Anatomy of a Fall, filme de 2023 dirigido por Justine Triet, é um drama psicológico que subverte as convenções do gênero de filmes de tribunal, ao utilizar o julgamento como um dispositivo para explorar a fragilidade da verdade e a complexidade da subjetividade humana. A narrativa acompanha Sandra, escritora alemã que vive com o marido, Samuel, e o filho cego, Daniel, em um chalé isolado nos Alpes franceses. Quando Samuel é encontrado morto em circunstâncias misteriosas, a investigação fica numa encruzilhada entre suicídio e homicídio, e Sandra torna-se a principal suspeita e é encaminhada para julgamento por assassinato. Longe de oferecer respostas definitivas, o filme mergulha na intimidade da personagem e desafia o espectador a confrontar a impossibilidade de conhecer plenamente a verdade.

Filmes de tribunal frequentemente seguem dois caminhos narrativos: ou o processo judicial desvela fatos ocultos e permite que a justiça reorganize o caos e revele a verdade, ou o sistema frustra essa busca – não por desconhecimento da verdade, mas por sua incapacidade (ou recusa) de acomodá-la. Em ambos os casos, a verdade, ainda que problemática, é apresentada de modo conclusivo ao público. Anatomy of a Fall, entretanto, desmonta essas convenções. O julgamento não funciona como um mecanismo de resolução narrativa, mas como catalisador para explorar a subjetividade e a intimidade. O tribunal transforma-se em um espelho da ambiguidade humana, onde gestos banais, discussões conjugais e falhas pessoais são descontextualizados e reinterpretados como indícios de culpa ou inocência.

Sob o escrutínio implacável do processo, cada detalhe da vida de Sandra – uma atitude impulsiva, uma fala interrompida, um olhar enviesado – é amplificado e distorcido. Triet ilustra, assim, o que Milan Kundera descreve como a “vontade inata e indomável do ser humano de julgar antes de compreender”, um impulso que busca um mundo onde bem e mal sejam nitidamente discerníveis. Essa tendência manifesta-se não apenas no promotor, que constrói uma narrativa acusatória a partir de fragmentos, mas também nos vizinhos, na mídia e até no público, que é sutilmente levado a formar julgamentos precipitados sobre Sandra. O filme sugere que a verdade não é uma entidade monolítica, mas um constructo frágil, moldado por perspectivas limitadas e pela necessidade de atribuir significado ao caos da existência.

Em três momentos-chave, Anatomy of a Fall aborda a tensão entre fato e ficção, a fronteira entre a vida real e a narrativa que construímos sobre ela. Sandra, como escritora, vive na intersecção entre sua obra literária e sua vida pessoal, uma dualidade que o tribunal amplifica ao tratar suas palavras e ações como pistas de um crime potencial. Essa reflexão ecoa o discurso de Javier Marías em 1997, ao receber um prêmio pelo livro “Amanhã, na batalha, pensa em mim”. Marías argumenta que a ficção permite reelaborar experiências, integrando novas revelações que desafiam nossa percepção original de um evento:

“Quando descobrimos que algo não era como o vivenciamos – um amor ou uma amizade, uma situação política ou uma expectativa comum –, nos aparece na vida real este dilema que tanto pode nos atormentar e que é em grande medida o território da ficção: já não sabemos como vivemos o que vivemos.”

Para Sandra, o julgamento exige que ela revisite e justifique momentos de sua vida que, sob o olhar cotidiano, pareciam triviais, mas que no contexto do tribunal ganham proporções incriminatórias. Daniel, o filho cego de Sandra e Samuel, é uma figura central na narrativa, embora sua presença seja sutil. Sua incapacidade de enxergar os eventos que culminaram na morte do pai reflete a condição universal de perspectiva limitada. No entanto, é exatamente sua limitação que o torna um observador único: desprovido da capacidade de julgar pelas aparências, Daniel baseia-se em memórias auditivas e emocionais para formar sua visão dos fatos. Seu testemunho, influenciado por essa reconstrução subjetiva, é um dos elementos mais comoventes do filme, pois revela tanto a profundidade de seu amor pela família quanto a fragilidade de qualquer tentativa de capturar a verdade. A cegueira de Daniel, portanto, não é apenas uma característica física, mas uma metáfora para a parcialidade inevitável de toda percepção humana.

Ao final, Sandra reflete sobre o “sabor amargo da vitória”, a ironia de sua “absolvição”: a vitória no tribunal não restaura a ordem nem apaga o trauma; pelo contrário, expõe a fragilidade das relações humanas e a solidão de carregar uma verdade que nunca será plenamente compreendida pelos outros. Anatomy of a Fall transcende o caso particular de Sandra para refletir sobre a condição humana: somos seres limitados, condenados a interpretar o mundo através de fragmentos, mas compelidos a criar significado mesmo diante do desconhecido. Triet nos lembra que a verdadeira coragem está em abraçar essa ambiguidade e seguir adiante, carregando o peso de nossas narrativas imperfeitas.

2 respostas para “Anatomia de uma Queda: desmontando a verdade.”.

  1. Carlos, que grata surpresa tive hoje ao abrir minha caixa de e-mails. O Espaço do Pensamento voltou!! Gosto muito da maneira que você escreve. Coincidentemente, assisti este filme recentemente e fiquei muito impactada. Principalmente com a situação do filho que, apesar de amar muito o pai e querer conhecer a verdade, precisava muito que a mãe fosse inocente. E até arriscou a vida do seu cão para que isso acontecesse. E se convenceu através de uma conexão fraca entre o comportamento do cão no dia da “tentativa de suicídio” do pai e a quase morte do cão causada por ele mesmo. Ele precisava que aquilo fosse verdade.
    Obrigada pelos insights. Grande abraço.

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    1. Olá! Fiquei com vontade de escrever sobre esse filme, então, vamos chamar de um “retorno provisório”do Espaço rsrsrs! Você tem razão, o menino estava disposto a pagar o preço pela verdade – um comportamento cada vez mais raro nos dias de hoje.

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