Improviso

“O que existia, existe, entre nós, é uma ciência do desaparecimento. Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que os teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus.” 

“És agora apenas uma fotografia ao lado da minha insônia. Uma memória que me fala sobretudo, como todas as memórias, daquilo que não existiu. Nesta fotografia te esqueço. Meticulosamente, de cada vez que me esforço por reter-te e começo a inventar-te. Tudo em ti tem asas, agora – o teu riso, os teus passos. Até nas poucas frases que de ti recordo há um restolhar de penas. E deslizo para esta solidão demasiado humana de não poder voltar a ser sozinho, como era quando tu existias, nesta mesma cidade, e eu já nem sequer pensava em ti.” (Fazes-me falta“, Inês Pedrosa).

 

Foi com grande satisfação que assisti, via YouTube, a um vídeo com o excelente ator Jeremy Irons encenando a peça “Improviso de Ohio”, de Samuel Beckett (1906-1989; premiado com o Nobel de literatura em 1969).

Improviso de Ohio” é um elemento estranho na dramaturgia de Beckett, pois é sua única peça de amor. Representada pela primeira vez em Ohio, em 1981, trata do difícil trabalho de luto após a perda do ser amado. Na verdade, não propriamente um trabalho de luto: a peça trata da reelaboração do passado sobre o presente, como forma de superá-lo.

Temos um Leitor e um Ouvinte, “tão semelhantes quanto possível”; o Ouvinte escuta do Leitor a sua própria história, que é a história de uma perda; é a história daquele que fica, de quando só resta um, a sós com sua sombra. Mais do que simplesmente ouvir, o Ouvinte comanda o ritmo do Leitor: impede tanto a progressão da leitura, durante passagens de forte conteúdo emocional, quanto a retomada de episódios previamente mencionados.

Em “A ignorância”, Milan Kundera escreveu sobre a nostalgia e o esquecimento:

“Quanto mais forte a nostalgia, mais ela se esvazia de lembranças (…) pois a nostalgia não intensifica a atividade da memória, não estimula as lembranças, ela basta a si mesma, à sua própria emoção, tão totalmente absorvida por seu próprio sofrimento.”

A nostalgia, o sofrimento pela impossibilidade do regresso do ser amado, domina o presente, sufoca-o com seu chamado doce e insistente, anulando o passado. A história relida pelo Leitor, recontada progressivamente, recontada enquanto restar cada vez menos a dizer, mais do que um trabalho de luto (segundo o dr. Freud, “o luto aparece sob a influência da prova de realidade, que exige de maneira imperativa que nos separemos do objeto, o qual não existe mais. Desde então, a função do luto é trabalhar para retirar do objeto os investimentos, em todas as ocasiões em que o objeto foi dotado de um investimento elevado”), é a tentativa de fazer triunfar o passado, de consolidar sua permanência sobre um presente nostálgico que gira em falso, que dissolve a si mesmo em esquecimento. É a tentativa de estabelecer a memória daquela relação que se perdeu. A memória é a exaustão da história relida: quando não resta mais nada a ser dito.

A peça tem uma expressão-chave de difícil tradução para o português, “alone together”, que podemos ver nesta passagem (no vídeo, aos 2min36s): Stay, where we were so long alone together”. Maria Helena Kopschitz e Haroldo de Campos, em tradução datada de 1994, propuseram “a sós juntos”. Inspirada por um poema de Fernando Pessoa, Leyla Perrone-Moisés, em tradução publicada pelo caderno Mais da Folha de São Paulo, de 8 de dezembro de 1996, optou, engenhosa e elegantemente, por “dois a sós” (“Fica, onde por tanto tempo fomos dois a sós”). Quando a tradução da Leyla Perrone foi publicada, guardei o recorte do jornal, porque havia gostado bastante da peça e não sabia se um dia seria editada em livro. Tenho-o até hoje.

Assista ao vídeo, legendado em português. Faço apenas uma pequena crítica construtiva aos que postaram o vídeo e tiveram o trabalho de sincronizar as legendas às falas para o YouTube: faltou mencionar que a tradução utilizada foi a realizada pela Leyla Perrone-Moisés. E, abaixo do vídeo, segue “In the aeroplane over the sea“, do Neutral Milk Hotel, que acho que combina bem com a peça.

5 comentários

  1. Excelente texto. Atuação fantástica de Jeremy Irons. Adorei a música: realmente deu um fechamento bacana à sua produção. Desculpe a invasão desta estranha, mas vou compartilhar o seu rico conteúdo.

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  2. Carlos,

    Enviei-lhe uma mensagem pedindo-lhe que, se possível, me remetesse os artigos que você escreveu sobre utopia. Não recebi resposta. Reitero aqui o pedido. Será que dá? Abraços, Léa

    ________________________________

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    1. Olá, desculpe-me, não vi a mensagem; à exceção dos textos do blog, “A realidade imaginária”e “Os limites dos ideais”, se não me falha a memória, não escrevi mais nada sobre utopia.Não os tenho em word ou pdf, basta imprimir do blog. Mas se me permite, recomendaria o livro do Martim Vasques da Cunha, “Crise e Utopia” – é bastante denso; o próprio livro do Thomas More, “Utopia”. O blog está meio desativado, qualquer coisa que precisar, me contate por email: cralmeidajr@uol.com.br. É isso, abraços,

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