A vastidão das incertezas

Dirigida por Moira Demos e Laura Ricciardi e composta por dez episódios, a série documental do Netflix Making a Murderer acompanhou por uma década a vida de Steven Avery, morador de Manitowoc, em Wisconsin, EUA. Em 1985, ele foi preso e acusado de ter estuprado uma mulher e passou 18 anos na cadeia, até ser inocentado, em 2003, por exame de DNA. Pouco tempo após ser solto, ele é preso novamente, acusado de ter assassinado uma fotógrafa, e sentenciado à prisão perpétua. Trata-se de uma série enervante e angustiante não apenas porque mostra, em detalhes, o inferno jurídico em que se transformou a vida de Avery e de sua família, ou porque exibe os erros grotescos dos processos a que ele e o sobrinho foram submetidos. As diretoras não retratam apenas como um indivíduo pode ser esmagado pelo Estado. Além de nos apresentar uma galeria de personagens bizarros, alguns cativantes (os pais de Avery, seus advogados de defesa) e muitos inacreditáveis (um advogado de defesa, Len Kachinski, em busca de atenção, disposto a prejudicar terrivelmente seu cliente; promotores vaidosos, policiais psicopatas – um deles chega ao cúmulo de dizer “é mais fácil matar Steven Avery do que plantar provas contra ele”), o tema principal de Making a murderer é a impossibilidade, que se estabelece gradualmente em nossa sociedade, de surgir “homens de êxito”.

O termo “homem de êxito” é de Keats (man of achievement). Numa das cartas para seus irmãos, datada de 1817, o poeta John Keats escreveu que

“muitas coisas se entrelaçaram em minha mente e logo me ocorreu que qualidade é necessária para formar o homem de êxito, especialmente em literatura, e que Shakespeare possui tão imensamente – refiro-me à capacidade negativa, isto é, quando um homem é capaz de estar em incertezas, mistérios, dúvidas, sem qualquer tentativa impaciente de alcançar fato e razão (…)”.

Para o documentarista Errol Morris, ao contrário da realidade, em que tudo o que vemos há um contexto específico, as fotografias descontextualizam o que está diante de nós, pois “arrancam imagens do mundo e nos deixam livres para pensarmos o que quisermos”. Quando olhamos para uma fotografia, na verdade o que estamos vendo é o resultado das escolhas que o fotógrafo fez – vemos aquilo que ele quer; algumas imagens evidenciam somente o sentimentalismo de suas escolhas com vistas a exibir certa virtude, por exemplo. Para Errol Morris, fotografar também é exercer uma escolha moral. Há pressupostos quando se fotografa alguma coisa, pois ao se optar por um determinado quadro, todos os outros são excluídos; ao se optar por registrar um instante em particular, milhares de outros foram relegados ao esquecimento – o que não significa que nunca tenham existido. De acordo com Morris, nos esquecemos de que

                “as fotos estão fisicamente ligadas ao mundo. E uma parte do estudo da fotografia tem de ser o presente, a recuperação dessa ligação física com o mundo de onde elas foram tiradas. (…) Acho que as fotografias tem uma espécie de caráter subversivo. Elas nos fazem achar que sabemos o que estamos olhando. (Mas) elas descontextualizam as coisas, arrancam imagens do mundo e, por isso, nos deixam livres para pensar o que quisermos sobre elas. (…) Existe um recorte e não enxergamos além dele.”

As fotografias, segundo Morris, nos lembram de que vivemos entre incertezas; nós olhamos para esses recortes da realidade e pensamos justamente o oposto: acreditamos que o que estamos vendo é a única realidade possível.

Em seu livro A wilderness of error, Morris escreveu que

“Você pode escapar de uma prisão, mas como você escapa de uma história convincente? Após uma série de repetições, os fatos é que passam a servir à história e não o contrário. Como uma erva-daninha, a história se propaga para todo lugar e se torna impenetrável.” 

Indivíduos incapazes de “estar entre incertezas” são vítimas fáceis de histórias convincentes, mesmo que falsas. Há uma fala magnífica de um dos advogados de defesa do infeliz Steven Avery:

“O que mais aflige nosso sistema de justiça criminal é a incerteza devida da parte de policiais, promotores, advogados de defesa, juízes, e jurados de que eles estão fazendo a coisa certa. É só…uma trágica falta de humildade.”

Será que não percebemos que, na maioria das discussões a que assistimos ou de que participamos, os interlocutores não estamos preocupados em descobrir a verdade, mas empenhados em “fazer servir os fatos à história”, em construir a história mais convincente, nem que para isso seja necessário corromper o sentido das palavras em prol do (suposto) sucesso da argumentação? É a trágica falta de humildade que opõe o aparato jurídico de todo o Estado de Wisconsin contra a família de Steven Avery, e também a nós, espectadores, uns contra os outros – numa disputa de poder, a ser conquistado pela imposição da perspectiva “correta” – e que transformou a realidade concreta num amontoado de vozes que não se falam, conforme descreve Hermann Broch em Espírito e espírito de época: 

“… o mundo é cheio de vozes, elas não se falam, são apenas vozes, confusas como a confusão de um alto-falante que funciona mal, cada um tentando gritar mais alto do que as outras, superá-las pela potência, todas soltas ao mesmo tempo, uma baralhada de línguas, de opiniões, falando umas sobre as outras sem se ouvir…”

Somos realmente capazes de compreender as intenções de nossos interlocutores? Até que ponto suas intenções são, de fato, captadas?  O barulho ocasionado pelo entrechoque das múltiplas perspectivas que anseiam por imposição e submissão (“minha história é mais convincente do que a sua”) estabelece o fundamento de uma conversa que jamais comunica, e nos torna incapazes de emudecer os gritos de nossa alma para ouvirmos a “alma das coisas” (Milan Kundera). Os promotores da acusação não estão interessados na verdade, estão interessados em sustentar uma história que lhes é conveniente; o juiz condenou Steven não com base na verdade dos fatos, mas com base numa história conveniente ao preconceito e ao descaso que nutria em relação aos Avery.

Ao contrário de Steven Avery, estamos do lado de cá das grades, por mero acaso. Ainda não dependemos de esperanças frustradas. Não é necessária a revolução do sistema judiciário para impedir que injustiças aconteçam; acontecem, e irão acontecer. No entanto, podemos orientar nossas ações sob uma perspectiva fundamentalmente moral, sob os princípios que constituam o “horizonte absoluto de nosso ser”, para não nos prendermos às falsas narrativas que mascaram as ambiguidades da realidade e que contamos a nós mesmos e aos outros, o tempo todo, a fim de alimentarmos nossas vaidades com virtudes inexistentes. Um dos advogados de defesa diz isso brilhantemente:

“Esforços humanos são confusos, imperfeitos por definição, e a busca pela verdade em um julgamento criminal pode ser fútil. A justiça é permanecer fiel aos princípios que temos, sobre o que fazemos quando somos confrontados com a incerteza sobre a verdade. De que lado nós erramos? Erramos ao tirar a liberdade de um ser humano ou erramos ao apoiar o pedido de liberdade de um ser humano quando estamos tão incertos, como quase sempre estamos?”

Não perceber que, para além do recorte daquilo que nos é apresentado, pode existir uma vastidão de incertezas implica assumir uma atitude pouco humilde perante a realidade, pois há mais entre o céu e a terra do que supõe nossa arrogante filosofia. Francis Bacon, em seu Novo órganon (1620), escreveu que

“os ídolos da caverna são as ilusões do homem como indivíduo. Pois cada pessoa tem uma espécie de gruta  ou caverna individual que fragmenta e distorce a luz da natureza. Heráclito também disse que os homens buscam conhecimento nos pequenos mundos privados e não no grande ou comum a todos”.

Esses “ídolos da caverna”, essas ilusões se transformam nas certezas que enviesam a realidade em prol de uma história convincente e na qual insistimos, orgulhosamente, em querer acreditar. Quando isso acontece, aprisionamo-nos, não em paredes de concreto, mas em um sistema de crenças forjado por histórias convincentes, ainda que falsas, e  para escapar precisaremos, de modo semelhante a Steven Avery, encontrar um oásis de fatalidade (“Gostaria que encontrassem para mim, nos detalhes que estou prestes a dar, algum pequeno oásis de fatalidade em meio a um deserto de erros”William Wilson, Edgar Allan Poe).

Para complementar Making a Murderer, recomendo ao leitor A tênue linha da morte, do Errol Morris, em que ele descreve como reuniu provas para inocentar Randall Adams, condenado à morte em um processo cheio de erros, e Paradise lost, de Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, série de 3 documentários, de 1996, 2000 e 2011, de Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, que mostra três jovens condenados à morte, em West Memphis, por policiais ineptos e julgamentos tão falhos quando os de Making a murderer).

4 comentários

  1. Carlos, interessante a indicação do documentário. Quanto à análise, você indicou que, para evitar os excessos de erros e abusos do sistema judiciário/penal, além de uma reforma, sempre é necessário um compromisso de quem participa da persecução penal com princípios fundamentais, neste caso, a liberdade do ser humano. Estou prestes a fazer um trabalho no curso de Direito sobre Abolicionismos Penais, e uma das teses deste movimento, a qual meu professor de criminologia adere, é a abolição completa do sistema carcerário, justamente por fundar um organismo de incertezas que, em certos casos, privam a pessoa de seu atributo mais essencial, a liberdade. Em síntese, os defensores dessa teoria alertam sobre a total falência do “núcleo retributivo” em relação a algum crime, fator de condenação que guarda vínculo com o elemento do “castigo”. Num primeiro plano, parece-me uma tremenda utopia. Mas, dentro do que você expôs no artigo, pensa ser possível essa solução a fim de eliminar os desvios ocorridos na justiça penal? Teria indicações bibliográficas sobre o assunto?
    Grande abraço! Fique em Paz!

    Curtir

    1. Olá Cleberson, não conheço bibliografia específica a respeito do que você mencionou; você coloca a questão de maneira mais aprofundada do que eu, mas eu não creio que a abolição do sistema carcerário como um todo seria a solução. O que vi na série, pela exibição em detalhes dos processos aos quais Avery foi submetido, foi que não havia nenhuma prova que o ligasse sem qualquer sombra de dúvida ao crime pelo qual foi acusado; numa situação dessas, creio que um dos advogados de defesa estava certo: deveria ser uma sentença a favor do réu. As investigações não se abriram para a possibilidade de outros suspeitos. É isso, obrigado! Um abraço pra você!

      Curtir

      1. De todo modo, obrigado pela resposta, Carlos. Parabéns por este excelente blog. É um dos poucos em que cadastrei para receber por email. Forte abraço! Fique em paz!

        Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s