Dois anos de blog

No centro do campus da Universidade de Pittsburgh, em Oakland, onde estive recentemente por razões profissionais, situa-se o maior edifício educacional do Ocidente, uma bela construção gótica chamada “Cathedral of Learning”. No 36º. andar, além de uma magnífica visão panorâmica da cidade, encostados num cantinho, estão dois livros de Henry Adams. Adams, descendente de dois ex-presidentes norte-americanos (John Quincy Adams, avô; e John Adams, bisavô), filho do embaixador de Lincoln em Londres, foi historiador, jornalista e escritor, conhecido por “History of the United States”, e da autobiografia “The education of Henry Adams”.

Em 1885, sua mulher, acometida por depressão grave, suicidou-se. Para recuperar-se desse episódio, Adams partiu em viagem pela Europa, o que resultou no relato “Mont Saint Michel e Chartres”. O capítulo III do livro destina-se às suas impressões sobre “The Merveille”, “A maravilha”, apelido dado pelos franceses ao Mont Saint-Michel, situado na região noroeste da França. Nesse livro, podemos ler as seguintes passagens:

“When men no longer felt the passion, they fell back on themselves, or lower. (…) The architect meant it to reassert, with all the art and grace he could command, the mastery of love, of thought and poetry, in religion (…) the whole Mount still kept the grand style; it expressed the unity of Church and State, God and Man, Peace and War, Life and Death, Good and Bad; it solved the whole problem of the universe. God reconciles all. The world is an evident, obvious, sacred harmony. (…) a symbol of unity; and assertion of God and Man in a bolder, stronger, closer union than ever was expressed by other art; and when the idea is absorbed, accepted, and perhaps partially understood, one may move on.”

No livro “The science delusion – Asking the Big Questions in a culture of easy answers” (“A ilusão da ciência – fazendo as Grandes Perguntas numa cultura de respostas fáceis”), o ensaísta norte-americano Curtis White escreveu:

“Os novos ateístas falam em nome da ciência, assim como os neurocientistas, e a mensagem é: submetam-se. Confessem a superioridade da razão e da ciência. Mas essa instrução não é direcionada apenas aos evangélicos; também é direcionada aos outros adversários históricos – arte, filosofia e as ciências humanas.  A mensagem é: a mente humana e as criações humanas não são consequências de algo chamado Vontade, ou inspiração, ou comunicação com uma Musa ou mesmo com o Demônio, e menos ainda resultados de genialidade. Tudo isso é muito nebuloso; vem da mente fraca de poetas e religiosos. A mente humana é uma máquina de matéria, neurônios e bioquímica. Com suficientes dinheiro e tecnologia computacional, o quebra-cabeças do cérebro será completado, e saberemos então quem somos e como devemos agir”.

Curtis White também descreve, no livro, uma parábola interessante:

“Um evangélico e um cientista estão fazendo uma caminhada, e a floresta em que se encontram ecoam seus refrãos que não terminam nunca: “Evolução!” “Design inteligente!” “Evolução!” “Design inteligente!” Gustav Mahler (compositor austríaco) se aproxima, vindo da direção oposta. Ele pára diante dos dois e diz: “Não há porque discutir sobre a origem deste mundo, destas montanhas e destas árvores”; Mahler gesticula grandiosamente, como se regesse uma orquestra. “Eu já compus tudo isso”. O evangélico e o cientista olham para ele, espantados, como se dissessem “o que esse cara está fazendo aqui?”. Mas eis que olham para os lados, para a direção dos gestos de Mahler e, em uníssono, gritam: “Veja, estamos em uma floresta!”.

E completa:

“Em resumo, a ciência (quando nos insta a ficarmos maravilhados diante do cosmos) opera com um conjunto de valores estéticos que nos são familiares mas que, apesar de não ser necessariamente religioso, não é científico. E parece estar completamente alheia a esse fato. Pior ainda, a educação que oferece aos jovens e aos velhos é essa: submeta-se aos melhores do que você, aqueles que sabem, aos cientistas. Se eles dizem que o cosmos é lindo, é porque é lindo. Para a ciência, a única coisa que está mais morta do que Deus é a filosofia.”

Este blog completou 02 anos de vida em 18 de Agosto. Seu conteúdo de algum modo resulta da tentativa de restaurar, em mim mesmo, uma harmonia que parece distanciar-se deste mundo cada vez mais incapaz de maravilhar-se. Agradeço aos persistentes e corajosos leitores: sigamos, pois, para o terceiro ano.

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