía.”











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