My Favourite Faded Fantasy, de Damien Rice, chegou oito anos após “9”(2006), hiato que reflete a busca do artista por autenticidade em meio a bloqueios criativos e turbulências pessoais. No Brasil, Rice é por vezes reduzido às horríveis versões de Seu Jorge e Ana Carolina para “The Blower’s Daughter”. Esqueça-as. Este álbum é um mergulho folk de oito canções, guiado por piano e cordas – ora sussurrantes, ora intensamente dramáticos, sob a produção precisa de Rick Rubin. Sem cair em sentimentalismos fáceis, Rice mapeia relacionamentos marcados por desencontros, silêncios que pesam e promessas frágeis, como em “I Don’t Want to Change You”, onde canta: “I just came across a manger / out among the danger / somewhere in a stranger’s eye”.

Suas letras retratam memórias como fotografias rasgadas, divididas entre amantes: sozinhas, as metades são borrões, órfãs de sentido. Em “The Greatest Bastard”, ele reflete: “Cause we never wanted to be lusty or lewd / nor tethered to prudish strings”, expondo a tensão entre desejo e repressão. São fantasias desbotadas que sangram ausências, felicidades fugazes e expectativas impossíveis, tecidas no cotidiano e corroídas pelo tempo.

Rice convida a ouvir suas músicas com atenção. Este é um álbum que ressoa na solidão e na fragilidade humana, consolidando-o como um dos grandes poetas musicais de sua geração.

5 respostas a “Damien Rice e o mapa dos desencontros”

  1. Acompanho há muito tempo o seus textos, Carlos. Vejo que um tema recorrente por aqui é a respeito do passado, de traços de memórias, de lembranças disformes, de superar as experiências que vivenciamos … Gostaria de dar uma sugestão sobre um tema ou até mesmo saber sua opinião a respeito. Para tanto, uso a seguinte analogia: Cs Lewis faz um paralelo que o casamento que mais se aproxima do casamento de Cristo com a Igreja é de um marido que consegue amar a uma esposa menos digna do que ele. Pois bem, a pergunta é bastante simples: como superar o passado de sua amada? Como lidar com o fato que o passado de sua amada é indigno de você? E isso de certa forma de causa muita dor? De tal forma que você possa amar apesar dos erros e ver que você ama aquela essência e não seus erros e más experiências. No presente caso, você não lida com suas próprias memórias, mas com a do outro. Damien Rice possui o seguinte trecho: “And we cant take back what is done, what is past”. Creio que sua indicação de filme Amor Pleno também transmita uma mensagem do verdadeiro amor que talvez possa vir a superar isso. Mas há como conviver com um amor tão doloroso? Pois bem, espero que eu tenha sido claro. Quem sabe possamos trocar algumas palavras. Parabenizo os seus textos e me indentifico bastante com suas ideias, principalmente quando você fala de sentimentos e aspectos da nossa existência. Abraço!

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    1. Olá Ricardo, obrigado pela leitura atenta! Permita-me uns dias pra formular uma resposta à altura de suas colocações! Preciso elaborá-la, embora já saiba por onde começar – pelo filme que mencionou, Amor Pleno. Grande abraço!

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    2. Um dos temas que me interessam e que estão diluídos em muitos textos por aqui é a necessária compreensão do passado para nos situarmos no presente. Há 2 razões pelas quais podemos facilmente fracassar: nossos mecanismos de memória são imperfeitos, biologicamente; e são imperfeitos epistemologicamente: nossas crenças, ideias, metas, nossos objetivos influenciam seletivamente aquilo que recordamos e a perspectiva que temos no presente é capaz de enviesar a forma como enxergamos o passado; corremos atrás de evidências do passado que indiquem uma certa estabilidade a respeito de nossa identidade; buscamos estabelecer uma identidade coerente através do tempo e a memória autobiográfica pode servir à sua elaboração, realçando percepções individuais de consistência pessoal ao longo dos anos. Portanto, o exame de consciência é difícil e exige humildade de nossa parte. Dito isso, essa mesma humildade deveria ser aplicada quando olhamos para o passado dos outros. O filme do Malick recebeu a pior tradução possível em português: exatamente o que o filme não mostra é o “amor pleno”. O original, to the wonder, “para o maravilhamento”, ou “em direção à maravilha”, ou “maravilhar-se”, mostra a dissolução de um casal que, por incapacidade de perceber o “wonder”, permaneceu refém de mesquinharias, de ressentimentos, de nostalgia por um passado inexistente e inalcançável. “You shall love”, diz o padre Quintana, ecoando Kierkegaard, que nas “Obras do amor”, escreveu: tal como os raios de sol convidam o homem a contemplar, com seu auxílio, a magnificência do mundo, mas advertindo castigam o temerário com a cegueira quando este se volta indiscretamente e atrevido para descobrir a origem da luz; tal como a fé, acenando, se oferece ao homem como companheira de viagem no caminho da vida, mas petrifica o atrevido que se volta para compreender abusadamente; assim também é o desejo e o pedido do amor que a sua origem escondida e a sua vida oculta no mais íntimo permaneçam um segredo (…) assim também é o sofrimento mais doloroso e também o mais prejudicial quando alguém em vez de se alegrar com o amor em suas manifestações quer alegrar-se em esquadrinhar o amor (…)”.
      “Tu deves amar. Só quando amar é um dever, só então o amor está eternamente assegurado contra qualquer mudança; eternamente libertado em bem-aventurada independência; protegido eterna e felizmente contra o desespero.”
      Tornado dever, o amor liberta. Tornado dever, o amor deixa de buscar causa ou fruto (Padre Vieira), ou de olhar, ressentido, para o passado. Inseguro de si, o amor espontâneo quer ser posto à prova constantemente e se torna escravo, para se manter ou perecer, da contingência do seu objeto. Na cena final, vemos a personagem de Olga Kurylenko olhar para trás para buscar a “maravilha”, o Monte Saint Michel, enquanto caminha por uma paisagem desértica, árida, seca, vazia. Henry Adams, em Mont Saint Michel and Chartres escreveu: “When men no longer felt the passion, they fell back on themselves, or lower. (…) The architect meant it to reassert, with all the art and grace he could command, the mastery of love, of thought and poetry, in religion (…) the whole Mount still kept the grand style; it expressed the unity of Church and State, God and Man, Peace and War, Life and Death, Good and Bad; it solved the whole problem of the universe. God reconciles all. The world is an evident, obvious, sacred harmony. (…) a symbol of unity; and assertion of God and Man in a bolder, stronger, closer union than ever was expressed by other art; and when the idea is absorbed, accepted, and perhaps partially understood, one may move on.” Os personagens se mostram incapazes de perceber a Unidade por trás de tudo, a harmonia sagrada do mundo, então são incapazes de tornar o amor um dever, assentado na Eternidade; estão reduzidos a si mesmos, reduzidos a um mundo infértil. Maravilhar-se nesse amor como manifestação da harmonia que nos reconcilia com Deus é o antídoto para o amor que se ressente com facilidade e que busca firmar-se tendo por testemunhas aqueles que perderam a sua liberdade (lembre-se da cena em que as testemunhas do casamento são todos…presidiários!). Espero que essas palavras de alguma forma o ajudem na compreensão do filme e das questões que colocou. Recomendo a leitura da resenha deste filme feita pelo melhor crítico de cinema do país, Martim Vasques da Cunha, neste link: http://martimvasques.blogspot.com.br/2013/08/as-maravilhas-de-terrence-malick.html. Abraços, Carlos.

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