Another Earth (2011), dirigido por Mike Cahill, é uma meditação sobre culpa, identidade e a possibilidade de redenção, utilizando a ficção científica como lente para explorar questões humanas profundas. A protagonista, Rhoda Williams (Brit Marling), é apresentada em flashbacks granulados como uma jovem vibrante, recém-aceita no programa de astrofísica do MIT. Cheia de promessas, ela se descreve em narração off como “desgovernada”, confiante e onipotente. Porém, sua trajetória é interrompida por um trágico acidente: ao tentar vislumbrar um misterioso planeta recém-descoberto — uma segunda Terra oculta atrás do Sol —, Rhoda, dirigindo alcoolizada, colide com a van de John Burroughs, um compositor, matando sua família e deixando-o em coma. Condenada a quatro anos de prisão, ela emerge transformada, mas não redimida, confrontada por um abismo entre o passado idealizado e o presente fragmentado.

O trauma, como sugere Jonathan Haidt em The Happiness Hypothesis, “anula nossos sistemas de crenças, roubando-nos nossa noção de significado”. Para Rhoda, o acidente destrói sua autoimagem de jovem prodígio, substituindo-a por culpa e autodesprezo. Após a prisão, ela se isola, trabalhando como faxineira em uma escola secundária – um ato de autopunição que reflete sua incapacidade de se reconciliar com o passado. A descoberta de que o misterioso planeta é uma réplica exata da Terra intensifica sua crise existencial: seria possível, em um mundo paralelo, reescrever sua história, escapar das consequências de suas ações?

Aqui, o filme dialoga com a reflexão de Javier Marías, que, em seu discurso de premiação pelo romance “Amanhã, na batalha, pensa em mim”, argumenta que a identidade humana é composta não apenas pelo que realizamos, mas também pelo que perdemos, pelas possibilidades não concretizadas e pelos “desejos irrealizados“.

“E quase sempre nos esquecemos de que a vida das pessoas não são somente isso (somente o que aconteceu, o que realizamos e o que conseguimos): cada trajetória se compõe também de nossas perdas e de nossos desperdícios, de nossas omissões e de nossos desejos irrealizados, do que uma vez deixamos de lado ou não escolhemos ou não atingimos, das numerosas possibilidades que em sua maioria não chegaram a se realizar – todas menos uma, afinal de contas -, de nossas vacilações e nossas fantasias, dos projetos frustrados e dos desejos falsos ou débeis, dos medos que nos paralisaram, do que abandonamos e do que nos abandonou. Nós talvez consistamos, em suma, tanto do que somos como do que não fomos, tanto do que pode se comprovado e quantificado e rememorado, quanto do mais incerto, indeciso e difuso, talvez sejamos feitos em igual medida do que foi e do que poderia ter sido. E atrevo-me a pensar que é precisamente a ficção que nos conta isso, ou melhor dito, que nos serve de memória dessa dimensão que costumamos deixar de lado na hora de nos relatarmos ou nos explicarmos a nós mesmos e à nossa vida. (…) E, quando descobrimos que algo não era como o vivenciamos – um amor ou uma amizade, uma situação política ou uma expectativa comum até mesmo nacional -, nos aparece na vida real este dilema que tanto pode nos atormentar e que é em grande medida o território da ficção: já não sabemos como vivemos o que vivemos, se foi o que acreditávamos enquanto estávamos enganados ou se devemos lançar isso ao saco sem fundo do imaginário e tratar de reconstruir nossos passos à luz da revelação atual e do desengano.”

Rhoda é definida tanto pelo que foi — a jovem promissora — quanto pelo que não pôde ser, uma astrofísica brilhante. Sua culpa não deriva apenas do acidente, mas da percepção de que sua vida desviou irrevogavelmente do caminho imaginado. A ideia de uma Terra paralela oferece uma fantasia tentadora: a chance de apagar o passado e recuperar a identidade perdida. Contudo, como Marías sugere, a ficção serve como “memória dessa dimensão que costumamos deixar de lado”, permitindo-nos confrontar o que “poderia ter sido”.

O arco de transformação de Rhoda começa quando ela participa de um concurso para viajar à Terra 2, exigindo uma redação de 500 palavras que justifique sua candidatura. Paralelamente, ela busca John Burroughs, agora um homem devastado, e, incapaz de confessar sua culpa, oferece-se para limpar sua casa — um gesto metafórico de reparação. Esses dois atos — escrever a redação e se aproximar de John — tornam-se catalisadores de sua redenção. A escrita, como aponta Dan P. McAdams em seu artigo The Psychology of Life Stories (2001), permite “integrar o passado reconstruído, o presente percebido e o futuro previsto em um mito de vida coerente”. Ao articular sua história, Rhoda começa a compreender suas ações e a aceitar sua responsabilidade, não apenas pelo acidente, mas por sua própria narrativa.

O filme propõe a “teoria dos espelhos estraçalhados”: quando duas realidades colidem, seus destinos se transformam. O relacionamento inesperado entre Rhoda e John, marcado por vulnerabilidade e eventual afeto, reflete essa ideia. Rhoda não pode apagar o passado, mas pode, através da empatia e da reparação, construir um novo futuro. Sua decisão final — oferecer a John a chance de viajar à Terra 2 — simboliza a aceitação de suas ações e a renúncia à fuga. A redenção de Rhoda não está em reescrever o passado, mas em integrá-lo ao presente, encontrando significado na responsabilidade e na conexão humana.

Another Earth transcende a ficção científica ao explorar como enfrentamos nossas perdas e reconstruímos nossas identidades. Rhoda aprende que a vida não é definida apenas pelo que foi ou pelo que poderia ter sido, mas pela coragem de viver o que é, com todas as suas imperfeições.

Deixe um comentário

Tendência