A paisagem sacrificial de Nic Pizzolatto

“Penso em Rocky segurando a minha mão e me contando sobre estar naquele carro quando criança, e como ocorre a mesma coisa com a história desta ilha. As histórias se tornam o lugar.”

É um tanto impreciso classificar como pertencente ao gênero noir o primeiro romance de Nic Pizzolatto, Galveston (Ed. Intrínseca, 235 páginas). Temos aqui duas narrativas que se alternam: a primeira acontece em 1987, quando Roy Cady, assassino profissional a serviço da máfia, é enviado para realizar um serviço e se descobre vítima de uma emboscada, articulada pelo seu empregador, Stan Ptiko. Ele consegue escapar e, durante a fuga, se depara com Rocky, uma prostituta de 18 anos de idade; posteriormente, encontrará a irmã de Rocky, Tiffany, de 3 anos de idade. Com a máfia no encalço, essa improvável família fugirá em direção à Galveston, para tentar recomeçar suas vidas, num motel de beira de praia. A outra narrativa acontece em 2008, quando encontramos Roy solitário e desfigurado. A transição entre as duas narrativas estabelece uma significativa mudança de perspectiva em relação ao passado. Das ruínas de um santuário idealizado para onde fugir do inferno presente, torna-se o fiador de uma jornada de redenção. O historiador Brian Black, ao descrever as transformações industriais e ambientais na Pensilvânia, ocasionadas pela extração de petróleo em meados de 1860, cunhou o termo “paisagem sacrificial”: paisagem que deve morrer para que outra possa sobrevir. Se em True Detective a Luisiana descrita por Pizzolatto é a imagem viva do processo do Armagedom(http://www.theatlantic.com/technology/archive/2014/03/the-sacrificial-landscape-of-em-true-detective-em/284302/), gestado a partir da incorporação pela paisagem de todos os indícios de civilização remanescentes em locais que foram abandonados, em Galveston o apocalipse pessoal de Roy Cady já aconteceu, cedendo espaço à preparação de sua própria paisagem sacrificial. Em Galveston, partes do mundo devem morrer a fim de que o restante possa viver e prosperar, para o bem ou para o mal:

“Livre das cidades, o Texas se transforma em um deserto verde disposto a esmagá-lo com a sua vastidão, um pilão repleto de céu.”

“A ventania carrega a chuva em fortes rajadas, e as nuvens deixam a tarde tão escura quanto um vestido de viúva. O ar pesado está repleto de ozônio e água do mar. A atmosfera estala e crepita ao longe, e relâmpagos brilham sobre o oceano como se o céu tivesse engolido uma dinamite. Em sua borda arfante quase posso perceber outra escuridão, um tipo de negritude mais densa erguendo-se do horizonte em um formato que não sou capaz de imaginar.”

A escrita hábil de Pizzolatto nos conduz, juntamente com Roy, à sua epifania final:  ele se ofereceu em sacrifício para que as garotas pudessem viver uma nova vida. É pelo futuro das garotas que ele força o acerto de contas com Stan Ptiko e que deflagrará uma violência impiedosa que culminará nas “60 páginas finais mais dilacerantes da recente literatura norte-americana”, nas palavras do crítico Martim Vasques da Cunha.

“Você não sobrevive a certas experiências, e depois delas, não existe mais de forma plena, apesar de não ter morrido.”

“Minha sombra à frente é torta o bastante para ser confundida com algum crustáceo delgado que se arrastou do mar. Movendo-se para fora da história.”

O principal motivo pelo qual Galveston não se enquadra como representante do gênero é a ausência do estranho paradoxo que caracteriza a narrativa noir. O moto-perpétuo da modernidade é o desejo da vontade decaída de encontrar um bem absoluto que traga a felicidade. Diante do despojamento de significado atribuído a certa linguagem artística que remete à ideia do sagrado, um dos papéis fundamentais da grande arte é necessidade de restaurar significados, de restabelecer um código de vícios e virtudes esquecido neste mundo cada vez mais secularizado. Uma das formas de fazê-lo coube (ou caberia) à arte noir, com sua habilidade para evidenciar a sensação de que há algo de errado na condição humana (atmosfera de pesadelo criada pela temática sombria e personagens ambivalentes desorientam o espectador, que não encontra pontos de referência familiares a que se apegar) e induzir certa alienação às suposições otimistas racionalistas. A situação trágica do protagonista noir é a sua percepção de que o Universo não responde diretamente aos desejos humanos; o grande tema da arte noir é ausência que assombra o mundo, a morte de Deus. Ao expor as frustrações do homem moderno em suas tentativas de reformar a natureza e o mundo a fim de torná-los aceitáveis às suas necessidades e aos seus desejos, suavizando, destarte, as inconveniências da condição humana, revertendo os efeitos da Queda e criando um paraíso que eliminaria essa sensação de ausência, o grande mérito da arte noir é tornar evidente que o dualismo da modernidade não é o cartesiano – que opõe corpo e mente –, mas o dualismo que opõe a grandeza e a miséria do homem. Mas, eis o paradoxo: há uma espécie de determinismo do mal a configurar as narrativas sombrias: os personagens se encontram aprisionados por ações vis realizadas no passado e que os assombra no presente, cuja repetição os aguarda no futuro – um futuro, portanto, moldado pela violência do passado. O determinismo noir implica que o mal é mais do que o exercício da livre ação do protagonista. Ora, se somente seremos capazes de apreciar a redenção ao experimentarmos o quão perdidos estamos e o quão excelente é a restauração, o determinismo noir aprisiona seu protagonista na prisão inescapável da alienação; o mal irremível descortina a redenção impossível ou desnecessária: a tortuosa jornada do protagonista se torna inútil e, inevitavelmente, terminará em morte (física e/ou espiritual). Nas palavras de Thomas Hibbs, o noir é o “descortinar do torpor dogmático de que tudo é como deveria ser”.

A narrativa de Galveston não é uma narrativa noir, mas aquilo que pode ser chamado de neo-noir, ou narrativa de redenção: o protagonista experimenta árduo crescimento espiritual, cujo resultado final é tênue e associado à sensação dolorosa de custo e perda; ao acentuar o intervalo entre aparência e realidade e evidenciar as consequências destrutivas de certas ações, livremente escolhidas, oferece, do mesmo modo que a narrativa noir tradicional, visões sombrias acerca da condição humana em meio a uma jornada para recuperar um código perdido de vícios e virtudes. No entanto, não encerra seus personagens no mal absoluto, ao lhes oferecer também o vislumbre da possibilidade de redenção, mesmo que o preço seja o sacrifício.

“Eu estava errado quando disse para Rocky que você pode escolher o que sente. Não é verdade. Nem mesmo é verdade que você possa escolher quando vai sentir. O que acontece de fato é que o passado coagula como uma catarata ou uma casca, uma casca de lembranças sobre seus olhos. E, um dia, a luz atravessa.”

 

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