TEXTO COM SPOILERS

“Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos me ouviria? […] Todo Anjo é terrível. E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo do meu soluço obscuro.”
Primeira Elegia, “Elegias de Duíno” (1923), Rainer Maria Rilke

A primeira temporada de True Detective (2014), escrita por Nic Pizzolatto e dirigida por Cary Fukunaga, é uma narrativa densa que entrelaça dois planos temporais: em 1995, na Louisiana, os detetives Rust Cole (Matthew McConaughey) e Marty Hart (Woody Harrelson) investigam um assassinato com traços de ritual satânico, ligado a um suposto serial killer, o Rei de Amarelo, habitante de Carcosa. Em 2012, já afastados, narram a investigação a outros detetives, que suspeitam de crimes recentes com métodos similares. A série destaca-se pela unidade criativa – todos os episódios foram escritos por Pizzolatto e dirigidos por Fukunaga – e por sua ambição literária, ancorada em referências a Ambrose Bierce, Robert Chambers e Thomas Ligotti, além de reflexões filosóficas sobre tempo, mal e transcendência.

1. Carcosa e o Abismo

Ambrose Bierce, em Um Habitante de Carcosa (1891), descreve uma cidade em ruínas, envolta em silêncio sepulcral:


“Um dossel de nuvens baixas cor de chumbo pairava como uma maldição visível sobre toda a paisagem sinistra. […] Não havia pássaros, feras ou insetos. O vento assobiava nos galhos desfolhados das árvores mortas.”

Pizzolatto transforma a Louisiana em uma Carcosa contemporânea: pântanos, fábricas isoladas e comunidades marcadas por segredos evocam um Éden corrompido. Um caso real de 2005, em Tangipahoa, onde membros da Igreja Hosana foram presos por abusos rituais, inspira o cenário da série, reforçando a ideia de que o mal permeia o cotidiano. A investigação de Cole e Hart é uma descida ao abismo, onde o inominável – o mal encarnado – ameaça consumi-los. A Louisiana de Pizzolatto não é apenas um pano de fundo, mas um símbolo da inocência devastada pelo pecado.

2. O Rei de Amarelo

Robert Chambers, em O Rei de Amarelo (1895), criou uma peça fictícia que enlouquece quem lê seu segundo ato. Em O Símbolo Amarelo, um personagem lamenta:


“Bastou um olhar para perceber que ela havia sido punida por sua insensatez. O Rei de Amarelo estava caído a seus pés, mas o livro estava aberto na segunda parte.”

Na série, o Rei de Amarelo é uma figura mítica, associada ao assassino Errol Childress, cuja violência ritualística ecoa a loucura dos contos de Chambers. O amarelo, símbolo de decadência na literatura do século XIX, permeia a série como metáfora do mal que corrompe. Pizzolatto usa essas referências para estruturar narrativas múltiplas: as histórias que Cole e Hart contam em 2012 sobre 1995, suas visões de mundo opostas e as narrativas que constroem sobre si mesmos. Como a peça de Chambers, a investigação de 1995 os marca irrevogavelmente, transformando-os em prisioneiros de sua própria obsessão.

3. O Pessimismo Cósmico de Thomas Ligotti

A cosmovisão de Rust Cohle é profundamente influenciada por Thomas Ligotti, escritor de horror e autor do ensaio filosófico The Conspiracy Against the Human Race (2010). Ligotti defende que a consciência humana é uma aberração, a vida é desprovida de sentido e a existência seria melhor evitada – ideias que ecoam nos monólogos niilistas de Cohle. Em uma cena marcante, ele declara:


“Penso na arrogância que deve ser necessária para arrancar uma alma do não-existente para essa carne… Forçar uma vida nesse triturador.”

Essa fala reflete diretamente Ligotti, que escreve: “Por que as gerações futuras deveriam ser poupadas de entrar no triturador humano?” Cohle também descreve a consciência como “um erro trágico na evolução”, uma paráfrase de Ligotti, que chama os humanos de “criaturas que não deveriam existir pelas leis naturais.” A metáfora da marionete, central em Ligotti, aparece quando Cohle diz:“Tudo isso é um sonho. Um sonho que você teve dentro de uma sala trancada. O sonho de ser uma pessoa.” Essa visão de um “eu” ilusório reforça o pessimismo cósmico que define Cohle, mas Pizzolatto adiciona complexidade: Cohle é um niilista que sente demais, um “palhaço marionete” cuja sensibilidade o impede de abraçar plenamente o vazio. A influência de Ligotti, embora controversa por acusações de plágio, é inegável, moldando a série como um diálogo com o horror existencial.

4. Tempo: Cíclico versus Linear

A filosofia de Ligotti intensifica a visão cíclica do tempo de Cohle, expressa em sua frase: “Time is a flat circle.” Para ele, a existência é um eterno retorno, desprovido de sentido, como descrito por Nietzsche em A Gaia Ciência:


“Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes.”

Essa cosmovisão pessimista reflete sua luta contra o mal, que parece eterno e inescapável, um loop sem sentido. Já Hart, mais pragmático, representa a negação da verdade—até que o passado o alcance. A série contrasta essa visão cíclica com a linearidade cristã, onde eventos têm peso moral. A série justapõe essas perspectivas por meio da dinâmica entre Cohle e Hart, com Cohle personificando o desespero cíclico e Hart inclinando-se para uma progressão linear marcada pela responsabilidade moral.

4.1. Contraste com a Linearidade Cristã: O Peso Moral dos Eventos

A visão cíclica, enraizada no niilismo de Cohle, nega peso moral às ações, sugerindo que todos os eventos se repetem sem sentido. A afirmação de Cohle de que “nada importa, é tudo o mesmo sonho” reflete essa indiferença. Por outro lado, a perspectiva linear cristã, sutilmente entrelaçada na narrativa, postula que cada ato carrega um significado eterno. Esse contraste se manifesta de várias maneiras:

Eventos e Consequências Únicos: A investigação de 1995 e o confronto com Errol Childress são eventos singulares com impactos duradouros. A escolha de Cohle e Hart de buscar justiça, apesar dos custos pessoais, imbui suas ações de propósito, desafiando a noção cíclica de que nada perdura. A reconciliação de Hart com sua família em 2012 ressalta isso, à medida que suas falhas morais e esforços subsequentes de redenção moldam um futuro distinto.

Responsabilidade Moral: O arco de Hart incorpora a visão linear cristã, onde as ações geram consequências. Sua negação inicial de sua infidelidade e negligência dá lugar à autoconsciência, culminando em sua emocionante cena no hospital com Cohle, um momento de graça que sugere crescimento moral. Cohle também começa a abraçar essa perspectiva após sua experiência de quase morte, na qual se sente “parte de tudo o que sempre amei” (Episódio 8), sugerindo um despertar moral vinculado a valores eternos.

Estrutura Narrativa e Simbolismo: A alternância entre 1995 e 2012 reforça o tempo linear, à medida que as reflexões dos protagonistas em 2012 atribuem significado a eventos passados, uma marca registrada da historicidade cristã. A metáfora central da série – “luz versus escuridão” – alinha-se com a visão linear, onde as escolhas morais inclinam a balança para a luz. O reconhecimento final de Cohle de que “a luz está vencendo” (Episódio 8) sinaliza uma mudança do desespero cíclico para uma progressão esperançosa, evocando a crença cristã no triunfo do bem.

Essa interação destaca a exploração da série sobre se a vida é um ciclo sem sentido ou uma jornada em direção à significância moral, com a perspectiva linear, em última análise, oferecendo um contraponto ao niilismo inicial de Cohle.

5. Transcendência e Graça

Após o confronto com Childress, Cole experimenta uma abertura para a transcendência:


“Teve um momento, eu sei, quando eu tava lá embaixo, no escuro, […] pude sentir minha definição se esvaindo. […] Senti minha filha esperava por mim, lá. […] Era como se eu fosse parte de tudo o que já amei.”

Essa experiência reformula sua visão de tempo, do círculo plano à possibilidade de um sentido eterno. Hart, por sua vez, também evolui, abandonando sua negação para enfrentar suas falhas. Como diz Pizzolatto em entrevista à Entertainment Weekly:

“True Detective reforça o tempo todo que tudo é uma história. Quem você diz ser para si mesmo, o que diz a si mesmo que o mundo é, uma investigação, uma religião, um ponto de vista niilista. São apenas histórias que você conta a si mesmo. Escolha com cuidado as histórias que conta a si mesmo. Termino a série com os detetives deixando o palco, e não sabemos que tipo de vida eles terão, mas podemos ter certeza de que os dois estão mais dispostos a aceitar a presença da graça. Porque foi nesse ponto que os dois falharam: nenhum deles conseguia conciliar o conceito de graça com suas racionalidade. Não queria que eles chegassem num ponto de redenção, de conversão, de entendimento e muito menos de resolução. Eles não estão curados, mas, pela primeira vez, você pode conceber que existe um futuro em que eles possam estar curados.”

A série não oferece redenção completa, mas sugere que a consciência da finitude e a presença do mal despertam o desejo pelo bem, ecoando Santo Tomás de AquinoSe há o mal, Deus existe, pois, excluída a ordenação do bem, não haveria o mal.”

Conclusão

True Detective é uma meditação sobre a luta entre luz e trevas, estruturada por referências literárias a Bierce, Chambers e Ligotti, e por reflexões filosóficas que elevam o formato televisivo. A jornada de Cole e Hart reflete a tensão entre desespero e esperança, tempo cíclico e linear, mal e graça. O contraste entre o niilismo cíclico e a linearidade cristã, com a sua ênfase no peso moral, enquadra a sua luta, sugerindo que as ações são importantes e ganham propósito num contexto eterno. A Louisiana de Pizzolatto, com sua Carcosa moderna, é um lembrete de que o mal é real, mas a busca pelo sentido, mesmo em meio à escuridão, é o que define a condição humana.

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