“O que existia, existe, entre nós, é uma ciência do desaparecimento. Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que os teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus.”
“És agora apenas uma fotografia ao lado da minha insônia. Uma memória que me fala sobretudo, como todas as memórias, daquilo que não existiu. Nesta fotografia te esqueço. Meticulosamente, de cada vez que me esforço por reter-te e começo a inventar-te. Tudo em ti tem asas, agora – o teu riso, os teus passos. Até nas poucas frases que de ti recordo há um restolhar de penas.” (Fazes-me falta, Inês Pedrosa).

Improviso em Ohio (1981), de Samuel Beckett (1906-1989, Nobel de Literatura em 1969), é uma peça singular em sua dramaturgia, tanto por sua economia formal quanto por sua abordagem à memória e à perda: ela explora não o luto em seu sentido freudiano clássico – um processo de desligamento progressivo do objeto perdido –, mas a reelaboração do passado como tentativa de fixá-lo no presente, ainda que às custas de sua dissolução. A peça apresenta dois personagens, Leitor e Ouvinte, descritos como “tão semelhantes quanto possível”, em um diálogo que é, na verdade, um monólogo fraturado: o Leitor lê a história do Ouvinte, a história de uma perda, enquanto o Ouvinte regula o ritmo da narrativa, interrompendo-a em momentos de intensidade emocional ou recusando revisitar episódios já narrados.

A “ciência do desaparecimento” que permeia a peça não é apenas a ausência do outro, mas a erosão do “eu” que existia em relação a ele. O que resta é uma memória que, paradoxalmente, diz respeito mais ao que nunca existiu do que o que aconteceu. Este ensaio analisa como Improviso em Ohio encena esse paradoxo, com foco na expressão “alone together” e sua difícil tradução para o português, a fim de exprimir poeticamente a tensão entre unidade e isolamento.

A nostalgia e a exaustão da memória

Milan Kundera, em A Ignorância, oferece uma chave para compreender a dinâmica da memória na peça:

Quanto mais forte a nostalgia, mais ela se esvazia de lembranças (…) pois a nostalgia não intensifica a atividade da memória, não estimula as lembranças, ela basta a si mesma, à sua própria emoção, tão totalmente absorvida por seu próprio sofrimento.”

A nostalgia, em Improviso em Ohio, não é um veículo de recuperação do passado, mas um peso que sufoca o presente. O Leitor, ao reler a história da perda, não busca apenas reconstituí-la, mas fixá-la como um monumento à relação perdida. Contudo, cada releitura esvazia a narrativa, reduzindo-a a fragmentos exauridos. Diferentemente do luto descrito por Freud, que culmina na liberação dos investimentos afetivos no objeto perdido, o processo em Improviso em Ohio é circular: a repetição da história não liberta, mas aprisiona o sujeito em um presente nostálgico que se dissolve em esquecimento.

A interação entre Leitor e Ouvinte reforça essa circularidade. O Ouvinte, ao interromper a leitura ou proibir a repetição de trechos, exerce um controle que não é libertador, mas restritivo: ele impede que a narrativa avance ou se fixe, mantendo-a em um estado de suspensão. A história, assim, não é apenas contada, mas dissecada, até que reste apenas o vazio – o “nada a ser dito”.

A tradução poética de “alone together”

No cerne da peça está a expressão “alone together”, presente na frase: “Stay, where we were so long alone together”. A expressão carrega uma ambiguidade intraduzível: sugere simultaneamente a intimidade de uma relação compartilhada (“juntos”) e o isolamento de cada indivíduo dentro dela (“a sós”). Não é meramente uma dualidade numérica, é um paradoxo que reflete a própria estrutura da peça, onde Leitor e Ouvinte são ao mesmo tempo um só e separados, compartilhando uma história que os une e os condena à solidão.

A tradução dessa expressão para o português enfrenta desafios tanto semânticos quanto poéticos. Maria Helena Kopschitz e Haroldo de Campos, em 1994, optaram por “a sós juntos”, uma solução que preserva a literalidade, mas carece da fluidez rítmica do original. Leyla Perrone-Moisés, em 1996, propôs “dois a sós” (“Fica, onde por tanto tempo fomos dois a sós”), inspirada em Fernando Pessoa (“Hoje, falho de ti, sou dois a sós”). Essa escolha é mais elegante e poética, pois evoca a dualidade de uma relação que é, ao mesmo tempo, fusão e separação.

A memória como exaustão

Improviso em Ohio não é uma peça sobre luto, mas sobre a tentativa de fazer o passado prevalecer sobre um presente que se esvazia. A interação entre Leitor e Ouvinte, mediada pela expressão “alone together”, encena a luta para preservar a memória de uma relação perdida, mesmo que isso signifique dissolvê-la em repetições exaustivas. A nostalgia, como sugere Kundera, não reaviva o passado, mas o consome, deixando apenas o eco de uma ausência.

A memória, como as asas que se dissipam – o “restolhar de penas” da epígrafe que abre este texto – é ao mesmo tempo vívida e fugidia. Em Improviso em Ohio, Beckett nos confronta com a fragilidade da memória e a impossibilidade de fixar o que foi perdido, seja pela narrativa, seja pela linguagem. A expressão “alone together”, com sua intraduzível ambiguidade, é o cerne dessa impossibilidade – um lembrete de que toda tentativa de reter o outro é, também, uma forma de perdê-lo.

5 respostas para “A ciência do desaparecimento em Improviso em Ohio, de Samuel Beckett”.

  1. parabéns muito bom Abç Lino

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  2. Excelente texto. Atuação fantástica de Jeremy Irons. Adorei a música: realmente deu um fechamento bacana à sua produção. Desculpe a invasão desta estranha, mas vou compartilhar o seu rico conteúdo.

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  3. Avatar de Lea Nilse Mesquita
    Lea Nilse Mesquita

    Carlos,

    Enviei-lhe uma mensagem pedindo-lhe que, se possível, me remetesse os artigos que você escreveu sobre utopia. Não recebi resposta. Reitero aqui o pedido. Será que dá? Abraços, Léa

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    1. Olá, desculpe-me, não vi a mensagem; à exceção dos textos do blog, “A realidade imaginária”e “Os limites dos ideais”, se não me falha a memória, não escrevi mais nada sobre utopia.Não os tenho em word ou pdf, basta imprimir do blog. Mas se me permite, recomendaria o livro do Martim Vasques da Cunha, “Crise e Utopia” – é bastante denso; o próprio livro do Thomas More, “Utopia”. O blog está meio desativado, qualquer coisa que precisar, me contate por email: cralmeidajr@uol.com.br. É isso, abraços,

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