Fantasmas

O narrador do romance “O polígono das secas”, de Diogo Mainardi, nos diz, a certa altura:

“Mais adiante, num arroubo didático, impedindo a livre ação interpretativa por parte do leitor, o autor do romance irá esclarecer suas verdadeiras intenções. (…) O autor deste romance intervém novamente; no caso, com a bibliografia. A intervenção pode desagradar o leitor, mas o autor não se incomoda. O romance é dele – tem o direito de intervir como bem entende. É sua única prerrogativa. (…) O leitor não conta. É subalterno em relação ao autor e não tem qualquer direito a interferir. Para que o leitor não possa adulterar o presente romance com interpretações próprias, o autor irá esclarecer o seu verdadeiro significado, ainda que acabe restringindo demasiadamente o alcance de sua obra.”

É sempre bom ouvir o que o autor (de um livro, de um filme) tem a dizer. No caso de um cineasta culto, meticuloso e exigente como Stanley Kubrick, acho que deveria ser uma obrigação. Pode aprumar voos interpretativos a respeito de seus trabalhos. Isso se aplica principalmente a um de seus filmes mais incompreendidos, o clássico de terror “O iluminado” –  o interessante é que o filme se tornou um clássico pelas razões equivocadas. Sendo tênue a separação entre intenção, resultado efetivo e interpretação, a palavra do autor importa.

Em sua mini-resenha para a Folha de São Paulo, a respeito do “Iluminado”, de Kubrick, no dia 14 de agosto, Inácio Araújo mencionou aquele que não é o principal aspecto do filme:

“Já “O Iluminado” (“The Shining”, Cinemax, 1h15; 16 anos), do mesmo Kubrick, fica no registro da solidão e do terror. A história diz respeito ao zelador de um hotel e aos efeitos que a solidão e o inverno podem causar.”

Vejamos o que Kubrick diz a respeito do roteiro de seu próprio filme (os trechos da entrevista  foram retirados de “Conversas com Kubrick”, de Michel Ciment; são jóias raras, dada a notória aversão de Stanley não só em dar entrevistas como para explicar sua obra):

“Eu definiria como um equilíbrio frágil entre o psicológico e o sobrenatural, capaz de derrubar as barreiras de sua incredulidade e de fazer com que você entre com tudo na história.(…) à medida que os acontecimentos sobrenaturais ocorrem, o leitor continua supondo que eles são provavelmente produtos da imaginação do personagem (…)na verdade, só quando a porta da despensa é aberta por Grady é que temos certeza absoluta de que aquilo não é algo imaginário.”

Portanto, o filme não é a respeito “dos efeitos da solidão e do inverno” sobre um pacato zelador e sua família. O filme narra o aprisionamento de um homem na eternidade do tempo, pelo mal, pela ação de um hotel fantasmagórico, que não é fruto da cabeça de Jack Torrance. As estruturas utilizadas por Kubrick (o aspecto formal do filme) denunciam uma realidade fugaz, mutável: nada é o que parece ser. O grande personagem do filme, o hotel Overlook ,é um fantasma que tenta transmitir uma credibilidade real a fim de capturar Jack, sua mulher e seu filho e, por conseguinte, impor suas vontades; seus aposentos, seus corredores, tudo nele se transforma, o tempo todo, com seus portais que se abrem para outra época ou que permitem acesso aos habitantes macabros do Overlook. Esse disfarce do real ilude Jack, nos engana a nós, espectadores, e enganou o Inácio Araújo; quem escapou foi seu filho, Danny, o “iluminado”. Jack e todos nós somos enganados porque não percebemos aquilo que vemos, e esse é o grande mérito do Kubrick cineasta.

Vejamos:

1) Na cena em que a mulher de Jack, Danny e Halloran estão conhecendo as dependências do hotel, percebam o “fundo” do cenário quando eles estão para entrar no imenso “freezer” e  o mesmo fundo no instante em que eles saem do “freezer” (e saem pelo mesmo caminho pelo qual entraram):

2) Quando Danny está brincando sozinho e, de repente, chega uma bola de tênis até ele, percebam como muda o padrão das listras do carpete:

3) Danny está assistindo à TV; não há nenhum cabo conectando-a uma tomada de parede.

4) Jack Torrance está escrevendo, quando é interpelado por sua mulher; atentem para o cenário atrás de Jack e percebam que, após o corte para ela, há uma cadeira que desapareceu. Erro de continuidade? Pouco provável para o filme de um cineasta conhecido por repetir a mesma cena inúmeras vezes, até à perfeição.

Voltemos a Kubrick:

“A tendência é empregar o diálogo como principal meio de comunicação, mas acho que há, sem dúvida,uma maneira mais cinematográfica de comunicar, mais próxima do cinema mudo. (…) Em todos os filmes, quase tudo é dramatizado e quase nada é ilustrado com mais leveza, apresentado com mais simplicidade. Isso só o cinema mudo realizou, e também os filmes publicitários na televisão. Em trinta segundos, se passa uma ideia visualmente.”

Ora, não é justamente isso que as cenas estão ilustrando? Visual e sutilmente, o diretor está nos transmitindo uma mensagem – a mensagem sobre o que, de fato, seu filme trata, exigindo que prestemos atenção à tudo: cenário, clima, música, fala, interpretações, trejeitos. Até o nome do hotel é significativo: “Overlook”, que quer dizer, entre outras coisas, “supervisionar”. Resumindo: cinema com letra maiúscula.

“A natureza de seus próprios problemas psicológicos o preparou para se submeter às vontades do hotel (…) estando em uma situação que o expôs às forças más do hotel – e este é o aspecto sobrenatural da história -, ele se torna o instrumento perfeito da vontade delas. (…) Ao contar essa história, você diz: foi o que aconteceu. E tenta torná-la o mais real possível.”

Esse é o ponto-chave: vivemos a época do realismo exagerado. Não à toa, a maioria dos filmes hollywoodianos estampa, como forma de nos atrair, os espectadores viciados na realidade, o famigerado “baseado em fatos reais”. Kubrick, ao mesmo tempo em que reduz  o espaço em que seus personagens se deslocam (enclausurando-os no hotel, depois no labirinto do hotel), alarga desmesuradamente o tempo e o espaço subjetivos, dissolvendo a fronteira entre o eu e o mundo, entre o presente e o passado.

E se por acaso, caro leitor, prezada leitora, você sempre teve dúvidas a respeito da autenticidade do que Jack Torrance vivenciava, se produto de sua imaginação ou não, desencadeado pelo isolamento e pelo inverno, sinto muito: dê mais uma olhada, olhe atentamente para a última foto do filme, a fotografia do “Baile do Overlook Hotel, 1921”: você vai perceber que, assim como Jack Torrance, você também está lá; você também  está aprisionado no Hotel, desde sempre.

P.S.: Há teorias exageradas e conspiratórias  a respeito do filme; para conhecê-las, recomendo o documentário “Room 237” (no Brasil, “O labirinto de Kubrick”) e a extensa, minuciosa e exaustiva análise do MasterMind, “Physical cosmologies” (link aqui); para conhecer mais sobre o diretor e seus filmes, recomendo “Conversas com Kubrick”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s