Do abandono à redenção

Numa época em que fetichizamos a individualidade (“seja você mesmo, seja único”), ao incentivar e louvar, eivados de sabedoria, sua expressão como um modo de ser superior neste mundo, do qual devemos, por sinal, nos separar por meio de nossas particularidades, acabamos por nos esquecer dos laços que nos unem a todos os outros e à realidade que nos supera. É o que “Até o fim”, filme de J.C. Chandor, vem nos relembrar: dos vínculos necessários à nossa sobrevivência.

A história começa com uma narração em “off”, na qual ouvimos a voz do protagonista, e percebemos palavras que expressam arrependimento:

“Sinto muito; sei que significa pouco a esta altura. Mas eu sinto. Eu tentei. Acho que todos vocês devem concordar que eu tentei, ser verdadeiro, ser forte. Ser generoso. Amar. Ser correto. Mas eu não fui. E sei que vocês sabem disso, à sua maneira. E eu sinto muito. Tudo está perdido aqui. Com exceção da alma e do corpo, que é tudo o que sobrou. E meio dia de provisão. É realmente imperdoável, agora eu sei. Não podia levar tanto tempo para admitir que não tenho certeza, mas levou. Lutei até o fim. Não sei ao certo se isso vale a pena, mas sei que fiz. Sempre esperei mais para todos vocês. Vou sentir a falta de vocês. Sinto muito.”

Depois disso, vemos o personagem de Robert Redford em algum lugar no meio do oceano, sozinho, e os destroços de sua embarcação. Quem é esse homem? Quem foi esse homem? Do que se arrepende? Para quem são essas palavras, filhos, mulher, ex-mulher, amigos? Pouco importa, o que importa é que nos recordemos das palavras do apóstolo:

“Alegro-me agora, não por vos ter contristado, mas porque a vossa tristeza vos levou ao arrependimento. A tristeza segundo Deus produz arrependimento que leva à salvação e não volta atrás”.

 A tristeza segundo Deus: o pesar pelo mal sobre os outros, o arrependimento verdadeiro e, sobretudo, tranquilo.

Dois elementos simbólicos perpassam por toda a narrativa e explicam a travessia do personagem, do abandono à possibilidade de redenção: o mar e o anel.

  1. O mar

Muitos críticos cinematográficos viram semelhanças neste filme com o mais medíocre romance de Ernest Hemingway, “O velho e o mar”. Não poderia haver equívoco maior: neste, há o elogio do “espírito” humano, que não desiste, na imagem da persistência do velho pescador Santiago, que trava luta duríssima com um peixe excepcional; naquele, há o naufrágio do indivíduo isolado da civilização, relegado a si mesmo, abandonado do mundo – um mundo onde Deus não está presente. Se há semelhanças, elas estão limitadas a este trecho do livro:

“Alguns dos pescadores mais novos, aqueles que usam boias como flutuadores para as suas linhas e tem barcos a motor, comprados quando os fígados dos tubarões valiam muito dinheiro, ao falarem do mar dizem el mar, que é masculino. Falam do mar como de um adversário, de um lugar ou mesmo de um inimigo. Entretanto, o velho pescador pensava sempre no mar no feminino e como se fosse uma coisa que concedesse ou negasse grandes favores; mas se o mar praticasse selvagerias ou crueldades era só porque não podia evitá-lo”.

Hemingway aponta a ambiguidade do mar, descrita por Jean Chevalier e Alain Gheerbrant no “Dicionário de símbolos”; ambiguidade simbólica que servirá de palco para o renascimento do personagem de Redford:

Tudo sai do mar e tudo retorna a ele: lugar dos nascimentos, das transformações e dos renascimentos. (…) O mar simboliza uma situação de ambivalência que é a de incerteza, de dúvida, de indecisão”.

Segundo Aereld de Riévaulx, monge cisterciense (1110 – 1167),

“o mar se situa entre Deus e nós; designa o século presente. Uns se afogam, outros o franqueiam. Para atravessar o mar, é necessário um navio”.

 E que navio é esse? No filme de J.C.Chandor, a percepção de que habitamos um mundo que aponta para algo além de nosso próprio umbigo.

No mar, nada permanece – não há passado, não há futuro – exceto a constância de seu fluxo que se move, indefinidamente (é o tempo presente). Como um nômade dos tempos modernos, essa é a razão pela qual o personagem de Redford refugiou-se nele: é sua tentativa de anular o tempo, de alcançar um presente perpétuo, dispersar passado (apagando, por consequência, supostos erros cometidos) e futuro (evitando, assim, qualquer possibilidade de arrependimento). Não há outra coisa a fazer senão ocupar-se em sobreviver, ocupar-se do imediato, do aqui e do agora, permanecendo, portanto, na eternidade de um instante. Ao buscar o isolamento, recusa a civilização da qual faz parte, e o personagem naufraga. Kenneth Clark, no seu magistral “Civilização”, assim a descreve:

“Civilização é algo mais do que energia, vontade e poder criativo; algo que os normandos não possuíam, mas que, mesmo na sua época, estava reaparecendo na Europa Ocidental. Como defini-la? Em poucas palavras: um sentido de permanência. Os nômades e invasores viviam num fluxo contínuo. Não sentiam necessidade de ver além do próximo fim de inverno, ou da próxima viagem ou da próxima batalha. Por isso não construíram casas de pedra nem escreveram livros. Dos livros de pedra construídos nos séculos posteriores ao Mausoléu de Teodorico, um dos únicos a sobreviver foi o Batistério de Poitiers. É muito primitivo. Os construtores tentaram usar elementos de arquitetura romana, capitéis, frontões, pilares, mas esqueceram suas intenções primeiras. Mas, pelo menos, esta construção precária se conservou. Não é apenas uma tenda. Acho que o homem civilizado precisa sentir que ele tem uma lugar no tempo e no espaço e que tem um futuro e um passado.”

  1. O anel

Outro elemento significativo é a imagem do anel: os anéis usados pelo personagem, o formato do bote salva-vidas, o anel de fogo no mar e a lua vista debaixo d’água. Prefigurando a restauração dos elos rompidos entre o homem e uma realidade que o transcende, simbolicamente “o anel aparece como o signo de uma aliança, de um voto, de uma comunidade, de um destino associado. (…) Em numerosos contos, romances, dramas, canções e lendas irlandesas o anel serve como meio de reconhecimento: símbolo de uma força ou de um laço que nada pode romper, mesmo que o anel se perca ou seja esquecido à beira de um caminho”.  (Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, “Dicionário de símbolos”).

Heródoto (480 – 425 a.C.) nos narra a história do rei grego Polícrates e seu anel (os fragmentos a seguir foram retirados de “O anel de Polícrates e outras histórias”, organização de Francisco Achcar e Rogério Hafez, 2000).

Conta-nos Heródoto que Polícrates, “aonde quer que se dirigisse para guerrear, era em tudo bem sucedido”; seus êxitos não passaram despercebidos a Amásis, rei do Egito, que lhe escreveu uma carta, na qual dizia: “Eu, de certo modo, desejo que eu mesmo e todos aqueles por quem me preocupo tenhamos boa fortuna em alguns de nossos atos e, em outros, o fracasso, de modo que contrabalancemos nossa vida com a alternância das vicissitudes, o que é preferível a ser bem sucedido em tudo. (…) Reflete e encontra aquilo que te é mais precioso, aquilo cuja perda mais afligiria a tua alma; então, joga-o fora de modo que ele nunca mais reapareça entre os homens”.

Polícrates escolheu seu anel. Embarcou em um navio rumo ao alto mar e, “quando se viu distante de sua ilha, tirou o anel de seu dedo e, à vista de todos os tripulantes, atirou-o ao mar. Tendo feito isso, mandou que navegassem de volta e, chegando em casa, sentiu-se muito desafortunado.”

Cinco ou seis dias após, eis o que ocorre: “um homem do mar, tendo pescado um peixe grande e belo, julgou-o digno de ser ofertado, como um presente, ao soberano. (…) E o pescador, sentindo-se muito honrado com o convite, foi para casa, enquanto os serventes do rei, talhando o peixe, encontravam no ventre dele o mesmo anel de Polícrates. Tão logo o viram e apanharam, levaram-no cheios de alegria a Polícrates e, entregando-lhe o anel, disseram-lhe de que modo ele havia sido encontrado.”

Para Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, “o anel de Polícrates simboliza o destino, do qual o homem não consegue se livrar, um elo indissolúvel. Polícrates quis dar o seu anel como oferenda compensatória, mas os deuses aceitam somente aquilo que eles mesmos já decidiram tomar; portanto, não seria um ato de abandono material e espetacular que os faria mudar seus desígnios. Só conta o sacrifício interior, que é a aceitação do destino”.

O que o filme mostra não é a luta pela sobrevivência e a conservação da dignidade do homem diante de uma Natureza perversa e indiferente. Entregue a si mesmo, o personagem sofre, de fato, com as mudanças climáticas, as restrições de provisões e de espaço a que se vê reduzido em determinado momento. Porém, as adversidades apenas ressaltam a percepção de abandono do personagem e o que é preciso para escapar de sua condição: o sacrifício interior a ser realizado por um homem que, enfim, reconhece seus erros e admite que, para sobreviver, necessita restabelecer sua alteridade.

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