Título: Straw Dogs (Sob o Domínio do Medo)

Diretor: Sam Peckinpah

Ano de Lançamento: 1971

Elenco Principal: Dustin Hoffman (David Sumner), Susan George (Amy Sumner), Peter Vaughan (Tom Hedden), T.P. McKenna (Major John Scott), Del Henney (Charlie Venner)

Duração: 118 minutos

País de Produção: Reino Unido / Estados Unidos

Resumo: David Sumner, um matemático americano, e sua esposa Amy, inglesa, mudam-se para a zona rural da Cornualha, na Inglaterra, onde ela cresceu. Eles contratam trabalhadores locais para reparar sua fazenda. Tensões aumentam com assédios dos moradores em relação a Amy, culminando em um estupro dela por dois dos homens. Mais tarde, David protege Henry Niles, um homem local com deficiência intelectual acusado de um crime, levando a um cerco à fazenda pelos aldeões. David defende a propriedade com armadilhas e violência.

Lançado no Brasil pela Versátil em Bluray no box Peckinpah Essencial.

Pauline Kael, revista The New Yorker, janeiro 1972:

“Sam Peckinpah, que é um artista, fez, com Straw Dogs, o primeiro filme americano que é uma obra de arte fascista.”

Sam Peckinpah, em entrevista à revista Playboy, 1972:

“Acredito muito na catarse. Você acha que as pessoas assistem ao Super Bowl por que acham que o futebol americano é um esporte bonito? Bobagem! Elas estão cometendo violência indiretamente. Veja bem, a antiga base da catarse era a purgação das emoções por meio da piedade e do medo.”

“Não estou dizendo que a violência é o que faz um homem ser homem. Estou dizendo que, quando a violência surge, você não pode fugir dela. Você precisa reconhecer sua verdadeira natureza, tanto em você mesmo quanto nos outros, e enfrentá-la. Se você fugir, estará morto ou será como se estivesse.”

“Sou basicamente um contador de histórias. Já nem tenho a certeza do que acredito. Uma vez, dirigi uma peça de Saroyan em que uma das personagens perguntava a outra se morreria por aquilo em que acreditava. A resposta foi: ‘Não, posso estar errado’. É assim que me sinto.”

Nenhum cineasta de Hollywood impregnou a narrativa clássica com mais ambivalência e desespero do que Sam Peckinpah (1925-1984), e sua realização nunca foi tão audaciosa como em Straw Dogs. É um filme difícil de assistir, pois não apenas instiga o espectador a conhecer seus personagens em ação, mas também o leva a questionar cada escolha que fazem sobre questões de vida e morte, amor e sexo. Peckinpah estava interessado em explorar a psicologia de seus personagens (e, por sua vez, examinar questões humanas mais amplas), e ele fez isso primeiro dando-lhes vida e depois colocando-os em situações dramáticas.

A função narrativa da violência em Straw Dogs relaciona-se com os conceitos de catarse e a função da tragédia que Martha Nussbaum desenvolve em Tragedy and Self-Sufficiency: Plato and Aristotle on Fear and Pity (1992) e A Fragilidade da Bondade (1986). Ao contrário do que acredita Peckinpah, a catarse não é a purgação das emoções pelo medo e piedade, confome ele relatou em sua entrevista à revista Playboy, mas “uma limpeza ou esclarecimento a respeito de experiências do tipo medo e piedade”. Não se trata de eliminar ou purgar as emoções, mas de processá-las discursivamente para remover obstáculos como ignorância, autoengano ou paixão descontrolada, levando a um entendimento mais profundo das causas e consequências das ações humanas. Na Poética de Aristóteles, a catarse ocorre através da estrutura da trama (mythos), que evoca medo e piedade para que o espectador reconheça padrões de hamartia (erros) e vulnerabilidade; é um “aprendizado emocional” que alarga a visão do mundo. A tragédia esclarece a vida e seus valores. Ao contrário do que muitos críticos pensam, Straw Dogs não é nem fascista nem misógino, e nem glorifica o personagem de Dustin Hoffman. As cenas violentas, esteticamente elaboradas pela encenação e pela montagem, nos fazem refletir sobre violência física e psicológica. O que Peckinpah faz, intencionalmente ou não, é pedir-nos para pensar — e até tentar compreender — por que razão essas personagens específicas se comportam da forma como se comportam, dadas as suas características e circunstâncias particulares, e para nos questionarmos sobre as questões morais apresentadas, para nos perguntarmos como reagiríamos diante de circunstâncias semelhantes. Através da exibição da violência, Peckinpah está pedindo aos espectadores que enfrentem seus próprios medos e agressividade, que se perguntem, em vez de eliminá-los completamente, o que não é possível, como podemos conviver com tais sentimentos e controlá-los de maneira adequada.

Ronald Felten Jr. (Just Say No: Authority, Disobedience, and Individuation in Some of Sam Peckinpah’s Minor Films, 2017) aponta que: “especificamente, o que torna Straw Dogs uma tragédia, no sentido aristotélico, é que David, em particular, comete erros constantemente, o que acaba levando ao cerco (e, possivelmente, à sua queda moral ou colapso).” A ideia de hamartia, ou os erros de David, torna o filme e o personagem trágicos: ele não reconhece seus erros à medida que os comete e, por sua vez, não consegue antecipar as consequências. David não é um vilão no sentido tradicional; ele não só tem defeitos (por exemplo, é emocionalmente indisponível, paternalista etc.), como também é ignorante em relação a esses defeitos. Sua ignorância e impotência isolam-no dos outros, especialmente de sua esposa, Amy. Os erros de David impulsionam a ação do filme, ou seja, cada “erro” intensifica o drama e leva os personagens ao confronto. A sensação de alienação e até mesmo de desesperança que Peckinpah cria é considerável — tanto Amy quanto David são apresentados como tão emocionalmente abalados que sentimos que não há esperança de redenção ou recuperação.

O desconhecimento de David sobre o estupro de Amy, e sua responsabilidade por isso (na verdade, a sua responsabilidade por quase todos os eventos que ocorrem com o casal) afastam-no ainda mais e, por sua vez, intensificam tanto o drama narrativo quanto aumentam a pena que sentimos por David, embora ele seja o único responsável por sua condição e situação. Durante o ataque à fazenda Trencher, ele se coloca no mesmo nível do barbarismo do bando de Venner. É claro que Venner e seus amigos não precisavam atacar a fazenda, mas o comportamento de David em relação a eles — e, mais importante ainda, em relação a Amy — torna esse desfecho cada vez mais provável, se não inevitável, à medida que a narrativa avança. Amy percebe a semelhança entre a forma como é tratada por David (violência psicológica) e a forma como é tratada por Venner e seu bando (violência física). Isso fica evidente nos flash-cuts utilizados por Peckinpah: a montagem do filme intercala as imagens de David e Venner em momentos de violência contra Amy e também quando ela se recorda desses momentos.

David, portanto, está longe de ser um herói. Ele é um homem patologicamente reprimido que perdeu o controle de si mesmo, dando vazão a uma raiva contida em si que não conhecia, ou julgava não apresentar. Lentamente, perde o controle de seu próprio idealismo ou, no mínimo, deixa de reconhecer as consequências de suas ações e, por sua vez, deixa de reconhecer a si mesmo. Isso é demonstrado tanto por sua frase ambígua, no cerco final na fazenda – “Jesus, eu matei todos eles” – quanto por sua confissão a Niles, no final do filme: quando Niles diz a David que não sabe como encontrar o caminho de casa, David admite que ele também não sabe. David se perdeu. Ele estranha a violência que encontrou dentro de si mesmo. 

Não há, em Straw Dogs, a celebração de um código de honra masculino: David está alienado de si mesmo; ele desumanizou-se por sua própria responsabilidade, por suas escolhas — e, por essa razão, é um personagem trágico. Ele acredita ter escolhido e agido de maneira errada, consequentemente, se tornou algo diferente de seu eu idealizado, e mergulhou no caos existencial. Não é um guia moral para ninguém; muito menos uma abstração. Quando David sai “vitorioso” após o ataque à fazenda, as diferenças e o trauma compartilhado entre ele e Amy permanecem irreconciliáveis. Embora ele consiga repelir os aldeões e seja, por um lado, “bem-sucedido”, ele e Amy permanecem separados, tanto emocional quanto fisicamente; mais uma vez, não há esperança de reconciliação entre eles – tanto que David deixa Amy sozinha (enquanto leva Niles para a cidade) em sua casa ensanguentada, antes dos créditos finais rolarem. 

Em “Straw Dogs”, Sam Peckinpah constrói uma tragédia moderna que desmonta as ilusões sobre heroísmo, masculinidade e redenção. David Sumner não é um homem que encontra sua verdadeira natureza através da violência; é alguém que descobre sua própria capacidade de destruição. Sua “vitória” é ambígua. Peckinpah é um cineasta da ambiguidade. O filme permanece perturbador não pela violência que exibe, mas pelo questionamento acerca da violência pode existir em nós. Quando David confessa a Niles que também não sabe o caminho de casa, Peckinpah nos sugere que a violência não purifica, não ensina, não redime; apenas revela o que sempre esteve lá, esperando as circunstâncias certas para emergir. 

2 respostas para “Straw Dogs: Anatomia de uma Tragédia”.

  1. Avatar de ELIZABETE CRISTINA PINTO
    ELIZABETE CRISTINA PINTO

    Admiro a forma como você escreve, suas análises são sempre muito bem estruturadas, trazendo uma visão muito enriquecedora sobre os filmes. Parabéns pelo excelente trabalho! 🙂

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