
As artes marciais transcendem o treinamento físico, incorporando filosofias que moldam o caráter e guiam a vida. Em Gorin no Sho (Editora de Cultura, 1992), Miyamoto Musashi (1584-1645), criador da escola Nitô-Ichi-ryû, reflete: “Desde a juventude, me interessei pelos mandamentos da arte militar. […] Depois dos 30 anos, prossegui nos meus esforços e treinamentos diários em busca da verdade mais profunda.” Essa busca pela essência marcial, aliada a um código de honra, é o cerne de The Grandmasters (2013), de Wong Kar-wai, que retrata a vida de Ip Man (1893-1972), mestre do wing chun e mentor de Bruce Lee.
The Grandmasters acompanha Ip Man, mestre do wing chun, em Foshan, China, nos anos 1930. Em 1936, Gong Yutian, líder da Associação de Artes Marciais, busca um sucessor e desafia Ip Man, que o derrota com elegância. A filha de Gong, Gong Er, desenvolve uma conexão emocional com Ip Man durante um combate, mas o amor entre eles é impedido por seu casamento, pela ocupação japonesa e pelo voto de vingança de Gong Er contra Ma San, traidor de seu pai. A narrativa entrelaça lutas estilizadas, dilemas éticos e a passagem do tempo, enquanto a História molda os destinos de Ip Man e Gong Er, marcados por honra e renúncia.

O filme explora o duplo aspecto das artes marciais: a destreza física e a retidão moral. Ip Man define o kung-fu como “esforço para obter mérito”, com dimensões “vertical” (virtude que sustenta a conduta) e “horizontal” (impulso para a luta). Em 1936, Gong Yutian, grão-mestre da Associação de Artes Marciais da China, visita Foshan para escolher um sucessor. Ip Man o supera em uma luta simbólica, demonstrando mestria sem violência, um gesto que reflete a generosidade esperada de um artista marcial. Essa “generosidade do olhar” – a humildade de reconhecer o talento e a bondade alheia – é central tanto ao filme, quanto na relação entre Ip Man e Gong Er (Zhang Ziyi).
A estética de Wong Kar-wai eleva o filme além do gênero marcial. Sua cinematografia captura a fluidez dos movimentos em closes precisos, enquanto a trilha sonora melancólica ecoa a solidão presente em In the Mood for Love. As lutas coreografadas não apenas definem estilos de combate, mas revelam a psicologia dos personagens, como no duelo entre Ip Man e Gong Er, onde a câmera registra o exato momento em que a admiração se transforma em um afeto impossível de se concretizar. A ocupação japonesa e a modernização da China, além do fato de Ip Man ser casado, aceleram suas renúncias, arrastando-os para destinos separados pelo dever.
Como ensina Morihei Ueshiba em Budô (Editora Cultrix, 1991), a virtude nasce da “devoção à prática”, mas exige sacrifícios. Gong Er resume essa contradição: “Lamentos são inúteis, mas sem eles a vida não teria graça.” The Grandmasters é, assim, um estudo sobre ética marcial e perda.











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