
A segunda vinda (W.B. Yeats, 1919)
(tradução de Adriano Scandolara)
Gira e gira no vórtice crescente
Não escuta o falcão ao falcoeiro;
As coisas vão abaixo; o centro cede;
Mera anarquia é solta sobre o mundo,
Solta a maré de sangue turva, afoga-se
Por toda parte o rito da inocência;
Falta fé aos melhores, já os piores
Se enchem de intensidade apaixonada.
Por certo, há revelações a vir;
Por certo, há a Segunda Vinda a vir.
Segunda Vinda! Mal saem tais palavras,
E a vasta imagem do Spiritus Mundi
Perturba-me a visão: lá no deserto
Um vulto de leão com rosto de homem,
O olhar vago, impiedoso como o sol,
As lentas coxas move, tendo em torno
Sombras de iradas aves do deserto.
Cai a treva outra vez, mas ora sei
Que o pétreo sono de seus vinte séculos
Vexou-se ao pesadelo por um berço.
Que besta bruta, de hora enfim chegada,
Rasteja até Belém para nascer?
A Crise do Sentimentalismo e a Redenção pela Beleza
A Segunda Vinda captura a desordem espiritual da modernidade: “As coisas vão abaixo; o centro cede; / Mera anarquia é solta sobre o mundo”. Essa fragmentação, marcada pela perda de sentido e pela dissolução de ideais, é o pano de fundo para esta análise do livro de Gregory Wolfe: A beleza salvará o mundo – recuperando o humano em uma era ideológica. Wolfe argumenta que a arte, por meio da beleza, pode restaurar a unidade perdida, superando os simulacros culturais que caracterizam nossa época, como o sentimentalismo.
O Sentimentalismo como Simulacro
O filósofo Michael Tanner, em seu ensaio “Sentimentality” (1977), cita Oscar Wilde para definir o sentimentalismo: “Sentimentalista é aquele que deseja possuir o luxo de uma emoção sem pagar nada por ela”. Essa ideia é usada como epígrafe no capítulo final de Podres de mimados – as consequências do sentimentalismo tóxico, de Theodore Dalrymple, que descreve o sentimentalismo como uma atitude infantilizada, que se deleita em emoções sem buscar envolvimento profundo com as situações que as provocam. Dalrymple aponta três características centrais do sentimentalismo: ele demanda uma resposta emocional de quem o testemunha, tornando-se constrangedor; dissimula a realidade ao sustentar crenças ingênuas, como a bondade inata do homem; e prioriza a autocongratulação em detrimento de ações concretas.
Essa crítica é complementada por Mark Edmundson em Nightmare on Main Street (1997), onde ele analisa a banalização da transcendência na cultura ocidental. Desde o final do século XVIII, a abertura da alma ao transcendente foi reduzida a uma terapia superficial, baseada na crença de que a autotransformação é imediata e depende apenas da vontade. Em Self and Soul – A Defense of Ideals (2015), Edmundson argumenta que essa tendência resultou em uma cultura de simulação, onde a coragem é substituída por jogos, a sabedoria por informação e a compaixão por filantropia. Ele escreve:
“Uma força tecnológica enorme, complexa e impressionante, que pode ser usada para alimentar o mundo ou para livrá-lo de doenças, é, em vez disso, dedicada ao entretenimento – a proporcionar experiências que fabricam estados de alma. Estas invenções testemunham tanto o nosso medo dos estados de alma – são formas de manter ideais perigosos à distância – como a nossa fome de ideais.”
Em resumo, é a substituição da vida voltada para o espírito pela vida voltada para o “eu”

O Kitsch e a Ilusão da Virtude
O sentimentalismo, como simulacro, está intimamente ligado à estética kitsch, descrita por Milan Kundera em A insustentável leveza do ser: “
Quando o coração fala, não é conveniente que a razão faça objeções. No reino do kitsch, impera a ditadura do coração. O kitsch faz nascer, uma após a outra, duas lágrimas de emoção. A primeira lágrima diz: como é bonito crianças correndo no gramado. A segunda lágrima diz: como é bonito ficar emocionado, junto com toda a humanidade, diante de crianças correndo no gramado”.
O objeto real – as crianças – é idealizado, servindo apenas como pretexto para a autoproclamação de virtude. Não são as crianças correndo no gramado os objetos reais de suas emoções, o sentimentalista não quer saber sobre essas crianças. A gratificação do sentimentalista deriva da ausência de reflexão, o que o torna incapaz de enfrentar a complexidade da condição humana.
Essa incapacidade reflete uma crise mais ampla: a marginalização da fé e o desprezo pela imaginação. A modernidade, ao rejeitar a ideia de uma ordem transcendente, substituiu a busca por significado metafísico por narrativas simplistas, como as encontradas em filmes que privilegiam fatos em detrimento da profundidade imaginativa. Essa crise é agravada pela adesão a ideologias políticas que, como a “nova direita” ou a “velha esquerda”, prometem salvação sem considerar as raízes culturais da sociedade.

A Beleza como Caminho de Redenção
Gregory Wolfe propõe uma alternativa a essa fragmentação. Em A beleza salvará o mundo, ele afirma: “Se a arte não pode salvar nossas almas, pode ao menos fazer muito para remir a época, dando uma verdadeira imagem de nós mesmos, tanto no horror e tédio a que estamos sujeitos, quanto na glória em que, por raros momentos, podemos ter o privilégio de vislumbrar.” A arte, por meio da beleza, é capaz de partir do “centro que não se sustenta” (Yeats) e apontar para a ordem, oferecendo visões de unidade que transcendem o eu.
Wolfe argumenta que a beleza suaviza as arestas da verdade e da bondade, tornando seus apelos significativos: “Na arte, a beleza apara as arestas da verdade e da bondade, e as força a ‘colocar os pés no chão’, onde precisam fazer sentido ou ser reveladas como impostoras.” Ele destaca a interação entre fé e arte como essencial para essa renovação. A fé exige que a arte vá além da virtuosidade formal, enquanto a arte pede que a fé se encarne na condição humana, mantendo-se atraente e relevante.
Por exemplo, obras como Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski ou as pinturas de Caravaggio ilustram como a arte pode confrontar a desordem humana e, ao mesmo tempo, apontar para a transcendência. Essas obras desafiam o sentimentalismo ao exigir reflexão e envolvimento profundo, em vez de gratificação imediata.
Conclusão
A modernidade, com seu sentimentalismo e simulacros, fragmentou o indivíduo, afastando-o da fé e da imaginação. Como T.S. Eliot sugere, a renovação exige “o custo que é nada menos que tudo”. A proposta de Wolfe é clara: somente a beleza, mediada pela arte, pode restaurar a verdadeira imagem do humano, superando a desordem descrita por Yeats. Essa transformação, no entanto, exige que abandonemos as ilusões do kitsch e da ideologia, reidratando as raízes culturais por meio da imaginação. A arte não é apenas um espelho da condição humana, mas um caminho para sua redenção.











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