A outra Terra

Nas primeiras cenas de “A outra Terra”,  em imagens granuladas, encontramos a protagonista Rhoda Williams (vivida pela atriz e co-roteirista Brit Marling), recém-saída da escola, celebrando sua aprovação no programa de astrofísica do famoso MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Cenas fragmentadas, em flashes, nos mostram uma jovem alegre, “desgovernada” (como descreve a si mesma em narrativa em off), onipotente, inconsequente, segura de sua vida. Ao voltar para casa, ouve pelo rádio a descoberta de um novo planeta no espaço, aparentemente escondido atrás do Sol. Dirigindo enquanto tenta localizar no céu noturno o planeta mencionado, envolve-se trágico acidente: ela bate seu carro em uma van e mata a família do célebre compositor, John Burroughs, que entra em coma. A jovem é presa por quatro anos e, nesse período, astrônomos descobrem que o tal planeta tem todas as característica da Terra – seria, portanto, uma segunda Terra.

Em seu discurso de agradecimento pelo prêmio recebido pelo romance “Amanhã, na batalha, pensa em mim, o escritor espanhol Javier Marías afirmou:

“E quase sempre nos esquecemos de que a vida das pessoas não são somente isso (somente o que aconteceu, o que realizamos e o que conseguimos): cada trajetória se compõe também de nossas perdas e de nossos desperdícios, de nossas omissões e de nossos desejos irrealizados, do que uma vez deixamos de lado ou não escolhemos ou não atingimos, das numerosas possibilidades que em sua maioria não chegaram a se realizar – todas menos uma, afinal de contas -, de nossas vacilações e nossas fantasias, dos projetos frustrados e dos desejos falsos ou débeis, dos medos que nos paralisaram, do que abandonamos e do que nos abandonou. Nós talvez consistamos, em suma, tanto do que somos como do que não fomos, tanto do que pode se comprovado e quantificado e rememorado, quanto do mais incerto, indeciso e difuso, talvez sejamos feitos em igual medida do que foi e do que poderia ter sido. E atrevo-me a pensar que é precisamente a ficção que nos conta isso, ou melhor dito, que nos serve de memória dessa dimensão que costumamos deixar de lado na hora de nos relatarmos ou nos explicarmos a nós mesmos e à nossa vida. (…) E, quando descobrimos que algo não era como o vivenciamos – um amor ou uma amizade, uma situação política ou uma expectativa comum até mesmo nacional -, nos aparece na vida real este dilema que tanto pode nos atormentar e que é em grande medida o território da ficção: já não sabemos como vivemos o que vivemos, se foi o que acreditávamos enquanto estávamos enganados ou se devemos lançar isso ao saco sem fundo do imaginário e tratar de reconstruir nossos passos à luz da revelação atual e do desengano.”

Num primeiro momento, após sua libertação, Rhoda percebe o abismo entre presente e passado ao constatar que sua autoimagem, idealizada pelos sonhos e promessas de juventude, seguiu pelo caminho da impossibilidade: como se vislumbrasse um espelho destroçado, estilhaçado pelo acaso, Rhoda não se reconhece mais. “O trauma costuma anular nossos sistemas de crenças, roubando-nos nossa noção de significado, forçando-nos a reconstruir nossas vidas” (“The Hapiness Hypothesis”, de Jonathan Haidt).

Rhoda sente-se culpada, refugia-se de todos os seus vínculos sociais anteriores empregando-se como faxineira em uma escola secundária; sente-se diminuída, tenta se punir o tempo todo. Pelo que, no entanto, Rhoda acha que deve flagelar-se: por ser responsável por um ato supostamente imperdoável – a morte de uma família, a desintegração da vida um homem – ou ter sido incapaz de cumprir ou ter deixado escapar todas as promessas de um futuro idealizado, luminoso? Por descobrir que não será jamais quem um dia achou que poderia ser?

O passado onipresente, constantemente evocado, se inadequadamente interpretado, se fraturado do presente pela incapacidade  que a personagem tem de ajustá-lo em uma trama que tenha um sentido para sua vida, anula qualquer possibilidade que o futuro possa trazer. Ao fantasiarmos, infantilmente, modificar o passado idealizado para reescrevê-lo à luz do que somos no presente, não progredimos: apenas ansiamos por reassegurar a identidade orgulhosa e onipotente que tivéramos. Em nossa imaginação, isso poderia ocorrer se pudéssemos voltar no tempo para evitar certos eventos ou simplesmente apagá-los. Mas eis que a ficção científica oferece à protagonista outra possibilidade: a descoberta de uma Terra 2, uma Terra paralela: será que poderíamos viver lá uma outra vida, ter um outro destino? Para a protagonista, escapar para essa outra Terra seria uma fuga de si mesma, pois, quem sabe… poderia tentar recomeçar sua vida recusando sua história, apagando todo seu passado.

Há um concurso patrocinado por certa empresa interessada em mandar uma tripulação para essa outra Terra. Modo de ganhar o “prêmio”: escrever uma redação de 500 palavras justificando por qual motivo deveria ser o vencedor. E aqui se inicia o arco de transformação da protagonista. Paralelamente, enquanto escreve a redação, Rhoda procura o homem a quem causou infortúnio e estabelece com ele, imprevisivelmente, um relacionamento amoroso. Enquanto escreve sua história, enquanto estabelece certo grau de intimidade com esse homem, sobrevivente da mesma tragédia, à sensação de culpa e arrependimento advém aceitação, que até então estava ausente: pela primeira vez, de fato, sente-se responsável pelo que fez. Em determinado momento do filme, um cientista propõe a teoria dos espelhos estraçalhados: quando duas realidades se encontram, mesmo se por acaso, seus destinos são transformados. Rhoda sabe que suas ações tiveram consequências para a vida de outras pessoas e quer tentar restabelecer um equilíbrio, tentando agora oferecer um pouco de felicidade – para ambos. Procura John, o compositor viúvo e, incapaz de lhe pedir perdão, propõe-se a limpar sua casa (como se, metaforicamente, quisesse apagar tudo o que causara). A partir desse momento, é trazida de volta ao presente e o futuro volta a ser possível.

O ato da escrita não é simplesmente catártico; a superação não vem pelo desabafo. A escrita permite compreender. Para Rhoda, as palavras auxiliam na reelaboração da sua história. Possibilitam restabelecer os pontos de sua vida que estavam perdidos, soltos, presos no passado; as palavras permitem “fechar um capítulo aberto que estava afetando seus pensamentos e impediam de levar adiante sua narrativa de vida” (Jonathan Haidt, “The Hapiness Hypothesis”). E reelaborar sua narrativa pessoal não significa simplesmente apagar o passado, mas “integrar o passado reconstruído, o presente percebido e o futuro previsto em um mito de vida coerente e vitalizador” (McAdams, DP – “The psychology of life stories”, 2001). Reencontrar, pelas palavras, um novo ponto de partida.

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