
Dirigida por Moira Demos e Laura Ricciardi, a série documental da Netflix Making a Murderer (2015), composta por dez episódios, acompanha a trajetória de Steven Avery, residente de Manitowoc, Wisconsin, EUA. Preso em 1985 por estupro, Avery passou 18 anos encarcerado até ser inocentado por exame de DNA em 2003. Pouco após sua libertação, foi acusado do assassinato da fotógrafa Teresa Halbach, sendo condenado à prisão perpétua – em um processo repleto de controvérsias. A série também destaca o caso de Brendan Dassey, sobrinho de Avery, cuja condenação por cumplicidade no mesmo crime levanta questões igualmente perturbadoras. Making a Murderer é uma narrativa angustiante, não apenas por expor o inferno jurídico enfrentado por Avery e Dassey, mas por revelar um sistema mais preocupado em sustentar narrativas convincentes do que em buscar a verdade.
A Trágica Falta de Humildade no Sistema Jurídico
O cerne de Making a Murderer está na crítica à incapacidade de lidar com incertezas, o que leva a erros judiciais devastadores. As diretoras apresentam uma galeria de personagens complexos: os pais de Avery, figuras cativantes em sua lealdade; os advogados de defesa, como Dean Strang e Jerry Buting, que lutam contra um sistema enviesado; e figuras controversas, como o advogado Len Kachinsky, cuja busca por notoriedade compromete a defesa de Dassey, e promotores que priorizam a vitória processual sobre a verdade. Um momento marcante é a declaração de um oficial de justiça, que sugere que “seria mais fácil eliminar Avery do que fabricar provas contra ele”, evidenciando um cinismo alarmante (Temporada 1, Episódio 7). Essa falta de humildade, como aponta o advogado Strang, é a raiz das injustiças: “O que mais aflige nosso sistema de justiça criminal é a certeza indevida de policiais, promotores, advogados, juízes e jurados de que estão fazendo a coisa certa. É uma trágica falta de humildade.”
Narrativas Convincentes e a “Capacidade Negativa”
A série dialoga com a noção de “capacidade negativa”, proposta pelo poeta John Keats em 1817. Para Keats, o “homem de êxito” é aquele capaz de habitar incertezas e dúvidas sem buscar respostas imediatas. Numa de suas cartas para seu irmão, datada de 1817, ele escreveu:
“Muitas coisas se entrelaçaram em minha mente e logo me ocorreu que qualidade é necessária para formar o homem de êxito, especialmente em literatura, e que Shakespeare possui tão imensamente – refiro-me à capacidade negativa, isto é, quando um homem é capaz de estar em incertezas, mistérios, dúvidas, sem qualquer tentativa impaciente de alcançar fato e razão (…)”.
Em Making a Murderer, a incapacidade de aceitar a ambiguidade leva à construção de narrativas convincentes, mas potencialmente falsas. Promotores e juízes moldam os fatos para sustentar a culpa de Avery e Dassey, ignorando evidências contraditórias, como a ausência de DNA de Halbach no quarto de Avery. Essa dinâmica reflete o que o documentarista Errol Morris descreve em A Wilderness of Error: “Você pode escapar de uma prisão, mas como escapa de uma história convincente? Após repetições, os fatos passam a servir à história, e não o contrário. Como uma erva-daninha, a história se propaga para todo lugar e se torna impenetrável.” A série expõe como narrativas enviesadas, reforçadas pela mídia e pelo sistema jurídico, aprisionam indivíduos em falsas verdades.

O Papel da Mídia e da Percepção Pública
Making a Murderer também destaca o impacto da mídia na formação de narrativas. A cobertura sensacionalista do caso reforçou o preconceito contra a família Avery, retratada como marginal. A série, ao adotar uma perspectiva crítica, desafia essas percepções, mas também levanta questões sobre sua própria construção narrativa. Como Errol Morris observa, as narrativas, como fotografias, são recortes arbitrários da realidade. Ao selecionar certos fatos e descartar outros, as autoridades moldam percepções, “descontextualizam a realidade”, guiando o espectador a ver o que se escolhe destacar:
“As fotos estão fisicamente ligadas ao mundo. E uma parte do estudo da fotografia tem de ser o presente, a recuperação dessa ligação física com o mundo de onde elas foram tiradas. (…) Acho que as fotografias tem uma espécie de caráter subversivo. Elas nos fazem achar que sabemos o que estamos olhando. (Mas) elas descontextualizam as coisas, arrancam imagens do mundo e, por isso, nos deixam livres para pensar o que quisermos sobre elas. (…) Existe um recorte e não enxergamos além dele.”
As diretoras fazem escolhas morais ao focar nas injustiças sofridas por Avery e Dassey, mas o espectador deve permanecer atento às incertezas que persistem além do recorte apresentado.
Uma sociedade que abandonou a arte do diálogo pode se encontrar imersa em conflito de narrativas irredutíveis, onde cada parte – defensores, acusadores, espectadores – grita sua versão, como descreve Hermann Broch:
“Um desprezo peculiar pela palavra, até mesmo quase asco ante a palavra, tomou conta da humanidade. A bela confiança de que seres humanos pudessem convencer uns aos outros através da palavra, da palavra e da língua, foi radicalmente perdida;(…) Jamais antes, pelo menos na história da Europa ocidental, o mundo admitiu com tanta honestidade e clareza, e pouco importa se isso parece cinismo ou não, que a palavra de nada vale (…) um amontoado de vozes que não se falam, apenas competem por dominar as outras”.
Nesse cenário, a busca pela verdade se perde, substituída por uma batalha de persuasão.
Reflexões Finais: Justiça e Moralidade
A força de Making a Murderer reside em sua capacidade de transcender o caso específico para questionar valores fundamentais. Como diz o advogado Buting, “a justiça é permanecer fiel aos princípios que temos quando enfrentamos a incerteza sobre a verdade. De que lado erramos? Ao tirar a liberdade de um ser humano ou ao apoiar sua liberdade quando estamos incertos?” Essa reflexão ecoa Francis Bacon, que em Novo Órganon (1620) alertava contra os “ídolos da caverna” – ilusões individuais que distorcem a realidade, e que se transformam nas certezas que enviesam a realidade em prol de uma história convincente e na qual insistimos, orgulhosamente, em querer acreditar. Quando isso acontece, aprisionamo-nos, não em paredes de concreto, mas em um sistema de crenças forjado por histórias convincentes, ainda que falsas e, para escapar precisaremos encontrar um oásis de fatalidade (“Gostaria que encontrassem para mim, nos detalhes que estou prestes a dar, algum pequeno oásis de fatalidade em meio a um deserto de erros” – William Wilson, Edgar Allan Poe).
Evitar narrativas falsas exige uma perspectiva moral, guiada por princípios que resistam à tentação de impor histórias convenientes.










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