Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), de Christopher Nolan, é o capítulo final da trilogia do Cavaleiro das Trevas. Apesar de sua ambição temática e de sua inspiração em Um Conto de Duas Cidades de Charles Dickens, o filme é o mais fraco da trilogia devido a falhas estruturais e narrativas. Diálogos excessivamente expositivos, coreografias de luta mal executadas e preguiçosas, mortes mal encenadas e, por vezes ridícula, e um confronto final anticlimático com Bane, que deveria ser épico, mas resulta em uma resolução abrupta e insatisfatória. Contudo, o filme tem seu aspecto mais interessante ao explorar a decadência moral de Gotham, inspirado pela Revolução Francesa de Dickens, e ao evocar a dicotomia agostiniana entre a Cidade dos Homens e a Cidade de Deus, especialmente no contexto da crise econômica global da época em que foi produzido.

A narrativa de O Cavaleiro das Trevas Ressurge sofre com diálogos que explicam demais, e isso se repete em alguns trabalhos de Christopher Nolan (Interstellar, por exemplo). As falas de Bane frequentemente soam como monólogos didáticos, detalhando sua ideologia revolucionária em vez de mostrá-la através de ações. As coreografias de luta carecem de dinamismo, com movimentos lentos e pouco impactantes, especialmente no confronto final entre Batman e Bane. As mortes de outros personagens, como o policial interpretado por Matthew Modine e a Talia al Ghul de Marion Cotillard, são encenadas de forma caricata, minando o peso dramático. Por fim, a derrota de Bane, um vilão apresentado como uma força imparável, ocorre de maneira abrupta e quase cômica, frustrando a expectativa de um clímax épico.

Apesar dessas falhas, o filme se destaca por sua leitura de Um Conto de Duas Cidades (1859), de Charles Dickens, que descreve os horrores da Revolução Francesa e o reino de terror que se seguiu. Nolan adapta essa narrativa ao retratar Gotham como uma cidade à beira do colapso, onde Bane, um vilão revolucionário, encarna o fervor jacobino. O filme ecoa passagens de Dickens, como a descrição de uma “enorme tempestade na França” (livro II, capítulo 21), em falas como a de Selina Kyle: “Vem tempestade por aí, Sr. Wayne. […] Vocês irão se perguntar como pensaram que poderiam viver com tanto e deixar tão pouco para o resto de nós.” Essa conexão é reforçada por Bane, que, como os revolucionários franceses, liberta prisioneiros, saqueia os ricos e instaura tribunais arbitrários, prometendo liberdade enquanto impõe tirania.

O discurso revolucionário de Bane reflete a visão maniqueísta opressores versus oprimidos. Ele proclama: “Vamos tirar Gotham das mãos dos corruptos, dos ricos e dos opressores”, mas sua revolução degenera em anarquia, isolando Gotham e instaurando o medo. Essa dinâmica é espelhada na Revolução Francesa de Dickens, onde a “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” dá lugar à guilhotina. A citação inicial do romance — “Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos” — estabelece o tom de dualidade que permeia tanto o livro quanto o filme, com Gotham oscilando entre esperança e desespero.

A conexão com Dickens culmina na leitura, por Jim Gordon (Gary Oldman), das palavras finais de Sidney Carton, de Um Conto de Duas Cidades, no suposto funeral de Bruce Wayne: “Vejo uma bela cidade e um povo brilhante emergir do abismo. Vejo as vidas pelas quais abro mão da minha, pacíficas, úteis, prósperas e alegres. Vejo que tenho em seus corações um santuário, e também nos corações de seus descendentes, das gerações vindouras. O que faço é de longe a melhor coisa que fiz na vida; terei um descanso muito melhor do que jamais conheci.” Carton, um homem inicialmente apático, encontra redenção ao sacrificar sua vida por amor, um ato que ressoa com o arco de Bruce Wayne. Após ser derrotado por Bane e aprisionado em um poço infernal, Wayne enfrenta o desespero, mas é inspirado por um prisioneiro a dar um “salto de fé” — não apenas físico, para escapar do poço, mas espiritual, para transcender a Cidade dos Homens.

Aqui, Nolan introduz uma camada teológica inspirada em Santo Agostinho, particularmente em A Cidade de Deus. Para Agostinho, a Cidade dos Homens é marcada pelo amor próprio e pela busca de glória terrena, enquanto a Cidade de Deus é definida pelo amor a Deus e pelo sacrifício. Bane representa a Cidade dos Homens, manipulando Gotham com promessas de liberdade enquanto exerce tirania. Bruce Wayne, ao abandonar o orgulho e abraçar o sacrifício, encarna a transição para a Cidade de Deus. Seu salto sem cordas no poço simboliza essa transformação, ecoando a encíclica Lumen Fidei do Papa Francisco: a fé é “uma luz para as nossas trevas“, guiando Wayne à redenção.

A força do filme também reside em sua contextualização. Lançado em 2012, em meio à crise econômica global, O Cavaleiro das Trevas Ressurge reflete o descontentamento social da época, com movimentos como o Occupy Wall Street. Bane canaliza essa insatisfação, posicionando-se como um libertador dos “oprimidos” contra as elites. Contudo, Nolan subverte o discurso revolucionário, mostrando que a promessa de igualdade de Bane é uma fachada para o caos, uma crítica às utopias coletivistas que, como em Dickens, levam à opressão.

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge é um filme de contrastes. Suas falhas — diálogos expositivos, lutas mal coreografadas, mortes mal executadas e um clímax entre Batman e Bane anticlimático — comprometem sua potência narrativa. Ainda assim, sua leitura de Um Conto de Duas Cidades e a aproximação com Santo Agostinho oferecem gancho para discutir revolução, sacrifício e redenção. Nolan transforma Gotham em um espelho da Revolução Francesa e da crise econômica contemporânea, enquanto o arco de Bruce Wayne ilustra a jornada da Cidade dos Homens à Cidade de Deus. Apesar de suas imperfeições, o filme permanece uma obra interessante, que convida à reflexão sobre os perigos do fervor revolucionário e a força da fé e do sacrifício.

7 respostas para “Gotham City no Abismo: Charles Dickens, Fé e as Fragilidades de O Cavaleiro das Trevas Ressurge”.

  1. Excelente texto. Ouvi pela primeira vez a comparação entre Um Conto de Duas Cidades e o Cavaleiro das Trevas Ressurge num texto do Zizek — culpa do Google, eu juro (mesmo porque o próprio Chistopher Nolan já havia declarado isso, depois descobri). As correlações estabelecidas pelo canhestro esloveno entre o livro e filme foram realmente iluminadoras, e, claro, foi tomar o que ele interpretava como denúncia dos mecanismos de auto-justificação do sistema e tratar como exemplificação do que o roteiro dos Nolan realmente é: uma obra anti-revolucionária. Chega a ser hilária a descrição da frustração com que Zizek diz ter recebido a morte do Bane, um “revolucionário cheio de amor”. E é este ponto que faz o texto do Carlos aqui se tornar espetacular: a comparação entre os sacrifícios de Bane e Bruce Wayne ilustram com perfeição a distinção entre os dois imolados e o patamar em que a Cidade de cada um está.

    Espetacular.

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    1. Obrigado pela gentileza, Alexandre

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    2. Não conheço o texto do Zizek, acho que já me basta o que você escreveu sobre ele!! Um abraço.

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  2. Excelente texto! A única parte que não gostei foi a citação de Olavo de Carvalho! Para mim, você poderia ter citado outros autores que tratam essa questão sobre Revolução de uma maneira mais profunda e complexa!

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  3. Avatar de Júlio César Queiroz Ladeira
    Júlio César Queiroz Ladeira

    Boa tarde… Então, sou um simples professor de História da rede pública e privada do Estado de São Paulo… Estou há anos-luz atrás do conhecimento de grandes professores de História formado por universidades federais, etc… Sou fomado há pouco tempo e tenho 30 anos, lecionando há 5… Sempre que vou citar sobre o Terror da Revolução me vem Bane à mente detonando a cadeia no filme, me remete ao que aconteceu na Bastilha… Depois a cena de tribunal, onde condenam sem julgar…
    Faço referência ao filme nas aulas mas sempre achei pífia minha ideia (o que professores mais formados) pensarão a respeito dessa minha comparação “tosca” do filme com a Revolução?? Ai do NADA, hoje, resolvo digitar aqui no Google: Bane do Batman e Robespierre… Eis que surge este artigo seu e vejo que o que eu achava lorota minha, você também enxergou e ainda disse: nenhum crítico de cinema comentou ou viu.
    Que tudo cara, estou me sentindo super feliz sabendo que “do nada” uma semelhança minha faz sentido e mais ainda: existe um livro conforme vc citoi acima de onde o filme foi inspirado… Estou feliz comigo mesmo em saber que minhas ideias fazem sentindo. Agradeço ao site. Parabéns!!!

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  4. 23 de Janeiro se 2023, acabei de ver o filme e a leitura do comissário Gordom no funeral de Bruce Wayne me fizeram procurar no Google e encontro esse artigo.

    Incrível. Os ataques as sedes dos três poderes no dia 8 de Janeiro não param de me chegar a cabeça em comparação a tudo o que eu li aqui.

    A história se repete, sempre!

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