Paul Elie (citado por Gregory Wolfe em The Operation of Grace) define a peregrinação como uma jornada guiada por uma história ou evento marcante. O peregrino parte em busca de evidências, não apenas para validar o relato, mas para ser transformado pela experiência. Em Cavaleiro de Copas(Knight of Cups, 2015), de Terrence Malick, essa jornada é desencadeada por uma parábola narrada no início do filme, extraída de O Peregrino, de John Bunyan, e reforçada pela voz do pai do protagonista (Brian Dennehy):

“Lembra-se da história que eu contava quando você era menino? Um jovem príncipe, enviado pelo Rei do Leste ao Egito para encontrar uma pérola no fundo do oceano. Ao chegar, ele bebeu uma poção que o fez esquecer quem era, esquecer a pérola, e caiu em sono profundo. Mas o Rei nunca esqueceu seu filho.”

Essa parábola molda a trajetória de Rick (Christian Bale), um roteirista de Hollywood perdido em uma vida de excessos e relações fugazes. A representação do oceano aqui assume um significado distinto daquele presente em obras anteriores de Malick: se em The Thin Red Line (1998) e The Tree of Life (2011) simbolizava a pureza primordial e a conexão cósmica, assume aqui um significado mais ambivalente: é o lugar do esquecimento, da pérola perdida, mas também da possível redenção. Também ambivalente é a representação do deserto, que pode simbolizar tanto a vastidão do espírito quanto o vazio da existência moderna.

Diferentemente de heróis romantizados que encontram epifanias sozinhos, o peregrino de Malick não viaja solitário: a verdadeira jornada exige abertura ao transcendente e ao outro, um compromisso com relações autênticas que contrarie a superficialidade de uma “terra desolada” marcada por ambição e promessas vazias. Esta mudança é revelada na própria representação da água: enquanto em The New World (2005) os rios eram espaços de comunhão com o divino, aqui as praias de Los Angeles aparecem como cenários de fuga e isolamento, filmados com a mesma beleza etérea de Emmanuel Lubezki, mas carregados de uma melancolia ausente nos trabalhos anteriores do diretor.

A fragmentação da identidade, um tema central, é expressa na confissão de Rick: “Todos esses anos, vivendo a vida de alguém que não conhecia.” Malick ilustra essa desorientação com uma narrativa não linear, imagens etéreas capturadas pela câmera flutuante de Lubezki e uma narração em voice-over que reflete os pensamentos desconexos do protagonista. A memória, que em The Tree of Life fluía como um rio contínuo entre passado e eternidade, aqui se apresenta como um mar revolto de flashes desconexos – a água, antes símbolo de unidade, torna-se espelho da dissolução do self.

Cavaleiro de Copas é, assim, uma peregrinação visual e espiritual. As imagens assombrosas – festas opulentas, desertos áridos, ondas quebrando – contrastam o efêmero com o eterno. A trilha sonora, com peças de Arvo Pärt e Bach, reforça a busca por transcendência. Notavelmente, a evolução do tratamento da água na obra de Malick – de elemento unificador a símbolo da desintegração – espelha sua transição temática: da harmonia cósmica para a alienação contemporânea. Malick constrói uma narrativa que rejeita o clichê moderno de que “o importante é a jornada”: para o cavaleiro, só há redenção quando ele reconhece seu destino, quando a peregrinação culmina não em um mero desfecho, mas no renascimento. O verdadeiro ponto de chegada é o início de sua vida.

3 respostas para “A pérola esquecida: a peregrinação do Cavaleiro de Copas”.

  1. carlos, conseguiu assistir por onde este filme do Malick? parece-me que ainda não foi lançado no Brasil…

    Curtir

    1. Não, de fato não foi – e provavelmente, na melhor das hipóteses, ganhará sabe-se lá quando uma edição nacional. Comprei pela Livraria Cultura uma edição importada, com legendas em inglês.

      Curtir

  2. Assisti no Netflix (uma pena não ter sido lançado nos cinemas nacionais). Belo comentário. “Ao contrário do que apregoa o mantra moderno, não é a jornada que importa, mas o ponto de chegada. O ponto de chegada do peregrino, interpretado por Christian Bale, é o início de sua Vida”. Preciso pensar sobre isso, pois não deixa de ser um belo mantra moderno.

    Curtir

Deixar mensagem para Lucas Petry Bender Cancelar resposta

Tendência