A beleza salvará o mundo

A Segunda Vinda

 W.B.Yeats

Gira e gira no vórtice crescente
Não escuta o falcão ao falcoeiro;
As coisas vão abaixo; o centro cede;
Mera anarquia é solta sobre o mundo,
Solta a maré de sangue turva, afoga-se
Por toda parte o rito da inocência;
Falta fé aos melhores, já os piores
Se enchem de intensidade apaixonada.

Por certo, há revelações a vir;
Por certo, há a Segunda Vinda a vir.
Segunda Vinda! Mal saem tais palavras,
E a vasta imagem do Spiritus Mundi
Perturba-me a visão: lá no deserto
Um vulto de leão com rosto de homem,
O olhar vago, impiedoso como o sol,
As lentas coxas move, tendo em torno
Sombras de iradas aves do deserto.
Cai a treva outra vez, mas ora sei
Que o pétreo sono de seus vinte séculos
Vexou-se ao pesadelo por um berço.
Que besta bruta, de hora enfim chegada,
Rasteja até Belém para nascer?

(tradução de Adriano Scandolara)

Segundo o filósofo Michael Tanner, a única ocasião na qual Oscar Wilde alcançou profundidade foi quando descreveu o poeta Alfred Douglas como sentimentalista. No ensaio intitulado “Sentimentality”, publicado em 1977, Tanner indica as palavras usadas por Wilde para especificar a disposição sentimentalista e superficial de seu amante, Douglas:

“Sentimentalista é aquele que deseja possuir o luxo de uma emoção sem pagar nada por ela”

Essa citação é utilizada como epígrafe no capítulo final de “Podres de mimados – as consequências do sentimentalismo tóxico”, do psiquiatra inglês Anthony Daniels, a.k.a Theodore Dalrymple. O sentimentalismo não consiste apenas em expressar emoções sem julgamentos, mas consiste em fazê-lo publicamente – por isso é tóxico; a atitude sentimental:

  • é infantilizada – o sentimentalista se regala com seus sentimentos sem almejar por envolvimento mais sério tanto com as situações que os trouxeram à tona quanto com quaisquer tentativas de transformá-los em ações;
  • demanda uma resposta daqueles que a testemunham – e se torna tanto mais intimidadora quanto mais constrangedora for a exibição dos sentimentos;
  • dissimula a realidade, porque a disposição sentimental se apega a um conjunto de crenças equivocadas, como a de que o homem nasce bom e perfeito e é corrompido (pela sociedade, por traumas de infância, por abduções alienígenas);

Em “Nightmare on main street – angels, sadomasochism and the culture of gothic”, Mark Edmundson apontou para o fenômeno da banalização da abertura da alma à transcendência (processo que tem ocorrido desde fins do século XVIII, como reação à noção gótica de que habitamos um mundo fatalmente “assombrado”), convertida em uma espécie de terapêutica do sublime padrão Forrest Gump, cuja crença básica é a de que a autotransformação não só é possível como depende da vontade (basta querer, confiar em si mesmo, anunciar ao mundo as suas “verdades” que o mundo se renderá a você, de modo que suas ideias e mesmo a sua vida se transformarão em frases feitas em boca alheia) e acontece num piscar de olhos; no ensaio “Why we need to resurrect our souls”, e em seu mais recente livro, “Self and soul – a defense of ideals”, ele descreve o preço a pagar: a transformação da cultura ocidental não em mera cultura da imagem, mas numa cultura da simulação; ele trata do estabelecimento de um simulacro de cultura, de uma cultura simuladora dos anseios da alma, na qual a coragem é substituída pelos jogos, a sabedoria, pela informação e a compaixão pela filantropia.

“An enormous, complex, and stunning technological force, which might be used to feed the world or to rid it of disease, is instead devoted to entertainment — to delivering experiences that fabricate states of soul. These fabrications testify to both our fear of soul states — they are ways of holding dangerous ideals at arm’s length — and our hunger for ideals.”

Em resumo, é a substituição da vida voltada para o espírito pela vida voltada para o self:

“Plato, Homer, Jesus, Buddha, Blake — these figures will not readily die, and we will not let them. We simulate (or suppress) their visions now in ways that are almost laughable, but those simulations testify to our need for ideals that transcend the self. Someday we will perhaps get tired of living among shadows in a cave.”

O sentimentalismo é outro dos simulacros dos anseios da alma. O foco do sentimentalista é a autocongratulação, pois ambiciona expressar emoções genuínas e virtuosas em uma espécie de comunhão (laica) com o resto da humanidade. A adesão ao credo sentimental se torna a marca distintiva da virtude.   É a estética kitsch, descrita por Milan Kundera em “A insustentável leveza do ser”:

“Quando o coração fala, não é conveniente que a razão faça objeções. No reino do kitsch, impera a ditadura do coração. O kitsch faz nascer, uma após a outra, duas lágrimas de emoção. A primeira lágrima diz: como é bonito crianças correndo no gramado. A segunda lágrima diz: como é bonito ficar emocionado, junto com toda a humanidade, diante de crianças correndo no gramado”.

Não são as crianças correndo no gramado os objetos reais de suas emoções, o sentimentalista nada sabe sobre essas crianças; as crianças reais são convertidas em objetos idealizados que deflagram a gloriosa impressão de que somos sensíveis e virtuosos, ao baratearmos essa suposta inocência infantil. A satisfação decorre da ausência de reflexão acerca dos objetos que suscitaram tais emoções. A gratificação irrefletida, tal qual guloseima hipercalórica, basta-se a si mesma.

Escapar do sentimentalismo implica encontrar a expressão adequada para os próprios sentimentos; trata-se de um processo de depuração, que resultará em uma conquista moral e imaginativa. É desvelar “o biombo que dissimula a morte”, a aparência de virtude que, como todo simulacro, nos fragmenta, pois tenciona excluir de nossa perspectiva tudo o que a condição humana tem de inaceitável. O sentimentalismo é mais um dos sintomas da enfermidade espiritual da modernidade; são todos sintomas interligados: o sentimentalismo, a marginalização a fé (pois a modernidade não admite a ideia de que o homem deve agir a partir de uma ordem transcendente) e o desprezo pela imaginação (basta ver o fetiche do cinema contemporâneo por “filmes baseados em fatos reais”).

E é justamente a imaginação que pode ser capaz de nos ajudar a nos desfazermos dos simulacros, a revitalizarmos os anseios da alma suprimidos pela tecnologia do entretenimento e a buscarmos nossa verdadeira imagem. Em “A beleza salvará o mundo – recuperando o humano em uma era ideológica”, Gregory Wolfe nos diz que

“Se a arte não pode salvar nossas almas, pode ao menos fazer muito para remir a época, dando uma verdadeira imagem de nós mesmos, tanto no horror e tédio a que estamos sujeitos, quanto na glória em que, por raros momentos, podemos ter o privilégio de vislumbrar”.

A arte é capaz de partir do “centro que não se sustenta”, de que fala a poesia de Yeats, da desordem, dessa fragmentação do indivíduo moderno (sentimentalista, desligado do passado, que marginaliza a fé e despreza a imaginação) e apontar para a ordem, para novas visões de unidade. Somente a beleza, segundo Wolfe, é capaz de aparar as arestas da verdade e da bondade, de tornar seus apelos significativos. Precisamos entender de uma vez por todas que a verdadeira renovação de nossa época exige, nas palavras do poeta T.S.Eliot, o “custo que é nada menos que tudo”. Nestes tempos de movimentação nas ruas e de vivas para o surgimento da “nova direita”, ainda nos encontramos submissos ao pensamento ideológico, que desdenha da imaginação e crê na salvação pela política. É a arte que nos mostra que os ramos superiores da política só poderão ser aparados se reidratarmos as raízes da cultura:

“Na arte, a beleza apara as arestas da verdade e da bondade, e as força a “colocar os pés no chão”, onde precisam fazer sentido ou ser reveladas como impostoras. (…) Quando duas culturas se tocam, instantaneamente se desafiam, impedindo os excessos característicos uma da outra. A fé pede à arte que seja mais do que virtuosidade formal e que considere que o significado é algo inerentemente metafísico, até mesmo religioso, por si só. A arte pede à fé que se encarne na condição humana sem concessões – ou evasões – e continue irresistivelmente atraente.”

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