
Stanley Kubrick, cineasta conhecido por sua meticulosidade, oferece em O Iluminado (1980) uma obra que transcende o terror psicológico, desafiando interpretações simplistas. Contrariando visões que reduzem o filme a uma história de isolamento, como a mini-resenha de Inácio Araújo publicada na Folha de São Paulo em 14 de agosto de 2014, que destaca “a solidão e o inverno” como temas centrais, O Iluminado é uma narrativa sobre o aprisionamento sobrenatural de um homem pelo tempo e pelo mal, orquestrado pelo hotel Overlook. Baseado no romance de Stephen King, mas com significativas alterações por Kubrick, o filme utiliza elementos visuais e cinematográficos para construir uma realidade instável, onde nada é o que parece.
Jack Torrance (Jack Nicholson), um escritor em crise, aceita o emprego de zelador de inverno no isolado hotel Overlook, nas montanhas do Colorado. Ele se muda para lá com sua esposa Wendy (Shelley Duvall) e seu filho Danny (Danny Lloyd), que possui habilidades psíquicas conhecidas como “shining”. Durante o isolamento no inverno rigoroso, as forças sobrenaturais começam a afetar Jack. Danny tem visões perturbadoras, enquanto o hotel manipula Jack, explorando suas fraquezas psicológicas, até transformá-lo em uma ameaça à sua própria família. Wendy e Danny lutam para sobreviver às forças do Overlook e à crescente instabilidade de Jack, em um clímax que revela a verdadeira natureza atemporal do hotel.
Kubrick, em Conversas com Kubrick (Michel Ciment), define o filme como “um equilíbrio frágil entre o psicológico e o sobrenatural, capaz de derrubar as barreiras de sua incredulidade”. Ele explica que os eventos sobrenaturais, inicialmente ambíguos, ganham certeza quando Grady, um espectro, abre a porta da despensa, confirmando que o hotel não é uma mera ilusão na mente de Jack. Assim, o Overlook emerge como o verdadeiro protagonista: uma entidade fantasmagórica que manipula o tempo e o espaço para capturar Jack, Wendy e Danny.
Tensão e Suspense na Cinematografia de Kubrick
A força de O Iluminado reside não apenas em sua narrativa, mas na genial manipulação de tensão e suspense. Ambos são estados emocionais associados a expectativas ou antecipações, desencadeados por conflito, incerteza ou instabilidade. Tais situações geram anseio por resolução e estão ligados a eventos significativos, e são centrais para a experiência do filme. Segundo Lehne et al. (2015) em Toward a General Psychological Model of Tension and Suspense, tensão é um estado emocional difuso, ligado à antecipação de desfechos inespecíficos, enquanto suspense envolve a expectativa de desfechos opostos e bem definidos. Diferentemente de Alfred Hitchcock, que alterna entre os dois dependendo da cena, em O Iluminado Kubrick privilegia a tensão, criando uma atmosfera de desorientação que permeia o filme. Ele manipula elementos cinematográficos para intensificar esse estado, explorando:
Probabilidade dos eventos: A tensão aumenta quando os eventos antecipados parecem improváveis, como nas visões de Danny, que sugerem perigos vagos sem desfechos claros.
Desejabilidade: grau de expectativa pelo desfecho esperado, o quanto o espectador deseja que um desfecho específico ocorra;
Identificação com personagens: A empatia por Danny, com sua vulnerabilidade, e por Wendy, com seu desespero, intensifica a tensão.
Impotência do espectador: Kubrick frequentemente mostra ao público mais do que os personagens sabem — como as visões de Danny que Wendy ignora —, criando uma sensação de incapacidade de intervir.
Kubrick também manipula a temporalidade, prolongando a espera entre o início dos eventos e sua resolução, como nas longas sequências de Danny percorrendo os corredores do hotel – o que aumenta a tensão. A trilha sonora, com tons dissonantes e agudos em momentos aparentemente calmos e sons sutis em cenas cruciais, desorienta o espectador, frustrando expectativas e mantendo a incerteza sobre o que virá. Além disso, o uso da câmera subjetiva e do direcionamento do olhar amplifica a tensão: por exemplo, quando Danny vê as gêmeas fantasmagóricas, a câmera foca em seu rosto aterrorizado antes de revelar o que ele vê, adiando a resolução e intensificando a expectativa. Esses recursos criam um estado contínuo de instabilidade, onde o conflito entre a realidade percebida e a manipulação sobrenatural do hotel mantém o espectador em constante anseio por clareza.
Linguagem Visual e Instabilidade
A cinematografia de Kubrick reforça a narrativa por meio de detalhes visuais que comunicam a instabilidade do Overlook, complementando a tensão gerada. Cenas específicas revelam seu caráter mutável.
Quando Wendy, Danny e Halloran (Scatman Crothers) visitam o freezer do hotel, o fundo do cenário muda sutilmente entre a entrada e a saída, apesar de usarem o mesmo caminho.



Enquanto Danny brinca sozinho, uma bola de tênis aparece, e o padrão das listras do carpete se altera, sugerindo uma manipulação espacial.


Uma televisão sem cabo de energia exibe imagens, desafiando a lógica física.

Durante uma conversa entre Jack e Wendy, uma cadeira visível atrás de Jack desaparece após um corte, um detalhe improvável de ser erro em um filme de um diretor conhecido por sua perfeição técnica



Esses elementos visuais, longe de serem meros detalhes, reforçam a tese de Kubrick, que valorizava uma comunicação cinematográfica próxima do cinema mudo:
“A tendência é empregar o diálogo como principal meio de comunicação, mas acho que há, sem dúvida, uma maneira mais cinematográfica de comunicar, mais próxima do cinema mudo. (…) Em todos os filmes, quase tudo é dramatizado e quase nada é ilustrado com mais leveza, apresentado com mais simplicidade. Isso só o cinema mudo realizou, e também os filmes publicitários na televisão. Em trinta segundos, se passa uma ideia visualmente.”
O nome “Overlook” (que significa “supervisionar” ou “ignorar”) é emblemático, sugerindo tanto o controle do hotel quanto a incapacidade de Jack e do espectador de perceberem a verdade.
A narrativa também explora a vulnerabilidade psicológica de Jack, que, segundo Kubrick,
“A natureza de seus próprios problemas psicológicos o preparou para se submeter às vontades do hotel (…) estando em uma situação que o expôs às forças más do hotel – e este é o aspecto sobrenatural da história -, ele se torna o instrumento perfeito da vontade delas. (…) Ao contar essa história, você diz: foi o que aconteceu. E tenta torná-la o mais real possível.”
Danny, com sua clarividência, escapa dessa manipulação, mas Jack sucumbe, preso em uma eternidade atemporal. A fotografia final, do “Baile do Overlook, 1921”, onde Jack aparece entre os convidados, sugere que ele — e, simbolicamente, o espectador — está preso no ciclo do hotel.
Diferentemente do romance de Stephen King, que enfatiza o declínio psicológico de Jack, Kubrick – ao mesmo tempo em que reduz o espaço em que seus personagens se deslocam (enclausurando-os no hotel, depois no labirinto do hotel)-, alarga desmesuradamente o tempo e o espaço subjetivos, dissolvendo a fronteira entre o eu e o mundo, entre o presente e o passado.
Conclusões
O Iluminado é cinema em sua forma mais pura. Kubrick manipula a tensão do espectador com sua cinematografia impecável. E, se por acaso, você que está lendo este texto, após assistir ao filme ainda tem dúvidas a respeito da autenticidade do que Jack Torrance vivenciou, se foi ou não produto da imaginação dele – desencadeado pelo isolamento e pelo inverno -, sinto muito: olhe atentamente para a foto abaixo, a última cena do filme, a fotografia do “Baile do Overlook Hotel, 1921”. Vai perceber que, assim como Jack Torrance, você está ali; você também está aprisionado no Hotel, desde sempre.











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