A tirania do pensamento positivo

É tradição antiga atribuir caráter punitivo à doença. Susan Sontag tem um bom livro a respeito, “Doença como metáfora/AIDS e suas metáforas” (editora Companhia das letras, 2007). A  dra. Jimmie Holland, chefe de Psiquiatria do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center de Nova York, autora do primeiro livro-texto de psico-oncologia publicado, acompanha pacientes com câncer há mais de 30 anos. Em seu livro – não publicado no Brasil – “The human side of cancer” (editora Harper Collins, 2000, 344 páginas), há um capítulo muito interessante denominado “A tirania do pensamento positivo”. Entre vários casos, relata o de uma paciente com câncer de mama que não apresentava evidências de doença em atividade após completar todo seu tratamento mas que, apesar disso, estava aflita:

“Havia recebido de sua irmã um livro sobre como sobreviver ao câncer e que dizia ser crítico manter uma atitude positiva”.

Para a dra. Holland, não se tratava de um caso isolado:

“Jane estava apenas ecoando um refrão que ouço de pessoas com câncer: a ideia de que sentir-se triste, assustado, bravo ou irritado é inaceitável e que as emoções podem promover o crescimento do tumor. E a ideia de que se a pessoa não está no controle de suas emoções o tempo todo, a batalha contra a doença será perdida. (…) Para a maioria dos pacientes, o câncer é a experiência mais difícil e assustadora com a qual tiveram de lidar. Toda essa campanha publicitária de que se você não mantiver uma atitude positiva seu câncer recrudescerá anula as reações naturais e compreensíveis que todos temos quando enfrentamos ameaças às nossas vidas – e é isso o que chamo de tirania do pensamento positivo.”

Além do aspecto punitivo, o câncer está associado a todo um vocabulário bélico ou estratégico, cujo efeito é uma peça de publicidade que torna o modo de lidar com uma doença terrível e impessoal algo personalizado: devemos “lutar” contra o câncer, instituição X na “batalha” contra o câncer, a terapia Y é nossa “arma” contra o câncer. Se há uma “batalha” em andamento, está implícita a ideia de que haverá um vencedor e um perdedor; havendo um perdedor, quem é o culpado pela derrota?

Doenças não deveriam ser consideradas em termos de vitória ou derrota porque o corolário disso tudo é a fermentação de uma cultura de “culpabilização”, perversa e inclemente; passamos a responsabilizar o doente ou por “ter tido” câncer ou por ter sucumbido a ele. Por não ter sido positivo ou não ter sido bom e justo ou não ter realmente se empenhado no tratamento o suficiente. A tirania do pensamento positivo não se refere a negar qualquer tipo de apoio psicológico – que é fundamental – ao doente com câncer. Refere-se a como consideramos a perspectiva do doente, sua visão de mundo, seu modo de “encarar a vida” como ferramentas essenciais na reversão da doença, atropelando peculiaridades que lhes são próprias e que dizem respeito somente a ele. Entregamos-lhe, portanto, um fardo adicional sob o pretexto de o auxiliarmos no enfrentamento do problema. E ignoramos o fato de que, ao atribuirmos culpa à “vítima” (seja ela qual for: de um assalto, de um acidente, de uma doença), estamos revelando mais de nós mesmos – refiro-me ao “nós” aqui como natureza humana: estamos revelando, como Narcisos, a vaidade racionalista da modernidade de que somos vítimas:

Quando sabemos pouco sobre algo, tornamo-nos mais assustados e passamos a criar mitos que tentam explicá-lo e adaptá-lo a uma perspectiva mais tolerável (…); (…) culpar a vítima permite-nos dizer: isso não poderia ter acontecido comigo. Culpando a vítima, obtemos uma falsa noção de segurança de que podemos evitar eventos dos quais não temos nenhum controle.”

O primeiro passo no manejo da doença é, nas palavras de Susan Sontag, desmistificá-la, retirar muitos dos conceitos associados a ela; e, acima de tudo, respeitar o modo particular de cada paciente de lidar com todos os seus problemas, baseado em seu temperamento e sistema de crenças, no lugar de impor slogans que, de tão genéricos, não podem ser individualizados.

 

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