
Em um entrevista para Harvey Chartrand (Shock Cinema, 2005), quando perguntando sobre o que aprendeu sendo assistente do diretor John Sturges (Fugindo do Inferno, 1963), John Flynn respondeu que havia aprendido “simplicidade”. Ele acrescentou: “John Sturges sabia exatamente onde posicionar a câmera”. The Outfit mostra que Flynn aprendeu bem essa lição.
The Outfit (A Quadrilha, 1973) é uma aula de precisão cinematográfica. Trata-se de uma adaptação de um dos romances com o protagonista Parker escritos por Richard Stark. Neste filme, o nome Parker foi substituído para Earl Macklin, interpretado por Robert Duvall – um ladrão profissional cuja busca por vingança contra uma organização criminosa revela um código de conduta bastante rígido. Com a estética crua dos anos 70 e uma direção que transformou espaços apertados em labirintos de tensão – justamente por conta do posicionamento das câmeras e da escolha específica dos frames – The Outfit é um marco subestimado, cujas influências ecoam em cineastas tão diferentes como Quentin Tarantino e, especialmente, Michael Mann.
A Arte da Economia
Flynn é um mestre da economia narrativa, orquestrando cenas de ação em ambientes claustrofóbicos com uma câmera que acompanha tudo e permite que o espectador vislumbre toda a geometria da ação. A sequência final, onde Macklin e seu parceiro Cody (Joe Don Baker) invadem a mansão do chefão Mailer, é um exemplo brilhante: o espaço vira um campo de batalha, com ângulos que sugerem um cerco inevitável. Não é difícil traçar um paralelo com o clímax de Thief (1981), de Michael Mann, onde a residência do antagonista também se torna um palco para a execução de uma vingança meticulosa. A influência de Flynn, com seus enquadramentos precisos, é inegável. O som, quase desprovido de trilha, amplifica a brutalidade: cada tiro e passo ressoa como um manifesto de realismo.

Macklin e o Ofício do Crime
No centro da narrativa está Earl Macklin, vivido por Duvall com uma intensidade contida que oscila entre frieza e humanidade. Diferente do Parker literário, a substituição para o nome Macklin permitiu que Duvall e o roteirista (no caso, o próprio diretor John Flynn) injetassem um certo humor seco e até ternura (especialmente com Bett, interpretada por Karen Black, a despeito da cena em que Macklin a esbofeteia várias vezes; vamos devagar com o que entendemos como “ternura”). Mas é seu código profissional que o define e que o assemelha ao Parker dos livros. Por essa razão, ele trata a vingança como uma questão de justiça. Esse código que visa o profissionalismo tem por objetivo evitar ser capturado, mas resulta numa perspectiva interessante: transforma, aos olhos do criminoso, o crime em um ofício, quase indistinto de uma carreira convencional — uma ideia que ressoa nos anti-heróis de Mann (Frank em Thief ou Neil McCauley em Heat). Assim como esses personagens, Macklin paga um preço por sua ética: o isolamento, a desconfiança constante e a impossibilidade de uma vida além do “trabalho”. Cody é Eddie (irmão de Macklin, cuja morte deflagra a busca pela vinganca) conseguiram se libertar desse código, em graus distintos, e vislumbraram uma possibilidade de (tentar) escapar dessa vida.
A Textura dos Anos 70
A fotografia de The Outfit é puro suco estético dos anos 70. Com tons granulados e iluminação natural, o filme parece capturar o mundo real — uma qualidade que faz os thrillers modernos, com sua limpeza digital, parecerem artificiais em comparação. Mas cenas iniciais, quando Macklin está saindo da prisão, você vê todo aquele ambiente escuro e decadente e acredita que aquilo é real. Essa crueza reflete o contexto da Nova Hollywood. The Outfit dialoga com contemporâneos como Point Blank (1967) e The Friends of Eddie Coyle (1973), mas se destaca pela secura de Flynn, que dispensa moralismos para focar na mecânica do crime.

Um Legado Silencioso
The Outfit não é apenas uma história de vingança; é uma meditação sobre o que significa ser um profissional em um mundo traiçoeiro. A organização criminosa, com sua lógica corporativa, espelha as falhas do sistema capitalista, enquanto Macklin, o “autônomo”, resiste com sua ética individualista. Essa tensão antecipa o neo-noir de Mann, onde o crime é elevado a uma forma de arte trágica. O filme, embora menos celebrado que outros clássicos da época, deixou um legado sutil, moldando a forma como vemos o anti-herói profissional — um homem cujo domínio do ofício é sua maior força e sua maior prisão.
The Outfit é um thriller “casca grossa” que não sacrifica inteligência por violência. Flynn, Duvall e um elenco afiado (com destaque para Baker e Black) criam um mundo onde o crime é tão metódico quanto qualquer profissão, mas igualmente destrutivo. Sua influência, de Tarantino a Mann, prova que a economia de Flynn não é sinônimo de simplicidade, mas de maestria. E o mais espetacular: a obra-prima de John Flynn viria a seguir, seu próximo filme chamado Rolling Thunder.
PS: nessa mesma entrevista de John Flynn que mencionei no início da resenha, ele diz que o final “otimista” foi uma imposição do estúdio.
PS2: é um equívoco da crítica especializada dizer que Macklin serviu de protótipo para os filmes da série John Wick, ou os filmes de ação de Liam Neeson – pelas razões mencionadas na resenha acima. (Sergio Alpendre: “protótipo para os filmes tipo John Wick, ou os veículos para Liam Neeson”).










Deixar mensagem para jasminafritter1998 Cancelar resposta