Terrence Malick e a transcendência

O amor acaba porque estava condenado desde o princípio.

Em uma de suas pregações, padre Quintana (vivido por Javier Barden) diz:

Você deve amar. Alguém pode responder: como, se as emoções vêm e vão, como nuvens? Ao que Cristo responde: você deve amar. O amor é um dever”.

Perdido em sua crise, padre Quintana é incapaz de enxergar na própria pregação a resposta aos seus questionamentos. Padre Quintana (Javier Bardem) não encontra mais sentido naquilo que prega. Diante da dor e do sofrimento, ele só encontra o silêncio de Deus, o que o leva a questionar não Sua existência, mas Sua natureza:

Você está presente em todo lugar e mesmo assim não consigo vê-Lo; está dentro de mim e ao meu redor, mas não sou capaz de vivê-Lo, como antigamente. Meu coração está frio, endurecido. Permita-me chegar até Você, não quero mais fingir o que não tenho.”

Para Santo Agostinho, a fé que se justifica é a que se torna ativa por meio do amor: o caminho até Deus é um movimento de amor, que não busca causa ou fruto. Mesmo sem conhecer totalmente Sua natureza, a aceitação do mistério reclama a graça, sem a qual a natureza humana, imperfeita, tende ao pecado. A fé, como prova de amor, é um mergulho no mistério, mesmo que isso implique em sofrimento.

Kierkegaard, em “As obras do amor”, menciona Lucas (6,44 – porquanto cada árvore é conhecida pelo seu próprio fruto. Porque não se colhem figos de espinheiros, nem dos abrolhos se vindimam uvas.”) e Mateus (7,20 – Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis) para se referir ao amor: também ele é dado a reconhecer-se pelos frutos que o revelam; e, por conseguinte, o amor habita o oculto; não nos é dado conhecer sua fonte, sua origem, o local de onde provém:

(…) tal como os raios de sol convidam o homem a contemplar, com seu auxílio, a magnificência do mundo, mas advertindo castigam o temerário com a cegueira quando este se volta indiscretamente e atrevido para descobrir a origem da luz; tal como a fé, acenando, se oferece ao homem como companheira de viagem no caminho da vida, mas petrifica o atrevido que se volta para compreender abusadamente; assim também é o desejo e o pedido do amor que a sua origem escondida e a sua vida oculta no mais íntimo permaneçam um segredo (…) assim também é o sofrimento mais doloroso e também o mais prejudicial quando alguém em vez de se alegrar com o amor em suas manifestações quer alegrar-se em esquadrinhar o amor (…)”.

Tu deves amar. Só quando amar é um dever, só então o amor está eternamente assegurado contra qualquer mudança; eternamente libertado em bem-aventurada independência; protegido eterna e felizmente contra o desespero.

Ecoando as palavras de padre Vieira, Kierkegaard exorta à imitação de Cristo, “aquele que amou sem por quê ou para quê”. Inebriado pelo presente eterno que promete, o amor basta-se a si mesmo, conduzindo os amantes a jurarem por seu amor suas intenções de se amarem um ao outro eternamente, em vez de, pela eternidade, se jurarem amor recíproco:

é o próprio amor que projeta o brilho sobre aquilo que ele jura, de modo que não apenas ele não jura por algo de mais elevado, mas a rigor ele jura por algo que é menos elevado do que ele mesmo. Tal é a indescritível riqueza deste amor em seu amável mal entendido; pois justamente porque ele é para si mesmo uma riqueza infinita, ilimitadamente digno de confiança, é que, quando ele quer jurar, vem a jurar sobre algo menor, mas não percebe que assim o faz (…) A eternidade é o mais elevado; se devemos jurar, então temos de jurar pelo mais elevado, mas se devemos jurar pela eternidade, então juramos pelo dever “de dever amar”.

Transformar o amor em dever é estratégia, em oposição às oscilações das contingências, em favor da sua permanência. Aquilo que não está fundado sobre o eterno está sujeito a alterar-se em si mesmo ou deixar de ser ele mesmo – a transformar-se em outra coisa ou a esgotar-se. Inseguro de si, o amor espontâneo quer ser posto à prova constantemente e torna-se escravo, para se manter ou perecer, da contingência do seu objeto.

Tornado dever, o amor liberta-se. Tornado dever, o amor deixa de buscar causa ou fruto. Não é o amor pleno: é o amor que, como o cinema de Terrence Malick,  busca a transcendência para eternizar-se.

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