Aborto

Um embrião é pessoa ou coisa? Não basta dizer que é somente um “amontoado de células” porque…não somos todos?
Não precisamos recorrer `a religião para pensar sobre o assunto, podemos considera-lo em termos “laicos”. Abortar (ou não abortar) é uma escolha, uma ação. Toda ação depende de crenças. Crenças são horizontes possíveis da expectativa de uma ação (Stephen Tolmin). A partir da crença A, moldo minhas ações de modo B: “Hoje é feriado, se o mercado estiver aberto farei compras, caso contrário deixarei para amanhã”.
Dito de outro modo: acreditar em uma proposição significa moldar deliberadamente a ação em conformidade com essa proposição. Mesmo aquele que duvida de tudo acredita em algo: que nada é crível.
Quando olhamos para um edifício, podemos encontrar suas bases de sustentação; podemos igualmente tentar apreender os fundamentos lógicos que formam o arcabouço de justificativas para as ações: pois, a partir de determinados fundamentos, formulamos horizontes de ações coerentes.
Há duas crenças básicas sobre as quais o abortista erige sua argumentação.
A primeira é a de que o embrião é desprovido de valor intrínseco. A segunda é a de que o embrião é desprovido de valor relativamente `a autonomia da mulher. A partir de uma ou de outra premissa, a extirpação do embrião pode ser justificada da mesma forma que se joga fora a casca de uma banana. Pela primeira crença, nega-se ao embrião estatuto moral; pela segunda, o embrião é visto como paciente moral cujas exigências ou necessidades são, no entanto, limitadas pela soberania da mulher e o destino de seu corpo. Para ambos os casos, a plena imoralidade, que caracteriza o ato de matar uma pessoa, não se estende ao amontoado de células que se desenvolve dentro do útero.
Ao não reconhecer o valor intrínseco do embrião – portanto, ao não reconhecer sua humanidade -, o abortista o iguala a coisas; cascas de bananas não exibem valores por si mesmas. Para sustentar a primeira crença, o abortista alega que os métodos científicos atuais são (e provavelmente sempre serão) incapazes de validar os atributos que asseguram uma natureza humana; sob essa perspectiva, o abortista ignora que a distinção entre aquilo que é humano e o que não é não é da alçada da ciência, mas da antropologia filosófica. Partindo desse pressuposto, o abortista transforma a questão da humanidade do embrião em mera “aposta”.
Ao reconhecer que o valor do embrião está subjugado `a vontade da mulher – “meu corpo, minhas regras” -, o abortista evidencia seu encarceramento espiritual na ilusão de autonomia total, no menosprezo a tudo aquilo que contraria suas vontades. A liberdade individual desestruturada – porque incapaz de reconhecer a existência de uma hierarquia de virtudes – confunde-se apenas com soberania para escolher.
Pensar acerca do que vem a ser a natureza humana, a partir de uma antropologia de circunstâncias, deduzida das duas crenças mencionadas, apequena-se (acovarda-se?) como mera declaração de direitos.

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