
“Penso em Rocky segurando a minha mão e me contando sobre estar naquele carro quando criança, e como ocorre a mesma coisa com a história desta ilha. As histórias se tornam o lugar.”
O romance de estreia de Nic Pizzolatto – criador da série da HBO True Detective –, Galveston (2010), desafia a classificação tradicional como pertencente ao gênero noir. Em vez de se limitar ao determinismo sombrio típico do noir, a obra propõe uma narrativa de redenção, ou “neo-noir”, centrada na jornada de Roy Cady, um assassino profissional que encontra propósito em meio à violência e à desolação. Galveston foi adaptado para o cinema em 2018 e dirigido pela atriz francesa Mélanie Laurent.

Este ensaio analisa como a escrita de Pizzolatto em Galveston utiliza a paisagem e os personagens para construir uma história de sacrifício e transformação.
A Dupla Temporalidade e a Trama
Galveston alterna entre duas linhas temporais. Em 1987, Roy Cady, um matador a serviço da máfia de Nova Orleans, é traído por seu chefe, Stan Ptitko, em uma emboscada. Escapando por pouco, Roy resgata Rocky, uma jovem prostituta de 18 anos, e, mais tarde, sua irmã de 3 anos, Tiffany. Perseguidos pela máfia, ele fogem juntos para Galveston, Texas, onde tentam reconstruir suas vidas em um motel à beira-mar. Em 2008, encontramos Roy solitário, envelhecido e desfigurado, reflexivo, revisitando seu passado. Essa estrutura temporal não apenas cria suspense, mas também reflete a transformação de Roy: de um homem enjaulado no presente violento em 1987, ele se torna, em 2008, um narrador que contempla sua jornada de redenção.
A clareza dessa alternância é um dos pontos fortes do romance. Pizzolatto usa a paisagem de Galveston — com seu “deserto verde” e “céu repleto de ozônio e água do mar” — para simbolizar tanto o isolamento quanto a possibilidade de renovação: “Livre das cidades, o Texas se transforma em um deserto verde disposto a esmagá-lo com a sua vastidão, um pilão repleto de céu.” Essa paisagem, ao mesmo tempo opressiva e libertadora, torna-se o palco da transformação de Roy.

A Paisagem Sacrificial
O historiador Brian Black, em um artigo para The Atlantic cunhou o termo “paisagem sacrificial” ao analisar as transformações ambientais na Pensilvânia do século XIX, descrevendo uma paisagem que deve ser destruída para que outra possa surgir (Black, 2014). Em Galveston, a ilha homônima funciona como uma paisagem sacrificial, um lugar onde Roy confronta seu passado e se oferece em sacrifício para garantir o futuro de Rocky e Tiffany. Diferentemente da Louisiana apocalíptica de True Detective, onde a paisagem reflete a decadência da civilização, Galveston é um espaço liminar, descrito vividamente: “A ventania carrega a chuva em fortes rajadas, e as nuvens deixam a tarde tão escura quanto um vestido de viúva. […] Relâmpagos brilham sobre o oceano como se o céu tivesse engolido uma dinamite.” Essa descrição não é apenas estilística; ela reforça a ideia de que a paisagem, como Roy, está à beira de uma transformação cataclísmica.
Roy, Rocky e Tiffany: Uma Família Improvável
A jornada de Roy é profundamente influenciada por Rocky e Tiffany, que representam tanto o risco, pela vulnerabilidade, quanto a esperança. Rocky, com sua história de traumas, é um espelho do próprio Roy, enquanto Tiffany simboliza a inocência que ele deseja proteger. A relação entre os três é o coração emocional do romance, e Pizzolatto a constrói com diálogos naturais e momentos de ternura, como quando Rocky segura a mão de Roy e compartilha memórias de sua infância. Ao lutar para proteger as irmãs, Roy encontra um propósito capaz de transcender sua vida marcada pela violência.
Galveston e o Gênero Noir
Classificar Galveston como noir tradicional seria impreciso devido à ausência do paradoxo central do gênero.
Diante de uma linguagem artística progressivamente empobrecida, incapaz de lidar com a ideia do sagrado, torna-se fundamental reabilitar um dos papéis fundamentais da grande arte: a necessidade de restaurar significados, de restabelecer um código de vícios e virtudes esquecido neste mundo cada vez mais secularizado. Uma das formas de fazê-lo coube à arte noir, com sua habilidade para evidenciar a sensação de que há algo de errado na condição humana e induzir certa alienação às suposições otimistas racionalistas. A situação trágica do protagonista noir é a sua percepção de que o Universo não responde diretamente aos desejos humanos; o grande tema da arte noir é ausência que assombra o mundo: a morte de Deus. Ao expor as frustrações do homem moderno em suas tentativas de reformar a natureza e o mundo a fim de torná-los aceitáveis às suas necessidades e aos seus desejos, suavizando, desse modo, as inconveniências da condição humana e criando um paraíso que eliminaria essa sensação de ausência, o grande mérito da arte noir é tornar evidente que o dualismo da modernidade não é o cartesiano – que opõe corpo e mente –, mas o dualismo que opõe a grandeza e a miséria do homem. Mas, eis o paradoxo: há uma espécie de determinismo do mal a configurar as narrativas sombrias: os personagens se encontram aprisionados por ações vis realizadas no passado e que os assombram no presente, e cuja repetição os aguarda no futuro – um futuro, portanto, moldado pela violência do passado. O determinismo noir implica que o mal é mais do que o exercício da livre ação do protagonista. Ora, se somente seremos capazes de apreciar a redenção ao experimentarmos o quão perdidos estamos e o quão excelente é a restauração, o determinismo noir aprisiona seu protagonista na prisão inescapável da alienação; o mal irredimível descortina a redenção impossível ou desnecessária: a tortuosa jornada do protagonista se torna inútil e, inevitavelmente, terminará em morte (física e/ou espiritual). O noir, como descrito por Thomas Hibbs, revela “o torpor dogmático de que tudo é como deveria ser”, expondo a miséria da condição humana em um mundo sem sentido.

Em Galveston, porém, Pizzolatto rompe com esse determinismo. Roy não está condenado ao mal absoluto; sua jornada culmina em um ato de sacrifício voluntário, descrito por Martim Vasques da Cunha como as “60 páginas finais mais dilacerantes da recente literatura norte-americana.” Como Roy reflete: “Eu estava errado quando disse para Rocky que você pode escolher o que sente. […] O que acontece de fato é que o passado coagula como uma catarata ou uma casca, uma casca de lembranças sobre seus olhos. E, um dia, a luz atravessa.”
Essa possibilidade de redenção alinha Galveston com o neo-noir, um subgênero de “narrativas de redenção” (nas palavras de Thomas Hibbs) que mantém a estética sombria do noir, mas oferece vislumbres de esperança. Um exemplo comparável é Drive (2011), de Nicolas Winding Refn, onde o protagonista também busca propósito por meio de atos de sacrifício. Diferentemente do noir tradicional, que enfatiza a “morte de Deus” e a ausência de significado, o neo-noir de Galveston restaura um código moral, sugerindo que a redenção, embora custosa, é possível.
O Estilo de Pizzolatto
A escrita de Pizzolatto é um dos maiores trunfos de Galveston. Seu estilo é ao mesmo tempo lírico e visceral, capturando a desolação da paisagem e a complexidade emocional de Roy. Frases como “Você não sobrevive a certas experiências, e depois delas, não existe mais de forma plena, apesar de não ter morrido” revelam a profundidade psicológica do protagonista. O ritmo da narrativa, com diálogos econômicos e descrições evocativas, mantém o leitor imerso, enquanto a alternância temporal não apenas estrutura a trama, mas também constrói uma mudança de perspectiva: o que era um santuário temporário transforma-se em palco de uma dolorosa redenção.
Conclusão
Galveston não é apenas uma história de fuga e violência, mas uma meditação sobre redenção e sacrifício. Ao transformar a paisagem de Galveston em um espaço sacrificial e ao oferecer a Roy a possibilidade de transcender seu passado, Pizzolatto cria uma narrativa que desafia as convenções do noir tradicional. A jornada de Roy, impulsionada por sua relação com Rocky e Tiffany, é o testemunho do poder da arte para restaurar significados em um mundo desolado. Como o próprio Roy conclui, “o que acontece de fato é que o passado coagula como uma catarata ou uma casca, uma casca de lembranças sobre seus olhos. E, um dia, a luz atravessa.” — uma afirmação da possibilidade de redenção, ainda que a um custo elevado.
Referências
Black, Brian. (2014). “The Sacrificial Landscape of True Detective.” The Atlantic. Disponível em: http://www.theatlantic.com/technology/archive/2014/03/the-sacrificial-landscape-of-em-true-detective-em/284302/.










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