Grandes mestres

As artes marciais, além do treinamento físico, possuem filosofias que devem ser aplicadas à vida de seus praticantes. No primeiro capítulo de “Gorin no sho – o livro dos cinco elementos” (tradução do japonês por José Yamashiro, editora de Cultura, 1992), Miyamoto Musashi (1584-1645), samurai criador da escola de duelo Nitô-Ichi-ryû, a Escola de Duas Espadas, escreveu:

“Treinei e adestrei-me anos a fio nos mandamentos da arte militar da escola chamada Niten-Ichi. (…) Desde a juventude, me interessei pelos mandamentos da arte militar. Enfrentei e venci no primeiro duelo, aos 13 anos, o esgrimista Arima Kihei, da Escola Shintô. (…) Depois, percorrendo muitas províncias e localidades, enfrentei mestres da arte militar de diferentes escolas, saindo vitorioso em mais de sessenta combates. Isso tudo aconteceu dos 13 aos 28 ou 29 anos de idade. Ao passar dos 30 anos, resolvi fazer uma reflexão sobre o meu passado. Não venci apenas pela extrema perfeição da minha arte militar. Talvez dotado de inclinação nata para a arte militar, eu tenha aliado esse talento à obediência às leis naturais.(…) O certo é que, depois dessa idade, prossegui nos meus esforços e treinamentos diários em busca da verdade mais profunda. Como era de esperar, por volta dos 50 anos, acabei encontrando a essência dos mandamentos da arte militar. Desde então, não passo um dia sequer sem ter um mandamento a perquirir. Guiado pela profunda verdade desses mandamentos, procuro aplicá-los em todas as atividades às quais me dedico (…)”.

Refugiado, aos 54 anos, na caverna Reigandô, no monte Iwato, Musashi dedica-se a escrever seu livro e a outras atividades como caligrafia, pintura, escultura de imagens de Buda, poesia e cerimônia do chá. Os exigentes parâmetros das artes marciais devem moldar o caráter dos praticantes, constituindo solo sobre o qual uma vida pautada por um código de honra é construída.

O Budô ou “o caminho para as ações de coragem e iluminação” requer a vivência plena de toda a filosofia marcial. Aos praticantes de Karatê shotokan, a Federação Internacional de Karatê Shotokan recomenda a familiarização com o Dojo Kun, conjunto de preceitos de conduta estabelecido para o treinamento, a ser recitado no começo ou no fim das aulas, e que deve também guiar a vida diária:

“buscar a perfeição de caráter”, “fidelidade para o verdadeiro caminho da razão”, “desenvolver o esforço e a persistência”, “respeito acima de tudo”, “conter o espírito de agressão”.

The grandmasters”, novo filme de Wong Kar-wai, retrata um período da história de Yip Kai-Man ou Ip Man (1893-1972), responsável pela popularização do kung-fu estilo wing chun, e mentor de Bruce Lee. Esse duplo aspecto das artes marciais – treinamento físico e retidão moral – é ressaltado logo no início: originalmente, a palavra kung-fu significa “esforço para obter mérito”; Ip Man acrescenta-lhe dois termos, “vertical” – a representar a força e o mérito de uma conduta virtuosa, capazes de manter um homem em pé – e “horizontal” – o impulso para a luta, para a batalha. Kar-wai não fez um filme de kung-fu – tampouco um filme somente sobre o kung-fu. Em 1936, Gong Yutian, grão-mestre da Associação de Artes Marciais da China, pretende se aposentar e se dirige até Foshan, no sul da China, em busca de um sucessor. Ip Man derrota Gong Yutian sem desferir-lhe um único golpe, e sua mestria é prontamente reconhecida. Dentre as atitudes esperadas de um artista marcial, uma delas é a generosidade. A generosidade do olhar é o exercício de humildade que permite identificar o talento e a bondade de um adversário; significa reconhecer e ultrapassar os limites de nossas perspectivas. Essa espécie de caridade de interpretação ou de entendimento lembra-nos que somos incapazes de conhecer na totalidade as intenções e razões alheias – o que deveria nos impedir de efetuarmos julgamentos imediatos, como se conhecêssemos, de fato, as motivações alheias.

Ip Man vem a conhecer a filha do mestre derrotado, Gong Er (Zhang Ziyi). Realçadas por uma câmera que flagra detalhes como se buscasse apreender a fluidez dos movimentos de mãos e pés, as coreografias estilizadas delimitam os estilos de cada personagem, ecoam a solidão claustrofóbica dos espaços urbanos dos filmes anteriores de Kar-wai e antecipam a inevitabilidade da perda – em determinado momento, podemos acompanhar o exato instante em que floresce a admiração e o amor entre Gong Er e Ip Man, durante uma cena de luta entre ambos; a iminência e a possibilidade do encontro serão desfeitas pelo tempo e por eles mesmos. Um amor que resistirá a concretizar-se: Ip Man é casado, um encontro futuro entre ambos será impedido pela ocupação japonesa da China e o voto de revanche de Gong Er contra Man San, em honra ao pai, torna-se empecilho ao envolvimento com quem quer que seja.

Neste que é um dos melhores filmes de 2013, Kar-wai concebe a passagem do tempo como avanço inexorável da História a arrastar consigo o destino de seus personagens; como retrato dos dilemas éticos das artes marciais, marcados não só pela “virtude adquirida com a devoção à prática”, segundo  Morihei Ueshiba, em “Budô – Ensinamentos do fundador do Aikido” (1991, editora Cultrix), como também pelas renúncias exigidas por uma vida sob um rígido código de honra – “lamentos são inúteis, mas sem eles a vida seria não teria graça”, nas palavras de Gong Er.

2 comentários

  1. Boa tarde Gafanhoto!

    Muito bom texto. Acredito que a tolerncia com nosso semelhante fundamental, mas no podemos deixar de ser conosco.Pois muita vezes, somos muito bons para os outros ou instituies ,mas no to bons para nos mesmos. Dai talvez venha doenas…. Acho que isso uma nova busca que tem feito sentido para mim. Forte Abrao Lino

    Ps: sei que no gosta de televiso ,mas se tiver um tempo para distrao ai vai uma dica: http://globotv.globo.com/rede-globo/globo-reporter/t/edicoes/v/comerciante-surpreende-ao-perdoar-o-assassino-do-proprio-filho/2929407/

    Em 3 de novembro de 2013 12:45, Letra em cena

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