31 canções

Em “A música no seu cérebro – a ciência de uma obsessão humana“, Daniel Levitin escreveu:

“Para o artista, o objetivo da pintura ou da composição musical não é transmitir uma verdade literal, mas certo aspecto de uma verdade universal que possa seguir comovendo as pessoas mesmo que o contexto, a sociedade ou a cultura não sejam os mesmos. (…) Em certa medida, nos rendemos à música ao ouvi-la: decidimos confiar nos compositores e músicos, deixamos que a música nos leve a algum lugar fora de nós mesmos. Muitos sentimos que a boa música nos liga a algo maior que nossa existência, a outras pessoas, a Deus. Mesmo quando não nos transporta a algum lugar de transcendência emocional, ela pode alterar nosso estado de espírito. É compreensível, assim, que relutemos em baixar a guarda, em desarmar nossas defesas emocionais para qualquer um. (…) Esse sentimento de vulnerabilidade e entrega parece mais intenso do que nunca no rock e na música popular dos últimos quarenta anos. Permitimos que (músicos) entrem em nossas salas e quartos quando não há mais ninguém por perto. Eles entram por nossos ouvidos quando não estamos nos comunicando com mais ninguém neste mundo. A força da arte consiste nessa capacidade de nos conectar às pessoas e a verdades maiores no que diz respeito à vida e ao seu significado.”

Sob experiências emocionais suscitadas pela música, somos transportados em direção a outro lugar, para outras épocas, para outras circunstâncias. Amplificamos, de algum modo, nosso conhecimento acerca de aspectos ocultos, esquecidos, ignorados, subestimados ou sequer imaginados de nossa própria existência, deitados no sofá.

 

Em “31 canções“, Nick Hornby escreveu:

“O que eu escuto são canções. Quando as pessoas me perguntam de que música eu gosto, acho muito difícil responder, porque elas geralmente querem nomes de pessoas e posso dar-lhes apenas nomes de canções. E tudo o que eu tenho a dizer sobre essas canções é basicamente que eu as adoro, que quero cantar junto e forçar as outras pessoas a escutá-las e que fico contrariado quando essas pessoas não gostam delas tanto quanto eu. (…) Mas qual o tema apropriado para uma canção? Canções diferem de livros de muitas maneiras, mas tanto compositores quanto romancistas estão em busca de material que de algum modo signifique algo além da coisa em si, algo que contenha ressonâncias, ironias, textura e complexidade. algo que seja tanto temporal quanto atemporal (…). No fim das contas são as canções de amor as que duram mais.Canções sobre trabalho são boas. Canções sobre rios, pais ou estradas também. Boas canções sobre filhos são surpreendentemente raras; canções sobre animais de estimação é melhor evitar. Quantas vezes você deseja ouvir uma canção satirizando a intolerância ou a parcialidade da política do Congresso americano? (…) As canções realmente maravilhosas, aquelas que o tempo e as rádios que só tocam músicas antigas não conseguem destruir, são sobre sentimentos românticos. E não é porque os compositores tenham algo a acrescentar sobre o assunto; é simplesmente porque o romance, com seus altos e baixos, reviravoltas e tropeços, síncopes, chiliques e achaques, é uma metáfora natural para a música em si. Canções sobre coisas complicadas apenas chamam a atenção para a artificialidade inerente ao meio: por que esse cara está cantando? por que não escreve um artigo no jornal? E, afinal de contas, como pode um solo de mandolim ilustrar ou elucidar as agruras dos esquimós? Mas, como se convencionou escrever sobre as questões do coração, a linguagem parece perder o caráter de inadequação, torna-se transparente e você consegue ver a música nas palavras. Em outras palavras, letras de amor são como instrumento musical e canções de amor tornam-se de algum modo pura canção. Talvez seja isso que dê a vantagem a “You had time” [canção de Ani DiFranco, que entraria facilmente na minha lista]: nossas separações, no fim das contas, tem mais melodia do que nosso trabalho.”

 

 

Encontramos, porém, a síntese de ambos os trechos mencionados acima, a respeito da música, numa belíssima passagem de “No caminho de Swann“, o primeiro volume de “Em busca do tempo perdido“, de Marcel Proust – no momento em que Swann ouve novamente uma sonata, de Vinteuil (compositor inventado), sonata que ficara associada ao seu amor por Odette:

“E antes que Swann tivesse tempo de compreender e dizer consigo “É a pequena frase da sonata de Vinteuil, não escutemos!”, todas as lembranças do tempo em que Odette estava enamorada dele e que até aquele dia conseguira manter invisível nas profundezas de seu ser, iludidas por aquela brusca revelação do tempo de amor que lhes parecia ter voltado, despertaram e subiram em revoada para lhe cantar perdidamente, sem piedade para com o seu atual infortúnio, os refrãos esquecidos da felicidade. Em vez das expressões abstratas “tempo em que eu era feliz”, “tempo em que eu era amado” que tantas vezes pronunciara até então e sem muito sofrer, pois sua inteligência só encerrara ali algumas pretensas amostras do passado que nada conservavam do mesmo, Swann reencontrou tudo o que havia fixado para sempre a específica e volátil essência daquela felicidade perdida. (…) E pela primeira vez o pensamento de Swann se transportou, num impulso de piedade e ternura, para aquele Vinteuil, para aquele irmão desconhecido e sublime que tanto deveria ter sofrido também; qual teria sido a sua vida? Ao fundo de que dores fora ele buscar aquela força de deus, aquele poder ilimitado de criar? Quando era a pequena frase que lhe falava da vaidade de seus sofrimentos, Swann achava até certa doçura naquela mesma indiscrição que no entanto momentos antes lhe parecera intolerável quando julgava lê-la no rosto dos indiferentes que consideravam o seu amor como uma divagação sem importância. É que a pequena frase, pelo contrário, qualquer que fosse o seu juízo sobre a brevidade desses estados d’alma, via nisso alguma coisa, não como o fazia toda aquela gente, de menos sério que a vida fosse positiva, mas, antes, de tão superior a ela, que só isso valia a pena ser expresso. Todos os encantos de uma tristeza íntima, era a eles que ela tentava imitar e recriar, e até a sua própria essência, que consiste em serem incomunicáveis e parecerem frívolos a qualquer outra pessoa que não seja a que os experimente, a pequena frase a havia captado e tornado visível. De tal sorte que fazia confessar seu valor e gozar sua divina doçura àqueles mesmos ouvintes – desde que tivessem um mínimo de pendor musical – que em seguida os desconheceriam na vida, em cada amor particular que vissem nascer perto de si. (…) Assim, a frase de Vinteuil, como determinado tema de “Tristão”, por exemplo, que nos representa também certa aquisição sentimental, havia esposado nossa condição mortal e adquirido algo de humano que era assaz comovedor. Sua sorte estava ligada ao futuro e à realidade da nossa alma, de que ela era um dos ornamentos mais particulares, mais diferenciados. Talvez o nada é que seja a verdade e todo o nosso sonho não exista, mas sentimos que então essas frases musicais, essas noções que existem em função do sonho, não hão de ser nada, tampouco. Pereceremos, mas temos como reféns essas divinas cativas que seguirão a nossa sorte. E a morte com elas tem alguma coisa de menos amargo, de menos inglório, de menos provável, talvez.”

Música: tentativa de recriar e expressar um afeto que por si só é incomunicável em nossas experiências cotidianas.

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