0 péssimo

⭐️ ruim

⭐️⭐️ regular

⭐️⭐️⭐️ bom

⭐️⭐️⭐️⭐️ ótimo

⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️ excelente

Fúria Primitiva (Monkey Man, 2024), direção de Dev Patel.

⭐️⭐️

Trata-se de um John Wick temperado com garam masala. Boa estreia de Dev Patel como diretor, mas não muito boa no roteiro. Se se restringisse apenas à trama de vinganca, seria um grande filme. Mas, ao fetichizar o sofrimento e glamorizar a pobreza numa subtrama política infestada de clichês ruins, o filme perde força.

Objetos Obscuros (Oddity, 2024), direção de Damian McCarthy.

⭐️⭐️⭐️

McCarthy sabe como desenvolver a tensão (entendida como um estado emocional menos específico, deflagrado pelo antecipação de diversos desfechos possíveis) a partir de ambientes e objetos específicos. A fotografia e a edição de som auxiliam na construção da atmosfera. O filme perde pontos somente porque não elabora adequadamente a mitologia justamente daquilo que o sustenta (o elemento sobrenatural). Mas é um dos grandes filmes de terror de 2024, junto de Longlegs e A Primeira Profecia.

The Killer (idem, 2024), direção de John Woo.

⭐️⭐️⭐️⭐️

Em um mundo hostil e violento, onde as instituições ou são corruptas ou inoperantes, os personagens caídos de John Woo buscam a redenção (o renascimento espiritual) por meio do auto-sacrifício, pelo estabelecimento de vínculos com seus “sósias” (isso implica no reconhecimento de que a dualidade bem x mal é ilusória, de que há mais semelhanças entre os oponentes do que gostariam de admitir – vemos isso na fusão literal das imagens dos rostos da “vilã” e do policial, no momento do impasse em que as armas se apontam); é a procura pela Graça entre as ruínas. Ótimas cenas de ação – marca registrada de John Woo, coreografadas operisticamente. É o seu melhor filme americano – ainda que uma releitura de seu filme de 1989 de mesmo nome.

Prenda a Respiração (Hold your Breath, 2024), direção de Karrie Crouse e William Joines.

⭐️⭐️

O filme traz ecos e temas de outros  (The Wind, 2018; The Others, 2001; Take shelter, 2011), e cuja força se sustenta na atuação de Sarah Paulson. Tem alguns momentos bem-realizados (como a primeira aparição do pastor) e uma cena final interessante, mas perde força porque sua ambiguidade é descartada muito rapidamente.

Cuckoo (idem, 2024), direção de Tilman Singer.

⭐️

Filme tropeça em suas pretensões. Há inúmeros problemas: a ambiguidade, que no início desperta interessa, se desfaz em confusão e beira o ridículo; a trama flerta com o sobrenatural, para logo em seguida insinuar um horrorzinho psicológico, e terminar em nonsense biruta – surgem pitadas de comicidade (completamente deslocadas), e até um cientista maluco. Os personagens, à exceção da protagonista, são completamente estereotipados. A edição de som é irritante, em vez de ser assustadora. Uma ou outra cena instigante, apenas; pouco aproveitável, nem como passatempo.

Tár (idem, 2022), direção de Todd Field.

⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️

Este filme ainda vai ser reavaliado no futuro como um grande revelador das corrupções morais e espirituais que caracterizam a nossa época.

Enganam-se os críticos que afirmam que seu tema é a tal da “cultura do cancelamento”. Tár retrata inúmeras perversões:

☑️ a do papel do artista tomado pela hubris e que perde de vista seu horizonte moral;

☑️ a da finalidade da arte, guardiã do Bem e do Belo, transformada em jogo de poder;

☑️ a de uma cultura intoxicada por visões limitadas da função da arte.

Todd Field exibe as influências tanto de Stanley Kubrick quanto de Michael Haneke numa obra subversiva e perturbadora, com um dos melhores finais dos últimos anos.

Profissão, Ladrão (Thief, 1981), direção de Michael Mann.

⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️

De acordo com Mark Steensland, os protagonistas de Michael Mann apresentam 3 qualidades:

1) total devoção ao que fazem (símbolo de suas crenças numa independência irrestrita e radical);

2) a aceitação de um pacto pelo qual acreditam que os permitirá obter aquilo que lhes falta;

3) a revelação de que esse pacto, ao limitar sua liberdade, os levará à ruína.

Em última análise, essa tríade implica que os protagonistas de Mann creem controlar a realidade, ou seja, habitam um simulacro. Logo nas primeiras cenas de Thief, Michael Mann prefigura essa confusão entre realidade e simulacro ao compor imagens impressionistas e abstratas nas quais uma rigorosa geometria do espaço é intercalada com formas borradas. A ilusão do protagonista Frank é demonstrada numa das miragens Mannianas: a colagem de fotografias que ele carrega na carteira; é a sua ideia de uma vida ideal, é o que ele almeja. Ilusória é a sua convicção de que a realidade pode ser manejada através de uma disciplina (“you’ve got to get where nothing means nothing”) – sem perceber que tal “filosofia” é justamente o que o impede de estabelecer vínculos, é justamente essa disciplina de sobrevivência que o levará a abandonar esposa e filho e a destruir sua tão desejada e idealizada vida suburbana.

Matrix Resurrections (idem, 2021), direção de Lana Wachowski.

⭐️

Este Matrix deveria se chamar “evolutions”: evolui rapidamente de peça subversiva para uma paródia rasa, culminando com sentimentalismo bobo. Temos reciclagens preguiçosas e cenas de ação pouco inspiradas. Falta à diretora uma visão de mundo robusta, que atualize os temas propostos lá no distante ano de 1999, pelo primeiro filme. Passados todos esses anos, restou somente uma caricatura enfadonha.

A Substância (The Substance, 2024), direção de Coralie Fargeat.

⭐️⭐️⭐️⭐️

Artificialidade, vaidade e voyeurismo culminando em horror metafísico, representados de modo expressionista. Um filme subversivo e alucinado – e que termina com a imagem de Medusa na calçada.

Crimes Obscuros (Retribution / Sakebi, 2006), direção de Kiyoshi Kurosawa.

⭐️⭐️⭐️⭐️

Kiyoshi Kurosawa é um cineasta de espaços, tanto pelas composições quanto pelo papel central que ocupam em seus filmes. Neste filme, é por causa da devastação de lugares específicos (uma área portuária, um sanatório, um apartamento), transformados em lama encharcada por água salgada, que será deflagrada a vingança. O horror se concretiza quando percebemos que não se trata de um “mal ativo”, que corrompe, mas que a destruição se deu não apenas pelo aspecto físico (abalos sísmicos, construções apressadas), mas moral (a invisibilidade do real pela recusa do protagonista e das vítimas numa tomada de posição). Por essas ruínas caminham sonâmbulos que precisam reaprender a olhar – o seu entorno e a si mesmos; não à toa a aparição do fantasma é mediada por espelhos. Trata-se, portanto, de um chamado à responsabilidade. Eis um dos melhores cineastas em atividade.

Folhas de Outono (Fallen Leaves, 2023), direção de Aki Kaurismaki.

⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️

“You are born alone. You die alone. The value of the space in between is trust and love. That is why, geometrically speaking, the circle is one. Everything comes to you from the other.” (Louise Bourgeois).

Aki Kaurismaki filma os encontros e desencontros de seus personagens, que trabalham em subempregos, para mostrar a alteridade como antídoto à solidão interior. Às vidas cinzentas dos protagonistas contrapõem-se as cores vivas dos cenários – uma realidade colorida na marra. Os medos, anseios e os conflitos dos personagens são descritos pelas músicas.

O filme narra um relacionamento nos moldes do cinema clássico, sem arroubos melodramáticos, com humor seco como as folhas de outono, formalmente minimalista. E ainda presta pelo menos duas homenagens à Charles Chaplin.

2 respostas para “Revisões curtas (4)”.

  1. Avatar de Cleberson Benevenutto
    Cleberson Benevenutto

    Que maravilha que você voltou a escrever, Carlos. Sempre gostei muito dos seus textos. Comecei a acompanhá-lo por causa do Dionisius se não me engano, lá no idos de 2009/2010.


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    1. Olá, obrigado pela atenção e gentileza. Não sei se manterei uma frequência relativamente assídua, mas a ideia é retomar a escrita aos poucos.

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